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Até então, tinha existido sempre um lugar dentro de mim, uma ilha tropical onde o resto da minha família me aguardava e onde o vento era sempre quente. Um espaço que me permitia imaginar que só estava de passagem pelos arrabaldes de Toronto. Disse à minha mãe que sempre acreditara que os reveria um dia. Ouvi-lho o coração a partir-se.
É a própria autora que vemos na capa com o seu pai, Peter, Per, Pierre, um lendário navegador norueguês, um “daredevil” que enfrentava todas as condições atmosféricas numa casca de noz, uma espécie de Barba Azul que teve sete mulheres e “perdeu” duas, um narcisista imprudente que arrastou para a morte uma filha ainda criança e traumatizou irrevogavelmente o filho adolescente que se salvou nesse naufrágio por uma unha negra, um sedutor de menores que precisava das mulheres para que lhe cuidassem dos dois filhos órfãos, os quais fechava na cabine do barco para poder velejar em paz.
A minha mãe disse de si para consigo que seria graças àquele homem, que medira forças com tudo, que ela aprenderia a ser livre. Acreditou que conseguiria ser senhora do seu destino, se conseguisse assemelhar-se a ele. Mas Per permaneceria sempre o senhor de tudo, incluindo dela. Partiram no final do verão, em plena estação dos ciclones. Ele não se submetia a lei nenhuma: nem dos homens, nem da Natureza.
Foi deste homem que a mãe de Virginia Tangvald fugiu quando esta ainda era bebé e que a autora sentiu necessidade de conhecer melhor através daqueles que com ele se cruzaram e de artigos de jornal, devido a um desejo visceral de resolução e para conseguir domar o desassossego que também a dominava.
Aquele apartamento onde atirava contra as paredes objetos que me pertenciam e amava, só para me libertar das descargas elétricas. Julgo que, sempre que o fazia, era uma parte de mim que queria despedeçar.
Em “Os Filhos do Mar Alto” senti-me envolvida em todo o processo de superação do trauma, de exorcismo de fantasmas e de amadurecimento da autora, depois de uma fase de rebeldia e de desapego às convenções sociais.
Até esse momento, nunca quisera, porque a liberdade me agradava demasiado. Mas a palavra liberdade perdera todo o sentido. Nunca a poderia agarrar, possuir. Já só a concebia como uma sensação ilusória e fugaz, que deixava um gosto a morte no palato. Um monstro eterno e faminto a quem devíamos sacrificar tudo, isolando-nos do mundo, e que se alimentava do corpo das crianças. Fiz a aposta de que se saísse do deserto e aceitasse a vida com todos os seus constrangimentos e toda a sua beleza, a liberdade seria um pássaro que me visitaria de tempos a tempos.