A Mulher dos Olhos de Gelo , uma obra intrigante de Chrysanthème, pseudônimo da escritora brasileira Cecilia Moncorvo Bandeira de Mello Rebello de Vasconcellos.
A trama gira em torno de um crime um feminicídio. A narrativa não se limita ao ato violento, aprofunda-se nas motivações psicológicas e nos distúrbios mentais. Chrysanthème cria uma atmosfera de suspense, compõe personagens complexos e mentalmente perturbados, oferecendo ao leitor uma oportunidade de análise das consequências de ações passadas e das influências de crenças religiosas na psique humana.
Esta reedição, baseada na 1ª edição do livro, publicada em 1935, teve a ortografia atualizada e conta com notas explicativas para termos e palavras fora de uso.
A escritora Chrysanthème (1870-1948), pseudônimo de Maria Cecília Bandeira de Melo Vasconcelos, é uma das preciosidades mais bem guardadas da literatura brasileira. Um dos nomes da escrita de mulheres no início do século XX, e pioneira das causas feministas, a autora publicou mais de vinte livros, e ao que se sabe nenhum deles foi reeditado. Em sua época, no entanto, Chrysantème foi uma figura pública, em especial por suas crônicas na imprensa. Seu pioneirismo na escrita de mulheres no Brasil foi precedido pela mãe, Emília Moncorvo Bandeira de Melo, que assumiu, em O Paiz, sob o pseudônimo de Carmen Dolores, a coluna de crônicas de Machado de Assis. O pseudônimo Chrysanthème, que às vezes se apresentava como Madame Chrysantème, veio do popular romance homônimo do francês Pierre Loti, que ironicamente descrevia o amor de uma submissa gueixa. Entre seus livros está A infante Carlota Joaquina (1937), no qual procura contestar o retrato tradicional da rainha luso-brasileira como uma megera. Casou-se aos 19 anos, teve um filho e enviuvou aos 38, em 1907, quando, inspirada pela mãe, deu impulso a sua carreira literária.
Maria Cecília Moncorvo Bandeira de Melo Rebelo de Vasconcelos (1869-1948) é uma escritora brasileira do século XX, mais conhecida pelo seu pseudónimo Chrysanthème - personagem submissa do romance Madame Chrysanthème, do francês Pierre Loti.
Escreveu para importantes jornais e revistas de sua época entre eles O Paiz - onde ocupou a antiga coluna de Machado de Assis - Diário de Notícias, Correio Paulistano, O Cruzeiro e A Imprensa, tendo mais de 15 livros publicados (romances históricos e biográficos, peças teatrais, ensaios críticos e contos infantis), porém caiu no esquecimento e, por isso, hoje em dia é pouco conhecida e as suas obras são pouco lidas.
A Mulher dos Olhos de Gelo lê-se rápido.
À primeira vista, parece simples. Maurício, capitão do Exército, matou a mulher, Helena, e encontra-se preso na Casa da Correção. Depois de receber a visita do amigo Jorge, que quer saber o que realmente aconteceu, decide escrever um relato onde tenta explicar e justificar o crime.
Como matei minha mulher?
É precisamente neste relato que Chrysanthème constrói a desconstrução do discurso do criminoso.
Maurício matou Helena, mas passa toda a narrativa a tentar convencer-nos de que a culpa também era dela. Apresenta-se como um homem atormentado, emocionalmente instável, vítima de um casamento infeliz e incapaz de controlar os próprios impulsos. O seu discurso procura constantemente a nossa simpatia, recorrendo ao velho argumento do “crime passional”, essa ideia absurda de que o amor, o ciúme, a humilhação ou o sofrimento masculino podem servir de atenuante para a violência. Helena está morta, mas continua o julgamento.
E todo este discurso encontra eco social. A sociedade da época, e muitas vezes ainda a actual, tende a procurar justificações para a violência masculina. Ciúmes, paixão, humilhação, descontrolo emocional, são tudo motivos para justificar um “crime passional”. Helena, a mulher assassinada acaba julgada mesmo depois de morta.
Maurício acaba por beneficiar dessa mesma lógica social. Depois de voltar a ser julgado, consegue recuperar a liberdade e recomeçar a vida ao lado de um novo amor.
Um livro pequenino, mas com muitos temas: femicídio, fanatismo religioso, violência contra homossexuais, abandono prisional, transtornos mentais…em 1935.
Chrysanthème é certeira quando se trata de expor os aspectos mais indignos ou menosprezados da sociedade. Com essa caso de feminicidio, somos constantemente lembradas pelo assassino que, além de ele ser inocente e não saber como matou a esposa, Helena é a culpada pela própria morte, pois suas atitudes levaram seu marido ao limite.
Maurício ter sido absolvido no fim deixa um gosto amargo na boca e um mar de indignação, mas acredito que esse seja o ponto da autora, que costuma trazer uma quebra de expectativa com os desfechos de seus personagens.
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O excesso de vírgulas dificulta a leitura até das frases mais simples. Não precisava ser confuso assim, outros autores da mesma época escreviam de forma bem mais "limpa". De qualquer forma, não é um livro cansativo. É curto e a história é interessante.
O diferencial aqui é que o leitor se vê obrigado a repensar seus próprios valores morais o tempo todo. O acontecimento principal é um assassinato (um feminicidio) e diversas vezes você se vê do lado do assassino —se não a favor, pelo menos como simpatizante.
Se você se revolta muito com pautas de gênero, é bom não ler.
Atmosfera e a profundidade psicológica em vez de reviravoltas frenéticas, esse livro é um prato cheio. É uma obra curta, mas que ecoa na mente por muito tempo após o término.