Lilian, a protagonista deste livro, mora sozinha no décimo terceiro andar do Baroneza, edifício situado em uma zona fronteiriça, próximo a uma linha de trem. Dentro de seu uma mesa, quatro cadeiras, um sofá, uma TV, poucas plantas, um quadro com o contorno do mapa da América do Sul. Lilian quer preparar um jantar para a família.
A partir de um universo a priori restrito, composto por poucos elementos, e por meio de uma linguagem que dispensa floreios, A cabeça boa encadeia situações que se revelam absurdas. A narração em segunda pessoa — como se a Lilian autora se dirigisse à Lilian personagem — acentua a sensação de estranhamento e o humor "Você explica ao homem desconhecido que, tecnicamente, seu pai e sua mãe são fantasmas".
Parte da "tetralogia da perda", série de livros que Lilian Sais escreve sobre o luto após a morte do seu pai, A cabeça boa não tenta ordenar, apaziguar ou dar sentido à desconcertante experiência da morte de um familiar, tampouco se fecha nesta ou em outra chave de leitura. Pelo contrá investe na indefinição. Não é possível determinar se o terreno é de loucura ou sanidade, de realidade ou absurdo, de vida ou morte.
Não tente adivinhar os caminhos, apenas aceite um lugar à mesa. Lilian convida para jantar.
Eu li. Eu entendi? Não muito. Estou aprendendo a digerir livros que não são tanto de entender e mais de sentir. Ainda estou no processo de entender se gostei ou não, porque tenho dificuldade de sentir que gostei se eu não sinto que realmente entendi o que a autora/autor queria dizer ali. É uma escrita crua, bonita, direta. Coisas esquisitas acontecem e vida que segue. O formato também é muito interessante. São pequenos capítulos, que na maioria não chegam a ocupar uma página inteira. Dá pra ler em uma sentada, e a história parece ter a duração de um sonho longa-metragem (daqueles de que você acorda meio cansado até). "Você sempre conversou com plantas e nunca esperou que elas respondessem. Até agora. Descobre que elas não são tão boas contadoras de histórias quanto os humanos. 'Como se as suas histórias fossem muito interessantes', respondem as samambaias".
você sabe que quando começar a falar eles vão imaginar que você está sozinha. você não está sozinha. a música triste ao fundo? se toca, se toca... você não precisa de música para dançar. nunca precisou. na verdade, sequer dança: você vai de um lado a outro apenas, de um lado a outro e aos poucos forma pequenos círculos, como se tomasse a sala com um enorme rodopio. uma valsa improvisada. eles não veriam diferença, mas há. você está ocupando o espaço. eles? não fazem falta.
você sempre conversou com plantas e nunca esperou que elas respondessem. até agora. descobre que elas não são tão boas contadoras de história quanto os humanos. "como se as suas histórias fossem muito interessantes", respondem as samambaias.
Um pequeno livro experimental, não é para todo leitor. Quem busca linearidade, clareza de trama, ou respostas fechadas, pode se sentir desconfortável ou perdido. É uma leitura importante para quem gosta de literatura contemporânea que desafia, que não se acomoda. Não é “fácil”, mas vale por sua franqueza e coragem.
