O Mel sem Abelhas, o mais recente romance de Judite Canha Fernandes, vencedora do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2018 com Um Passo Para Sul, é uma ficção histórica centrada na cultura da cana do açúcar na ilha da Madeira. O seu título nasceu da expressão «Juncos que produzem mel sem abelhas», utilizada para designar a cana-de-açúcar, quando a encontraram pela primeira vez Índia, cerca do século v a. C. A novela descreve a história de Marta, que chega à cidade do Funchal vinda de Angola no decorrer do século XVI, para trabalhar como escrava na cultura da cana. Com o olhar do medo, acompanhado pelo fascínio do novo que se lhe apresenta na ilha, vê-se na necessidade de encontrar na cidade do Funchal alguma forma de abrigo e, simultaneamente, inventar um modo de voltar a casa.
Fruto de uma exaustiva investigação histórica e da afirmação de um talento literário singular já anunciado no seu primeiro romance, Judite Canha Fernandes traça a história da escravatura portuguesa e da sociedade colonial madeirense do século XVI açucareiro através voz de uma mulher escravizada, num romance profundamente original que é também um fresco de uma época e de uma condição social.
nasceu no Funchal em 1971. Publicou poesia, ficção (romance e conto) e teatro. O livro de poesia o mais difícil do capitalismo é encontrar o sítio onde pôr as bombas foi semifinalista no Prémio Oceanos em 2018. O seu romance de estreia Um passo para sul foi Prémio Agustina Bessa Luís em 2018, Menção Honrosa no Prémio Literário Dias de Melo em 2018, foi nomeado para melhor livro de ficção narrativa em 2019 pela Sociedade Portuguesa de Autores, foi semifinalista do Prémio Oceanos em 2020 e faz parte do Plano Nacional de Leitura 2020-2027.
Um pequeno livro, poderoso e duro, que relata a história de uma jovem escrava, desde a sua captura em Angola, até ao trabalho forçado numa plantação de cana-de-açúcar na Madeira, no século XVI.
O relato da viagem de barco é terrível, incómodo e, ao mesmo tempo, emotivo e poético. Não somos poupados ao horror das condições da viagem e precisei de fazer pausas na leitura pois quase se sentem os cheiros, os gritos, a dor, a fome. Depois, a chegada à ilha da Madeira, a estranheza perante as pessoas e os rituais, mas também o deslumbramento face à beleza da paisagem, apesar da dureza das condições. Na terceira parte desta história, a menina-mulher trabalha na plantação e serve na casa dos senhores. A visão dos escravos como coisas, a desumanização, é relatada de diversas formas e em vários acontecimentos marcantes.
Comecei por dizer que é um livro poderoso, mas é também um livro importante. Desde logo porque fala da História de Portugal e de um episódio importante na História da Ilha da Madeira. Mas é também importante a forma como aborda a escravatura e a traz para os nossos dias, pois é através de sonhos que a história de Marta é contada.
Marta é uma personagem fascinante. Não vou esquecer esta mulher, a força com que busca sobreviver, a doçura com que recorda a sua família e a sua terra, a procura pelo seu lugar de fuga e descanso.
A escrita de Judite Canha Fernandes é maravilhosa, merece ser lida e descoberta por muito mais gente. Recomendo muito.
Uma narrativa que nos apresenta uma realidade desconhecida, a escravatura do açúcar. Através da escrava Marta somos levados numa viagem sufocante, em que sentimos cada dor e saudade desta menina que perdeu todo mas não a vontade de lutar pela sua liberdade. Raptada da sua terra, ela é obrigada a trabalhar no engenho e a servir as senhoras nobres.
A escrita de Judite nos permite interligar a fúria de Marta com a do Mar, nos leva a sentir o sabor da cana como o desejo da liberdade por conquistar e as memórias da mãe como falta de carinho/amor. Apesar de ter gostado que a escritora explorasse mais o negócio do ouro branco e ter mais pormenores dos outros escravos, não deixa de ser uma obra escrita de um modo bastante imersivo e nos demonstra este lado da Madeira escondido da História.
"Acho que o mundo foi feito para ser assim, derretido na boca e chupado, mordido, quebrado — não para o entortar e dizimar e enriquecer, mas para dar a conhecer porque explodem as flores. Sim, foi amor o que senti de imediato pelo fruto. Dessa vez, foi tudo muito rápido. Mordi, explodi, e fugi com um pedaço de cana na mão. Só mais tarde, encostada na parede de fora do armazém, o pude saborear sem pressa, compenetrada em como derretia, sonhando. Foi assim que me apanharam. Adormecida, lambuzada, com um fio de suco escorrendo no queixo e uma mosca pousada na ponta do nariz. Acordei instantaneamente quando o chicote sibilou nas minhas coxas. Não se pode tocar no açúcar. Eu não posso tocar no açúcar.
Nós não podemos morder a cana, apodrecer os dentes e ser felizes."
