No inicio da pesquisa para este livro tive uma experiência interessante. Estava num jantar e falava do meu plano, à data ainda muito embrionário, de contar uma história das mulheres através de objetos. «Como assim?», perguntou, curiosa, uma senhora. «Que tipo de objeto seria, por exemplo?» Ora, antes que eu conseguisse responder,(...)um senhor idoso bufou alto: «Mulheres e objetos? Mas as mulheres são objetos!» A frase é estúpida, muito grosseira e tudo menus engraçada, mas tem algo subjacente o facto de a História ser muitas vezes contada como se esta observação fosse verdadeira. (...)Como se as que nos precederam, com algumas exceções notáveis, tivessem estado a dormir, a observar. Como se a sua história fosse, em grande parte, a de vitimas passivas. Nada disto é verdade. Nunca foi verdade.
Confesso que, à primeira vista, julguei este livro como algo que não era. Julguei-o mais uma das muitas tentativas de literatura pseudo-feminista comercial e de massas, e foi um bocadinho de pé atrás que comecei o ebook no idioma original. Mas, a pouco e pouco, a autora conseguiu fazer-me prestar atenção às suas palavras.
Com o tom certo, com algum ceticismo (que aprecio), e com uma abordagem um tanto quanto excêntrica — ao estilo dos gabinetes de curiosidades dos séculos passados —, numa amálgama de objetos que parecem desemparelhados até ao momento em que são colocados no devido contexto, Hirsch consegue montar uma história moderna ocidental no feminino. Moderna porque contempla essencialmente objetos da época medieval em diante; ocidental porque, inevitavelmente, recorre à cultura que é familiar à autora (denunciando, acidentalmente, a falência da nossa academia já que Hirsch estudou História da Arte e, como não raras vezes barafusto, a academia — sobretudo no que concerne a esta área de estudo —, tal qual se apresenta na atualidade, apenas consente a história masculina e soberana. Bem sei, passo pelo mesmo.). Mas à parte este handicap, aliás, reconhecido pela autora, esta história das mulheres está muito bem conseguida. É acessível, sim. Não entra em grande pormenor, não. Mas oferece as bases para entender a história no feminino.
Basicamente, a história é sempre a mesma. O que não se consegue ou não se quer imaginar é dificil de descobrir através da arqueologia. Interpreta-se os achados à luz do que parece plausível, até que as técnicas ou os métodos modernos acabam por nos revelar outra realidades.
Uma história da mulheres em 101 objetos consegue ser relevante, atual e surpreendente, e reunir um conjunto de artefactos que abrange diferentes áreas, tipologias e universos femininos; objetos de cariz cultural, artístico, utilitário; uns com maior, outros com menor carga emocional; uns mais previsíveis e outros mais inesperados. E, porque cada um inspira um discurso histórico singular, Hirsch convoca diferentes personalidades de vários tempos. De Pankhurst a Woolf, de Pizan a Ada Lovelace, de Hustvedt a Marina Abramović ou Yoko Ono, este pequeno compêndio percorre uma galeria de figuras históricas, mediáticas e artísticas que, por si só, justificam um livro. Discorre sobre papéis de género, conquistas femininas e penas infligidas no corpo e espírito das mulheres ao longo dos tempos como bode expiatório das falências da sociedade. Dos julgamentos de bruxas à épuration sauvage do pós-Segunda Guerra, explora momentos terríveis; dos primeiros computadores aos movimentos feministas, explora momentos de conquista. Num todo, reflete séculos de apagamento e usurpação de protagonismo, e resulta num excelente ponto de partida para uma sociologia feminista.
(...)a visão feminista do passado prefere, muitas vezes, afirmar que as nossas antepassadas empunhavam armas e conseguiam ser poderosas e brutais como os homens, e varrer para debaixo do tapete as atividades têxteis, supostamente mais «femininas», É possível que isto se deva ao facto de a tecelagem e a costura não servirem apenas para vestir a familia, mas também para manter as mulheres em casa e ocupadas, para que não pensassem demasiado. Mary Wollstonecraft(...), desaconselhava o bordado às mulheres, porque acreditava que as limitava mentalmente e, por isso, seria melhor fazer jardinagem ou escrever.
Claro que este livro nasce da subjetividade da autora e continuo a não lhe perdoar o erro na referência à Ilíada logo nas primeiras páginas (num livro destes não é um erro menor confundir as duas obras que estão na génese da atribuição de um determinado papel ao género feminino ocidental), mas fiquei fascinada com o discurso despojado, a abrangência que deu ao tema que escolheu e mesmo as escolhas que foi fazendo me agradaram (dispensava um ou outro exemplo que não acredito que fique para a posterioridade como um elemento relevante da história das mulheres, mas não condeno a sua escolha).
A realidade é que acabei por me envolver tanto nesta leitura que dei por mim a substituir o ebook pelo livro físico — assim está na estante à mão de qualquer curioso ou para qualquer futura eventualidade. Sem arrependimentos!