Publicado originalmente em 1965, Hospício é Deus mescla memórias de infância com relatos de sucessivas internações em hospitais psiquiátricos. Um depoimento brutal escrito em primeira pessoa por um dos nomes mais instigantes da literatura brasileira do século XX.
"Não creio ter sido uma criança normal, embora não despertasse suspeitas. Encaravam-me como a uma menina caprichosa, mas a verdade é que já era uma candidata aos hospícios onde vim parar."
É desconcertante a sinceridade com que Maura Lopes Cançado desfia suas lembranças. Sem nunca escorregar no sentimentalismo ou na autopiedade, este volume é um poderoso testemunho sobre a trajetória da autora, que viveu uma infância abastada no interior de Minas Gerais antes de passar por diversas internações em hospitais psiquiátricos em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Leitora ávida, tida como revelação literária dos anos 1960, a escritora – que por décadas ficou relegada ao ostracismo – nos convida a refletir sobre os limites entre razão e loucura, ficção e memória, realidade e imaginação.
Maura Lopes Cançado foi uma escritora brasileira. Passou a infância no interior de Minas Gerais. Estudou no colégio Sacre-Coeur de Marie e, aos 14 anos, fez parte de um aeroclube, onde conheceu seu marido, um jovem de 18 anos, filho do comandante do batalhão da Polícia Militar da cidade. Aos 15, teve seu único filho, Cesarion Praxedes, que se tornou escritor e jornalista. Separou-se do marido pouco depois do nascimento do filho. Aos 18, internou-se voluntariamente em um sanatório para doentes mentais. Chegou ao Rio de Janeiro aos 22 anos. Queria ser escritora e, após mandar seus contos para escritores e jornalistas, começou a publicá-los no Jornal do Brasil e no Correio da Manhã. Durante a década de 1960, publicou seus dois únicos livros O Hospício É Deus (1965), primeira parte do diário que relatava o seu período de internação no Hospital de Engenho de Dentro, e O Sofredor do Ver (1968), coletânea de contos reeditada em 2012 pela Confraria dos Bibliófilos. Maura passou por diversos hospitais psiquiátricos, até matar outra interna na Casa de Saúde Doutor Eiras e ser condenada por homicídio. Depois de seis anos de reclusão, em 1980, Maura viveu em liberdade, passando por clínicas particulares e pelo Solar da Fossa. Morreu de ataque cardíaco, em 1993. Não escrevia mais.
Um dos meus objetivos da vida agora é lutar, com todas as forças, pelo direito de escrever um roteiro que sirva, de alguma forma, como adaptação dessa incrível obra que alterou para sempre a química do meu cérebro.
Se diários já me fascinam, um diário tão sincero, composto entre internações, com toda a fúria, vida e rebeldia de uma das mais incríveis escritoras brasileiras alcança níveis superiores. Multifacetada essa Maura. Extremamente rebelde, em eterna fúria, infantil, sensual, alucinada e alucinante. Cheia de vida! Impossível falar a partir de um prisma estrutural de uma obra tão inesperadamente viva. Basta embarcar, aceitar a jornada, deixar qualquer julgamento de lado e mergulhar no universo denso da realidade dos hospícios nas décadas de 50 e 60, onde violência era o único tratamento e, assim como Deus, os espaços escondem seus próprios planos malignos. De dentro para fora (e nunca o oposto), não só visitamos memórias muito bem articuladas de uma mulher ciente do tanto-pouco que sabe sobre si, como também somos surpreendidos por situações plásticas, verdadeiras performances de subversão da loucura (ou louca subversão) desse espaço tão sombrio e fascinante. O esforço de Maura vai além da humanização de suas colegas de hospício. Ela parece interessada em extrair certa nobreza e superioridade intelectual, sempre em oposição à violência burra e mesquinha das guardas. As personagens que circulam são fascinantes, o que elas dizem (e não dizem) também. Em meio a tudo isso, a relação que Maura estabelece com Dr. A., seu médico, é um dos pontos altos. Parte desejo sexual, parte projeção paterna, outra parte jogo de poder, nova parte infantilidade pura. Mas, por completo, apenas a dependência emocional que viria que arrastar-se por todo o diário, que, por fim, nos abandona em completa angústia, sem respostas que almejamos tanto conquistar quando o livro simplesmente acaba em ponto fortíssimo.
Se me permitirem um dia embarcar na missão de adaptar essa pérola, já tenho a Maura que gostaria de criar, talvez (muito possivelmente) em parceria com outras pessoas. Penso muito nisso, o tempo todo. Talvez comece a escrever, sem qualquer compromisso, pelo simples fato de torná-la real novamente.