“O Lápis do Carpinteiro”, que comprei sem nenhuma expectativa numa loja da caridade, por pouco não foi a minha última leitura do ano, mas se tivesse sido esse o caso, seria fechar 2021 com chave de ouro, com uma excelente tradução do galego por Pedro Tamen.
Manuel Rivas, de quem eu nunca tinha lido nada nem ouvido nenhum elogio, começa este livro de forma despretensiosa, com um jornalista bastante abatido a entrevistar o idoso doutor da Barca, um antigo revolucionário, um opositor do franquismo que passara muitos anos preso e, posteriormente, no exílio.
Cedo o autor começa a mostrar o quão espirituoso é:
A única coisa boa nas fronteiras são as passagens clandestinas. É tremendo o que pode fazer uma linha imaginária traçada um dia na cama por um rei débil mental ou desenhada à mesa por uns poderosos como quem joga um póquer.
E é a imaginação, bem como o invisível, que servem de fio condutor a esta obra e se manifestam em passagens de cortar a respiração de tão deslumbrantes e comoventes que são.
Invisível e cúmplice é a relação que se forma através de um lápis de carpinteiro entre um morto e o seu carrasco.
Invisível e fatal é a doença que grassa na cadeia e que leva a uma transferência trágica de comboio para um sanatório-prisão.
É o som de uma panela rachada. Mas na realidade nada disso era preciso. O seu rosto delgado e pálido, ligeiramente corada nas faces. O verniz de suor nesta aula fria. A melancolia do olhar. Aquela beleza tísica.
A tuberculose, doutor!, grita um estudante da primeira bancada.
Exactamente. E acrescentou num tom amargo: O bacilo de Koch a semear tubérculos no jardim rosado.
Invisível é a dor fantasma de Herbal, o antigo guarda prisional, que agora relata a passagem pela cadeia de personagens fatídicas como Gengis Khan, o pintor, o cantor e o Menino.
Quem era um morto, pensou quando já se estavam a acomodar no primeiro comboio, de Valência para Madrid, era o companheiro de escolta que lhe coubera. Um chato. Como um bêbedo sóbrio pela manhã. Como um coveiro pontual. Daqui até Vigo ia aparecer-lhe uma teia de aranha nas pestanas.
Invisível e forte é a coragem de Daniel da Barca, capaz de provocar a admiração dos seus camaradas mais violentos...
O Gengis Khan ficou pasmado, depois soltou uma gargalhada e disse: Sim, senhor, um tipo com três colhões!
...e o amor da bela Marisa, disposta a enfrentar a família e a esperar eternamente por ele.
Ele disse que, logo que saísse em liberdade, iria ao Porto, ao Mercado do Bolhão, comprar-lhe um saquinho de favas às cores, dessas a que chamam maravilhas.
Ela disse que havia de oferecer-lhe um saquinho com horas. Que sabia de um feirante de Valença que vendia horas de tempo perdido.
Como noutros livros e filmes passados no cárcere, sobretudo com condenados à morte ou à prisão perpétua, são as histórias que os presos contam uns aos outros, os actos de camaradagem entre eles e a evasão mental que lhes permite ultrapassar a privação da liberdade e dos direitos, enfrentar o medo e a falta de condições.
Esta história é muito boa.
Ouçam-na numa taberna. Há tascas que são universidades.
Vão matar-nos a todos! Não perceberam? Vão matar-nos a todos! (...) Vocês estão para aí dá-lhe que dá-lhe, com lérias de velhos e não se apercebem de que nos vão matar.
(...) O doutor da Barca aproximou-se dele e agarrou-o pelo pulso de uma das mãos.
Calma, Baldomir, calma. Falar é um esconjuro.