Com uma narrativa tranquila, e desenhos incríveis da Aimée de Jongh, que destacam muito bem a inocência das crianças e a disparidade entre a grandiosidade da floresta e a “insignificância” das crianças perto da magnitude do ecossistema, O Senhor das Moscas engana os desavisados que não conhecem a trama e batem o olho e pensam que será uma história ingênua sobre crianças.
De maneira resumida, a obra vai contar sobre um grupo de crianças que sobrevivem a queda de um avião, a qual nenhum adulto sobrevive. Essas crianças agora, sem supervisionamento e sem regras, precisam sobreviver em uma ilha desabitada.
Com o desenvolvimento da história, acompanhamos as crianças, de começo, lidando bem com a organização das tarefas. Elas arrumam um sistema de prioridade de fala - para que todos sejam ouvidos, se dividem em grupos para caçar, fazem fogueira para sinalizar que estão ali – caso um barco passe por ali – e até arrumam um local para usarem de banheiro. No entanto, essa organização não dura para sempre, e algumas crianças começam a ignorar as tarefas, querendo apenas brincar e se divertir, afinal são crianças. Além disso, conflitos entre as crianças começam a aparecer, separando-os em grupos diferentes com objetivos distintos, gerando ainda mais caos entre eles.
Nesse ensejo, o quadrinho possui diferentes reflexões que podem ser feitas com base nesse status quo que as crianças se encontram. Assim, durante a leitura, refleti muito sobre a organização social das crianças. É possível identificar elementos de anarquismo, pensar sobre modelos de organização, por exemplo, as crianças buscaram dar voz a todos os presentes por meio de uma concha, que simbolizava quem deveria falar no momento, bem ao estilo de parlamentarismo e/ou uma república.
Além disso, vemos a tentativa dos indivíduos em organizar uma sociedade sem leis, regras e instituições, é literalmente os indivíduos realizando suas vontades, sem ter alguém para puni-los ou controla-los dizendo o que é certo ou errado, tudo depende de um pacto social entre eles mesmos, confiando que todos irão seguir esse combinado. Isso me remeteu muito a organização social pensada por Durkheim, que de maneira bem resumida, vê a sociedade como um organismo social, sendo que cada individuo faz sua parte, por meio da solidariedade, que levaria a coesão social, em que cada individuo teria suas funções sociais, simbolizada pela divisão do trabalho e a especialização dos indivíduos.
Outra perspectiva que acho valida destacar, é pensar na contribuição que Hobbes poderia dar para analisar essa obra, tendo em vista que há um momento de ruptura entre os indivíduos da ilha, que antes organizados, agora se revoltam e buscam outra maneira de se organizarem, utilizando inclusive de violência. Em contrapartida, a figura de Ralph – a criança incialmente líder e que preza por manter a organização do grupo – pode ser vista com uma perspectiva da análise de Rosseau, que o homem é bom em seu estado de natureza, e os vícios dos indivíduos por viver em sociedade que o corrompe. São reflexões que tive durante a leitura, mas lembrando que todas as crianças tiveram a experiencia previa de viver em sociedade.
Outro ponto relevante que pode ser destacado dessa leitura é a questão da perda de inocência dessas crianças e a necessidade de assumir um papel de adulto para sobreviver diante ao cenário de escassez. Segundos dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, até julho de 2023, o Brasil registrou 2.414 casos de abandono no país, o que me faz pensar: quantas dessas crianças não tiveram que amadurecer precocemente para conseguir sobreviver? Quantos dessas crianças não possuem irmãos e não tiveram que assumir o papel de pai e mãe para criar os mais novos? É uma reflexão que acho pertinente e que a HQ consegue levantar de maneira interessante.