Dada a natureza académica de livro, não seria justo avaliá-lo fora do seu contexto - acho, aliás, uma escolha de marketing deplorável este aproximar de título com o anterior livro da autora, Mulheres Viajantes* - pelo que me fico por uma opinião muito geral do seu conteúdo, ressalvando que esta leitura acabou por não ser nada do que eu esperava que fosse. E o que era isso? Bom, incauta leitora que sou, joguei-me a um título como Mulheres viajantes no país de Salazar na esperança de, à semelhança do trabalho que a autora faz no livro homónimo, aqui encontrar narrativas sobre mulheres viajantes portuguesas (se calhar mais "do país de Salazar" do que "no país de Salazar", percebi isso entretanto), mulheres como Maria Lamas, Maria Archer, Nita Clímaco, etc., que fogem à regra dos tempos e se revelam viajantes rebeldes com olhares e opiniões sobre Portugal e os portugueses que importa resgatar do esquecimento.
Mas, Mulheres viajantes no país de Salazar não é nada disso. Nem por isso menos importante, este livro é, literalmente, uma tese cuja proposta assenta na desmontagem dos lugares comuns que habitam a auto-imagética nacional. Porquê um país à beira-mar plantado? Porquê a defesa de pobrezinho, mas honrado? Porquê o pitoresco das figuras tradicionais? De onde vem a ideia de uma herança marítima, de uma ancestralidade histórica? E, já agora, porque não encaramos o Estado Novo como uma ditadura? De onde vem a imagem de um Salazar poupadinho ou de um aparelho de estado benevolente?
Para responder a estas questões, Sónia Serrano recorre a uma mão cheia de obras de autoras (viajantes) que visitaram o país nas décadas 30, 40, 50 do século XX, e que ajudaram a criar e, em alguns casos, sedimentaram uma narrativa sobre Portugal e os portugueses que, em certos aspectos, ainda perdura.
Ora, se por um lado o Goodreads não é um Google Scholar, por outro lado também não tenho nenhuma vontade de me meter em mais trabalhos do que aqueles que já tenho - pelo que vou dispensar publicar a review deste livro.
Fico-me pela advertência de que não se trata de um livro no seguimento do mais conhecido da autora. E, embora tenha imensa relevância no campo dos estudos de género, da literatura de viagem e da história de século XX, trata-se de uma publicação especializada, muito formal e que não foi trabalhada para uma comercialização em massa. Posto isto, que não haja empecilho para a sua leitura. As suas conclusões são de suma importância e o retrato que acaba por ficar destas mulheres viajantes (anglo-saxónicas, de classe média alta), motivará, certamente, muitas reflexões interessantes aos leitores. Em mim, suscitou reflexões e também inúmeras perguntas. Entre elas, uma velha amiga: será relevante retirar as publicações académicas do seu contexto procurando fazer delas leituras mais democráticas (i.e. acessíveis ao público geral), e será que o público consumidor de literatura não académica se sente atraído por este tipo de publicação? Ou ainda, será justo, como aqui acontece, deixar o marketing tomar rédeas e tentar vender gato por lebre - mesmo que o objetivo pudesse ser chamado de nobre, no sentido de levar outro tipo de literatura a um público outro?
Habitando nos dois lados do espectro não acho resposta fácil para estas perguntas (afinal, deu para perceber que fui ao engano e acabei relativamente desapontada com uma leitura para a qual, mesmo assim, não acho grandes defeitos). Talvez a ausência de hype nas plataformas de promoção de livros, e a ausência de um registo aqui no GR já depois da data de publicação deste livro, aponte para qualquer conclusão mais óbvia...mas estou curiosa para ver em que se traduz esta edição.
* A dissertação de Sónia Serrano tem, efetivamente, o nome Mulheres viajantes, mas, uma vez usado o título numa primeira publicação de natureza tão diferente desta, esta tentativa de colagem não será assim tão inocente...