Contrariando os impulsos de escrever um romance, o escritor francês Stendhal, luminar da literatura do século XIX, decidiu investigar o amor, o mais universal dos sentimentos, em um ensaio ímpar que se tornou tão célebre quanto suas obras extensas.
O primeiro e mais conhecido volume de Sobre o amor, aqui publicado em nova tradução da premiada Rosa Freire d'Aguiar, mescla vertiginosamente reflexão filosófica com autoanálise. O autor de O vermelho e o negro, após uma desilusão amorosa de uma paixão não correspondida por Matilde Dembowski, dedicou-se a estudar as várias matizes de um sentimento que, por mais analisado que seja, permanece enigmá nasce, morre "ou se eleva à imortalidade seguindo as mesmas leis".
Marie-Henri Beyle, better known by his pen name Stendhal, was a 19th-century French writer. Known for his acute analysis of his characters' psychology, he is considered one of the earliest and foremost practitioners of realism in his two novels Le Rouge et le Noir (The Red and the Black, 1830) and La Chartreuse de Parme (The Charterhouse of Parma, 1839).
Sobre o amor foi escrito em 1822, e trata-se de um ensaio aguçado e divertido sobre sentimentos e experiências humanas acerca desse sentimento tão complexo. A obra, que passa longe de um romance ou de um texto poético, traz pequenas reflexões sobre a mente humana envolvida em uma paixão, bem como tenta explicar esse afeto fundamental por meio do fenômeno da "cristalização", ou seja, a imobilidade, incapacidade de agir e raciocinar, de uma pessoa, na presença do ser amado. O autor disseca o sentimento em classificações como o amor romântico, físico, egoísta, e os estágios entre apaixonar-se e desapaixonar-se. Stendhal escreveu esse pequeno tratado filosófico após uma desilusão amorosa, fazendo de suas dores, boa escrita, sem resmungos ou choramingos.
Seguem algumas frases retiradas do livro, que merecem destaque:
A partir do momento em que ama, o homem mais sensato não vê mais nenhum objeto tal como ele é. Exagera para menos suas próprias qualidades, e para mais os menores favores do objeto amado.
Muitas vezes a melhor decisão é esperar, sem pestanejar, que o rival se desgaste junto ao objeto amado, por sus próprias bobagens. (EU RI)
Uma mulher de espírito não ama por muito tempo um homem comum.
Desesperado com a desgraça a que o amor me reduz, amaldiçoo minha existência.
Na picuinha, ninguém está nem um pouco preocupado com o objetivo aparente, só se trata de vitória. É o que se vê nos amores das moças da Ópera; se você afasta a rival, a pretensa paixão, que ia ao ponto de se jogar pela janela, desaba imediatamente.
“As menores coisas bastam, pois tudo é sinal de amor.”
Stendhal é o pseudônimo de Marie-Henri Beyle, um homem que exerceu diversos cargos no exército francês, mas que escrevia em seu tempo livre. “Sobre o amor” foi um dos seus primeiros livros, publicado em 1822, inspirado em uma paixão não correspondida. A obra foi ignorada, passando a ser revisitada somente após o sucesso de produções posteriores.
Na obra, Stendhal propõe algumas classificações sobre o amor e suas fases: o amor físico, o amor à primeira vista, o amor por status, o amor e a sua diferença da paixão, dentro outras considerações. Eu acho interessante a proposta de elencar amores possíveis, mas me incomoda a tentativa de enquadrar um sentimento em uma definição, sem considerar uma série de variáveis que podem interferir nessa concepção.
Para colaborar com essas ideias, Stendhal propõe definições sobre a pessoa que ama, o homem e a mulher, em uma relação clássica. Nesses momentos, esparsos no livro, ele sugere condutas ideais. Entendo que são cabíveis ao contexto em que ele escreveu, mas achei chato de acompanhar.
Os pontos que me agradam na obra são os momentos em que ele fala sobre o amor de maneira despretensiosa e em que eu reconheço questões características do amor e de seus efeitos, irrestritas às delimitações construídas pelo autor, ancorada por outros autores que falam sobre o tema. Eu também gosto das relações que tangenciam o amor e que sobrevivem ao tempo em que ele escreveu: a esperança, a beleza, a segurança e a admiração.
“(...) Tudo o que é belo e sublime no mundo faz parte da beleza de quem amamos, e essa visão imprevista da felicidade enche instantemente de lágrimas os nossos olhos. É assim que o amor ao belo e o amor se dão vida mutuamente.”