Quase duas décadas após ter aterrissado com força na literatura brasileira com o surpreendente Hoje está um dia morto, André de Leones apresenta mais uma incisiva e impiedosa radiografia do Centro-Oeste brasileiro em Meu passado nazista.
Ambientado entre os anos de 1990 e 2020, Meu passado nazista é um romance de trama intensa e dramática que entrelaça a vida de três personagens cujos destinos se chocam de maneira tumultuada. Leandro, o protagonista, é um professor marcado por um trauma familiar seu pai foi assassinado, e sua mãe, esmagada pela dor, mergulha em uma depressão avassaladora que a impede de viver plenamente. Com a perda de ambos, Leandro passa a viver com o avô (nazista) e com a tia, em uma casa marcada pelo silêncio e por segredos.
Cristian, seu melhor amigo, é um advogado de moral dúbia, filho de um poderoso local (simpatizante de Hitler). Em um momento de embriaguez, Eleonora, namorada de Cristian, o trai com um estranho. Esse ato aparentemente trivial desencadeia uma série de eventos que transformam o romance em uma jornada caótica e imprevisível. Por meio dessas três figuras emblemáticas, Leones conecta de forma única a Era Collor ao Terceiro Reich, Richard Wagner a duplas sertanejas melancólicas, e faz um alerta sobre a persistência do espectro nazista, que reaparece nos lugares mais improváveis.
Em meio a tantas referências e estilos, a música pop se entrelaça com a política, o cinema conversa com a filosofia, e o picaresco invade a metanarrativa, resultando em uma fabulação alucinante. Meu passado nazista é um romance repleto de histórias entrelaçadas, vozes narrativas múltiplas e interrupções temporais, conduzindo os leitores por uma trama que, com uma avalanche de momentos simultâneos, os absorve por completo, até que se alcance a revelação da “verdade” sobre Konrad Helfferich, o avô de Leandro.
Como bem destacou o jornalista e escritor Luiz Rebinski, que assina o texto de orelha desta edição, com Meu passado nazista "André de Leones oferece ao leitor uma viagem única e inesquecível ao 'intestino grosso' de um lugar repleto de som, fúria, medo e delírio".
André de Leones nasceu em 1980, em Goiânia. Foi criado no interior de Goiás, em Silvânia. Vive em São Paulo.
É autor dos romances "Eufrates" (José Olympio, 2018), "Abaixo do paraíso" (Rocco, 2016), "Terra de casas vazias" (Rocco, 2013), "Dentes negros" (Rocco, 2011), "Como desaparecer completamente" (Rocco, 2010) e "Hoje está um dia morto" (Record, 2006), e da coletânea de contos "Paz na Terra entre os monstros" (Record, 2008).
Escreve resenhas literárias para o jornal "O Estado de S. Paulo" e crônicas para "O Popular". Já colaborou com "O Globo", "Bravo!", "Diário de Cuiabá" e "Jornal do Brasil", entre outras publicações.
Resolvi ler este romance, lançado este ano, devida à excelente e bem fundamentada resenha que o crítico literário Decio Machado publicou a respeito dele em seu Substack. Confesso que nunca tinha ouvido falar do autor, que já foi vencedor do Prêmio Sesc e finalista do Prêmio São Paulo. E que experiência, no mínimo, diferente, foi ler este livro!
Posso comparar a leitura da obra com a primeira vez que assisti ao filme "Irreversível": o filme começa numa confusão, uma barulheira, gente gritando, sirenes tocando, a câmera girando sem parar... O espectador fica meio zonzo, perguntando "que baralho está acontecendo"... até que aos poucos a coisa vai se acalmando e o filme se "estabiliza".
Neste livro aconteceu comigo algo parecido: penei para vencer as 50-60 primeiras páginas. Não que estivessem mal escritas, muito longe disso, mas o estilo radical adotado pelo autor, com o uso excessivo de parênteses, repetições e diálogos sem aspas ou travessões tornou a leitura truncada para mim. Cheguei a achar que tivesse errado em ter escolhido esse romance para ler.
Mas, de repente (não sei se o ritmo dá uma acalmada, ou se simplesmente meu cérebro assimilou a proposta do autor), vencidas aquelas primeiras 60 páginas, a leitura passou a fluir que é uma beleza, e não consegui mais largar o livro. Quando André de Leones brilha, ele brilha intensamente, lembrando os melhores momentos do Reinaldo Moraes de "Pornopopeia" ou do subestimado "Maior que o Mundo" - e não é poucas vezes que isso acontece.
A obra é centrada basicamente em três personagens: Leandro, o protagonista e narrador, um cínico professor universitário vindo de uma pequena cidade goiana, que em determinado momento de sua vida descobriu que seu avô era nazista (daí o título), Cristian, seu melhor amigo careta, e Eleonora, a desinibida namorada de Cristian. Indo e voltando no tempo, abusando de ironia, o romance traça as trajetórias dos personagens entre meados dos anos 90, quando tinham 20 e poucos anos, passando pelo início dos anos 2000 até chegar ao período entre 2018 e 2023, passando pelas eleições e pela pandemia.
Há um capítulo que se passa no dia das eleições em 2018 que é particularmente engraçado, capturando muito bem o espírito "apocalíptico" daqueles tempos, e que culmina na bizarra inserção de um hilário conto de "nazixploitation" escrito pelo protagonista Leandro. O excesso de passagens de sexo não me incomodou (achei bem escritas e coerentes com a proposta da trama), tampouco a avalanche de referências (outro recurso que gosto e que me lembrou um pouco "O Mapa e o Território", do Houllebecq, que li recentemente).
Há umas gordurinhas aqui e ali que poderiam ser cortadas, na minha opinião, mas o resultado final do livro é muito satisfatório e, principalmente, muito diferente do que tem predominado na literatura nacional contemporânea atual. Quem consegue "sobreviver" àquele início caótico é recompensado com um livro surpreendente e original. Que André de Leones tenha conseguido lançar esta obra, do jeito como escrita, por uma gigante do mercado editorial é um feito e tanto. Palmas para o autor, e que mais livros como esse apareçam por aí: estamos precisando.
Meu Passado Nazista foi, para mim, uma leitura que não fluiu. A estrutura da narrativa, com idas e vindas no tempo e histórias que se entrelaçam sem muita conexão aparente, me deixou com a sensação de que tudo estava um pouco disperso. Faltou aquele fio que prende o leitor e dá vontade de seguir adiante.
Apesar da proposta interessante, o excesso de desvios e detalhes que não me conquistaram acabou tornando a experiência cansativa. Em nenhum momento consegui me sentir realmente envolvido pela trama ou pelos personagens, e isso fez a leitura se arrastar até o final.
No fim, foi um livro que não me cativou, tanto pelo formato desorganizado quanto pela falta de momentos que despertassem meu interesse.