"Às vezes, deito-me no chão, como Josef Sors, para que o meu avô me veja os olhos."
A última frase do livro- já de regresso ao mundo, no epílogo- não trouxe o sabor amargo de uma despedida, mas antes de um "Até já, Afonso Cruz!", como comprova o talão que umas horitas depois recebia da funcionária da livraria onde adquiri "Para onde vão os guarda-chuvas" e "A Boneca de Kokoschka". Espero não me arrepender deste pequeno luxo : quase 20 euros pelo primeiro; 17 pelo segundo... Mas, se esse dinheirinho chorado me conseguir transportar para o mesmo estado de encantamento que "O pintor debaixo do lava-loiças" me proporcionou, então, vá, aceito o roubo...
Trata-se de um livrinho baseado numa história verídica: a do pintor eslovaco Ivan Sors que após uma vida de infortúnios é acolhido como refugiado na casa dos avós de Afonso Cruz, na Figueira da Foz, durante a Segunda Guerra Mundial. Para que possa escapar à polícia política, os avós de Afonso Cruz decidem escondê-lo debaixo do lava-loiças, ali colocando o colchão onde Sors passaria a dormir, antes de o ajudarem na sua fuga para os Estados Unidos.
A história do pintor ( Josef Sors, no livro) é retratada de forma poética e elegante, enriquecida pelas muitas considerações filosóficas sobre a arte, a amizade, o ódio e o amor, a morte em vida e o seu contrário, a guerra, a cultura e a natureza da linguagem, entre tantas outras. Muitos são os encontros inusitados de palavras que nos espreitam a cada linha; tantos que acabamos com o livro todo sublinhado.
De facto, o texto seduz-nos pela criatividade, pelas comparações imprevistas, pela musicalidade das palavras; de tal modo que este pequeno livro mais parece um longo poema. Um muito belo poema que Afonso Cruz, penso eu, quis tão inacabado quanto os desenhos que Sors insistia em não terminar: é que "um desenho inacabado" tem "uma magia especial(...) como se fosse uma prisão de riscos -como são todos os desenhos- mas tivesse uma porta aberta para a liberdade." Perdemos o rasto a Sors, ignoramos se reencontra ou não a mãe, se Wilhelm, "o homem quase todo"(em lhe faltando uma orelha) é vivo ou morto, o que realmente fora feito de Frantiska.
Neste inacabado da história se oferece "uma porta aberta para a liberdade" de Josef Sors: depois do período de reclusão debaixo do lava-loiças, o pintor escapa à prisão definitiva das palavras e paira no ar "como nos quadros de Chagall", "por cima dos prédios, por cima da vida."
Já a nós, leitores, Afonso Cruz oferece uma outra liberdade: a de pairarmos debruçados sobre a "paisagem muito grande" que temos dentro de nós.