Ruy Castro, nascido em 1948, começou no mundo das letras como jornalista. Atuou com destaque, competência e talento em vários jornais e revistas. A partir de 1990 dedicou-se à escrita e seu talento como escritor, já reconhecido através dos artigos e matérias que publicava, tornou-se notório e internacionalmente reconhecido. Autor de vasta obra com destaques para os best-sellers “não ficção”, “Chega de saudade: a história e as histórias da bossa-nova” (1990 e reedição em 2016), “O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues” (1992), “Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha” (1996), “Carmen – uma biografia” (2005) e para os ótimos romances “Bilac vê estrelas” (2000), “Era no tempo do rei: Um romance da chegada da corte” (2007) e “Os perigos do imperador: Um romance do segundo reinado” (2022), o mineiro, natural de Caratinga (MG) mas carioca por opção e cidadão benemérito do Rio de Janeiro, já recebeu o prêmio Nestlé de literatura, o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte e, nada mais, nada menos, do que quatro prêmios Jabuti. Desde 2022 o autor faz parte da ABL, reconhecimento mais do que justo à sua obra.
Seu livro de 2024, a coletânea de crônicas “O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim” foi considerado o melhor livro do ano de 2025 no “Prêmio Jabuti”.
“Trincheira Tropical: A Segunda Guerra Mundial no Rio”, livro publicado em 2025 é, desde já, considerado um clássico que procura preencher uma importante lacuna na historiografia brasileira envolvendo a Segunda Guerra Mundial (1939/1945). Afinal de contas como o próprio autor escreveu no início das referências bibliográficas incluídas no final da obra:
“Já se escreveu muito sobre o Brasil na Segunda Guerra. Nem tanto sobre a Segunda Guerra no Brasil”.
Para cumprir com a galhardia de sempre as tarefas que o autor chama para si ao elaborar seus livros ele mergulhou de cabeça em centenas de obras e registros que trouxessem qualquer menção ao impacto da maior guerra de todos os tempos no Brasil com especial destaque para a cidade do Rio de Janeiro então capital federal.
É muito interessante como o Brasil antes da eclosão da guerra em 1939 já passava por uma polarização parecida com a que vivemos nos dias de hoje entre esquerda e direita. No caso entre a AIB (ação Integralista Brasileira) de inspiração fascista e a ANL (Aliança Nacional Libertadora) que se posicionava à esquerda e diante dessa polarização o governo de Getúlio Vargas (1882/1954) que durou de 1930 a 1945 tinha posições muito mais próximas dos fascistas. O que não impediu Vargas de colocar a popular e influente AIB na ilegalidade quando lhe conveio e isso logo depois de fazer o mesmo com a ANL. O autor, claramente um crítico do “Pai dos pobres”, mostra de forma brilhante que o poder para Vargas era mais importante do que a ideologia e que o apoio da ditadura brasileira à luta pela liberdade na Europa contra o nazi-fascismo só ocorreu em função das pressões estadunidenses e de uma série de barganhas que resultaram em fornecimento de armamento para as forças armadas brasileiras e recursos que possibilitaram a construção da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional|).
Chamam a atenção em “Trincheira Tropical” as análises e descrições do autor acerca do impacto cultural da guerra no Brasil que sofreu uma verdadeira invasão de artistas, escritores, pintores, atores, atrizes, dramaturgos, diretores, fotógrafos e músicos que, fugindo da guerra e de seus desdobramentos, se estabeleceram no Brasil (muitos de forma definitiva) e levaram o universo cultural brasileiro a passar por uma transformação que provavelmente foi muito maior do que a provocada pela “invasão francesa” do início do século XIX e fruto de uma outra grande conflagração europeia: as guerras napoleônicas.
Outro destaque a meu ver é a inclusão no livro de uma história da FEB, a “Força Expedicionária Brasileira” que, a despeito de todas as dificuldades, lutou com bravura na Europa onde ela era ovacionada nas cidades que libertava na Itália com seus feitos reconhecidos pelos próprios militares estadunidenses que a comandavam. Mas tais reconhecimentos e esforços não teriam ecos no Brasil pois a FEB, mal colocou seus pés de volta na “pátria amada Brasil” foi dissolvida com seus “pracinhas” sendo descomissionados com pouco ou nenhum reconhecimento e as famílias daqueles que perderam a vida mergulhadas num mar de burocracia e muitas vezes entregues à indigência. E tudo isso pelo temor do governo Vargas em perder protagonismo e visibilidade para a FEB. Página vergonhosa de nossa história que precisa de mais destaque.
