O que realmente acontece quando lemos um poema? Se, por um lado, o leitor segue de perto os desenhos que a voz do poeta traça no retângulo do papel, por outro, ele também mira as figuras que essa voz desenha num outro lugar que está, nunca se sabe bem, aquém ou além da página. Mas o que acontece quando as vozes que desenham nos incitam a trocar de lugar com elas?
Os poemas recentes de Leonardo Gandolfi têm uma capacidade incomum de situar o próprio ato de ler no centro dos acontecimentos, de modo que a certa altura nos damos conta de que, enquanto lemos o poema, também somos lidos por ele. Talvez seja isso que o crítico Rafael Zacca identificou como a “força de partilha” dessa escrita, que consegue a proeza de ser “inocência e enigma ao mesmo tempo”.
De Robinson Crusoé e seus amigos (2021) a este Pote de mel e outros poemas, o que salta à vista é o percurso de um poeta que, por meio de um despojamento corajoso, vertical, e em diálogo com a música popular, a literatura e as artes plásticas, dá um passo a mais em direção a uma experiência para a qual todos os adjetivos são inapropriados.
Acho que eu nunca (quase certeza) vou saber o que é ter uma filha e escrever um livro de poemas para e com ela.
Esse livro é belíssimo, menos pela simplicidade e mais pela qualidade da mirada. Um jeito de olhar sabe?
Não está bem relacionado, mas me lembra a tetralogia das Estações de Karl Ove Knausgard. Textos sobre pastas de dente, xixi e mirtilos (jaboticabas em Leonardo).
É, a probabilidade de gerar uma criança é pouca, mas fico tendo exemplo e ideias.
Já tenho um novo livro pra presentear. Rs rs rs. Todos os meus amigos ganham sempre os mesmos livros. É sobre isso.
Agora um tênis ou melhor agora um amigo o poeta andarilho Tiago Mine dizendo num poema vai lá arremessa teu tênis velho nos fios elétricos deixa um pouco da luz dos teus passos na cidade
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Deliciosas palavras simples brincantes no papel. Me veio na memória Beto Guedes:
“Queria fazer agora uma canção alegre Brincando com palavras simples, boas de cantar Luz de vela, rio, peixe, homem, pedra, mar Sol, lua, vento, fogo, filho, pai e mãe, mulher”
a poesia de leonardo gandolfi tem forma e história, e cada poema é um mundo a se descobrir. é muito gratificante quando a leitura de um livro é divertida e emocionante, e este é um case desses.