O livro explora a temática da perda, abordando-a como uma experiência comum na vida humana, mais do que o luto em si. A autora, que já possui outros livros publicados, apresenta uma narrativa em segunda pessoa, onde a protagonista, também chamada Lilian, reflete sobre suas experiências e perdas. O livro é composto por fragmentos curtos que misturam poesia e prosa, revelando a habilidade da autora em transitar entre gêneros literários. A história se passa em um prédio peculiar, onde os moradores seguem protocolos estranhos diante de situações inusitadas. A narrativa se aprofunda nas emoções e pensamentos da protagonista, que vive no 13º andar e enfrenta suas próprias reflexões sobre a vida e as perdas que a acompanham. A escrita de Lilian é marcada por uma experimentação que desafia as convenções literárias, trazendo um frescor à literatura contemporânea.A protagonista observa a linha do trem como uma metáfora para a incerteza e a transição, simbolizando uma fronteira que nunca é claramente definida. Um evento inesperado, como a presença de uma égua na linha, provoca uma série de questionamentos sobre a gravidade da situação, levando a um debate entre os moradores do prédio. Essa interação revela a estranheza das relações interpessoais, onde diálogos absurdos e situações desconexas se tornam comuns. A mãe da protagonista está doente, e sua internação no hospital intensifica a sensação de desestabilização, refletindo a fragilidade da vida e a dificuldade de lidar com a perda. As conversas com médicos e familiares são marcadas por um tom surreal, onde a lógica parece ausente, evocando o teatro do absurdo. A narrativa se desenrola em um ambiente onírico, onde a protagonista vive experiências que se assemelham a sonhos recorrentes, criando uma sensação de familiaridade e confusão. Essa repetição de cenários e interações provoca um estranhamento, levando a protagonista a questionar a realidade ao seu redor. A crise emocional que ela enfrenta a faz perceber que sua vida cotidiana, antes organizada, agora parece desprovida de sentido. Essa desconexão com o cotidiano é um reflexo da luta interna da personagem, que se vê perdida em um mundo onde as certezas se desvanecem. A linha do trem, como símbolo de passagem, sugere que a protagonista está em um limbo, entre a vida e a morte, entre a realidade e a ilusão. As interações com os outros personagens, que podem ser fantasmas ou alucinações, reforçam essa ambiguidade. O livro, portanto, não apenas narra a experiência da perda, mas também desafia as categorias narrativas, questionando a própria natureza da realidade e da percepção. A sensação de deslocamento e a busca por significado permeiam a obra, criando uma atmosfera de incerteza que ressoa profundamente com as experiências humanas de dor e transformação.A obra de Lilian Sais é caracterizada por uma estrutura fragmentada que desafia a noção tradicional de enredo, levando o leitor a uma experiência de leitura que se assemelha a uma prosa poética. A autora fragiliza a sinopse do romance, apresentando uma narrativa que parece girar em torno de "nada", onde a identidade da narradora e a dinâmica das interações permanecem indefinidas. Essa abordagem provoca desconforto em alguns leitores, que podem se sentir perdidos em um texto que não segue uma linha narrativa clara. No entanto, essa falta de definição é vista como uma representação válida da experiência humana contemporânea, marcada por crises e incertezas. A autora explora a fragmentação da vida moderna, onde a sobrecarga de informações e a influência das redes sociais criam um ambiente de confusão e desorientação. A obra também incorpora um humor sutil, onde o absurdo das situações vividas pelos personagens gera momentos de comicidade, permitindo que o leitor encontre leveza mesmo em meio ao desespero.
esse livro parece quando você está no onibus, no meio da cidade, encarando o além. aí você entra em pensamentos aleatorios que vão levando a outros e outros e daqui a pouco você lembra do primeiro pensamento, aí pensa um pouco nisso, aí perde de novo. aí depois vc pensa em um trauma, perde, pensa num sonho. lembra daquela casa que você morou na adolescencia, lembra que perdeu alguém, lembra que não pode perder o ponto. foi uma experiencia estranha, eu me senti na cabeça de outra pessoa, e essa pessoa nao tinha terminado de preparar o que queria dizer. parece que eu entrei no meio da formulação. em uma semana esquisita eu arrisco dizer que gostei. estou experimentando ler coisas diferentes, a arte também é sem pé nem cabeça.
"Você olha para o seu braço. Daqui a alguns dias o vergão que acaba de nascer começará a sumir, como a mamãe, como o trem. Como a égua. Esse pensamento a entristece. Já perdeu tanta coisa, agora isso. Viver, de todo modo, vive-se. Mas a que custo? É difícil dizer."
Doidinho, sensível e trágico ao mesmo tempo, fiquei lendo e me perguntando “porque eu to achando engraçado?” E amei que a última página respondeu tudo. Me deu muita vontade de ler os outros livros da autora.