Verdadeira ode à capital portuguesa, a crônica Lisboa, de Eça de Queiroz, personifica a cidade, apontando suas virtudes e seus vícios, comparando-a a outras grandes capitais, numa narrativa cheia de lirismo e forte sentimento. Como um fado. O texto é oriundo do livro Prosas bárbaras.
Lisboa tem ainda meiguices primitivas de luz e de frescura; (…)
Lisboa não tem estes defeitos da luz: é serena, imperturbável, silenciosa.
Lisboa é um pouco coveiro de almas!
Todavia, Lisboa o que faz? Come.
Lisboa nem cria, nem inicia; vai.
Lisboa, de noite, é tão silenciosa que quase se sente o crescer da erva que a há de cobrir no dia das ruínas.
Em Lisboa a vida é lenta. Tem as raras palpitações de um peito desmaiado.
Ó Lisboa, tu não tens caracteres, tens esquinas!
Lisboa tem compaixões celestes, agrupa-se em coro de lágrimas para ver a morte de um cão; mas afasta-se logo, assobiando, se começa a agonia de uma alma.
Às vezes Lisboa aborrece-se e entra na política (…)
Uma das maiores alegrias de Lisboa é sujar-se!
Lisboa é assim. Vem um dia em que ela quer voltar ao seu elemento primitivo, e ninguém a pode impedir de ser lama: é o entrudo.
Lisboa esquece as funções do seu tédio, a religião da moeda de ouro, o sacerdócio da economia, as atitudes enfáticas do seu pudor, para se dar livremente à lama!
Lisboa é a hospedaria do vento.
Lisboa respeita a limpeza, mas adora a lama. Colisão! Lisboa, cidade inspirada, corta magnificamente o embaraço, lavando-se no lodo do Tejo!
Lisboa que criou? O fado.
Fica-te em paz, Lisboa!
Resigna-te, ó Lisboa querida, ó clara cidade bem-amada, ó vasta graça silenciosa. Resigna-te, ó doce Lisboa, coroada de céu, resigna-te – a não ter alma!