Um pequeno grande livro. Duríssimo porque a violência, a dor, o desespero e o pânico de quem viu a destruição e morte, para ser raptada e escravizada é sentido nas palavras de Marta que o conta na primeira pessoa. A viagem de navio é atroz e tive que o parar de ler algumas vezes porque cada frase me sufocava neste testemunho ficcional histórico dos horrores da escravatura na cultura da cana de açúcar na Madeira no séc. XVI. Uma história de força, resistência e luta interior. Os ciclos que vão da cana até à produção do açúcar, com os escravos que de dia trabalhavam no Engenho e à noite serviam os senhores, num livro muito bem escrito, resultado de uma aprofundada pesquisa.
"Gente estúpida, que acha que um espírito pode ser dobrado só por lhe vergarem o pescoço. Acima de tudo, gente febril e nervosa -- e gente assim é sempre perigosa."
A leitura deste livro, para mim, foi toda uma viagem dos sentidos juntamente com a Marta, uma personagem incrível. Quero conhecer mais livros da Judite Canha Fernandes.
Judite Cunha Fernandes é uma autora portuguesa com um estilo marcadamente poético. A sua escrita caracteriza-se por uma prosa lírica, rica em imagens sensoriais. Em O Mel sem Abelhas, aborda um tema complexo e sensível: a escravatura na ilha da Madeira. Embora exista investigação histórica, a autora privilegia claramente a sua voz literária, o que cria tensões éticas na forma como representa a personagem escravizada.
2. Problemas na construção da personagem principal
A narrativa assenta na voz de uma menina escravizada, provavelmente de origem angolana. No entanto, essa voz não é trabalhada a partir da sua identidade cultural e linguística. A autora resolve a incoerência da língua através de um recurso onírico (“nos sonhos tudo é possível”), que se revela insuficiente para justificar a falta de verosimilhança. Assim, a personagem acaba por falar menos como alguém arrancado da sua cultura e mais como uma extensão do estilo da própria autora.
3. Uso do estilo poético: excesso e desconexão
A escrita é intensamente poética, mas em vários momentos os adornos parecem desnecessários. Em vez de reforçar a experiência emocional da personagem, acabam por a sobrecarregar. O resultado é uma estilização do sofrimento que arrisca transformar o trauma em matéria estética, sem aprofundar a sua crueza ou complexidade histórica.
4. Falta de profundidade na representação da experiência escravizada
O texto não explora suficientemente a cosmovisão, as práticas culturais ou as formas de narrar o mundo próprias das sociedades africanas de origem. Esta ausência conduz a uma representação plana, mais próxima do imaginário português contemporâneo do que de uma voz historicamente situada. A falta de elementos culturais africanos — língua, metáforas, crenças, ritmos de fala — contribui para um apagamento da experiência real dos povos escravizados.
5. Esbatimento dos responsáveis históricos
As figuras envolvidas no sistema esclavagista surgem difusas, sem rosto nem nome. Esta falta de concretização dilui responsabilidades e tende a suavizar a violência estrutural do tráfico atlântico. Perde-se assim a oportunidade de mostrar como funcionava efectivamente o sistema que sustentou a economia colonial portuguesa.
6. Problema ético: reivindicação ou apropriação?
Embora o livro tenha sido lido como um esforço de memória histórica, também pode ser visto como um gesto de apropriação: uma autora portuguesa fala por uma vítima da escravatura, em vez de dar espaço a vozes afrodescendentes. Portugal reconhece historicamente o seu passado colonial, mas esse reconhecimento nem sempre se traduz numa reflexão profunda ou afectiva sobre as suas consequências. Neste contexto, a obra corre o risco de transformar a figura da escravizada num recurso literário simbólico, mais do que num verdadeiro gesto de reparação.
Estava à espera de mais desta história. O facto de ser contada em “sonhos” não me prendeu à narrativa. Acho que a travessia do barco ocupa demasiado “espaço” na narrativa, enquanto eu estava mais interessada em ler sobre a cultura da cana do açúcar e a escravidão na Madeira, do que só se consegue vislumbrar um pouco no final do livro.
Este livro foi um soco no estômago. Ao mesmo tempo, oferecia uns respiros que me agarraram às paginas - não parei até terminar. Não consegui deixar Marta até saber o que lhe iria acontecer... Fez-me pensar muito também... Sobre a escravatura, sobre o papel da cultura da cana na globalização, sobre o silêncio. Recomendo muito!!!
A autora conta uma história horrível, de desrespeito pelo ser humano, de uma forma tão original, que quase nos esquecemos que aconteceu e ainda acontece em tantos países por este mundo fora.
Não porque embeleza a história ou a romantiza, mas pela maneira quase poética como escreve.
Senti-me, em várias descrições, quase transportada para o local da ação.
Há um momento na leitura de pura revolta para mim. Não que o restante não seja revoltante, mas aquela cena revirou todo o meu ser, com ódio puro.
O ser humano é realmente capaz das maiores barbaridades, apenas para se sentir superior ao outro, para fazer valer o seu estatuto, marcar a sua posição.