Ruy Castro em 13 de junho de 2025 deu uma ótima entrevista à jornalista Júlia Dias Carneiro correspondente da BBC News Brasil. Vale a pena reproduzir parte dessa entrevista:
BBC News Brasil - Trincheira Tropical fala sobre como a Segunda Guerra Mundial impactou a vida no Rio de Janeiro. O que te levou a escolher esse tema?
Castro - O livro é quase uma história da vida privada no Rio durante o conflito, falando sobre tudo que aconteceu na cidade por causa da guerra, que foi muito importante na vida do brasileiro. Atingiu todo mundo, principalmente no Rio, que era não só capital federal, como também a única metrópole do Brasil. Era o centro do corpo diplomático, o centro militar, o principal porto do país. O Rio recebeu não só espiões e contra-espiões, como também refugiados da guerra. Mas isso nunca tinha sido contado. Foi isso que me empolgou a buscar informações durante seis anos.
Os livros que existem a respeito tratam basicamente da luta dos pracinhas na Itália. Mas são chatos de ler e difíceis para o leitor entender. A maioria foi escrita por generais e coronéis que nunca estiveram a menos de 5 km do front da batalha. Como, aliás, os correspondentes de guerra. A ignorância e o desconhecimento sobre a guerra dentro do Brasil é muito grande.
A primeira coisa que fiz foi ler toda a imprensa da época, que era completamente censurada. Depois, comecei a buscar todos os livros publicados a partir de 1940 que faziam referência ao Rio naquele período. Livros de memórias de generais, políticos, jornalistas, escritores, empresários, diplomatas, uma quantidade enorme de pessoas publicaram suas memórias nesses últimos 80 anos. Foram seis anos lendo mais de mil livros para coletar informações.
BBC News Brasil - Como o conflito era acompanhado do Brasil? Havia um clamor pela entrada do Brasil na guerra?
Castro - Apesar de a guerra ter sido declarada em 1939, os mundos fascista, comunista e democrático já estavam em guerra no Brasil desde 1935, com a Intentona Comunista, o Estado Novo de 1937, que era fascista, e o Putsch Integralista de 1938. Durante a guerra, como o Brasil exportava alimentos e matéria-prima para países inimigos da Alemanha, submarinos alemães começaram a botar abaixo esses navios para impedir que chegassem à Europa e aos Estados Unidos.
No Rio, havia talvez dois mil espiões alemães dedicados a informar a Alemanha sobre as características e trajetos desses navios. Muitas casas tinham rádios clandestinos com antenas no telhado. Os espiões mandavam essa informação via rádio para Hamburgo, bombardeavam o navio e, pronto, morriam 200 pessoas. Mais de mil brasileiros morreram nesses bombardeios em 1942. E por causa dessas agressões, o Brasil declarou guerra ao Eixo Nazista — Alemanha, Itália e Japão.
Mas essa declaração de guerra só aconteceu porque houve uma pressão monumental dentro do Brasil. Havia uma ditadura aqui, tudo era proibido, mas de repente não houve como conter as manifestações de rua, lideradas pelos estudantes pela União Nacional dos Estudantes. A UNE botou milhares de pessoas na rua todos os dias exigindo a entrada do Brasil na guerra e a luta pela liberdade.
Ironicamente, o Brasil não tinha um regime de liberdade, tinha uma ditadura terrível, comandada pelo Getúlio Vargas. Mas ele não teve mais como segurar aquela onda, e foi obrigado, por pressão interna, a nos mandar para lutar na guerra.
BBC: O livro conta que o conflito também impôs dificuldades econômicas e racionamento aos brasileiros. Como foi?
Castro: Não há como ficar alheio a uma guerra mundial. Qualquer máquina que havia no Brasil, automóvel, geladeira, liquidificador, peça de reposição de ônibus, bonde, tudo vinha de fora. Mas, lá fora, estavam convertendo essas indústrias para a guerra, para fabricar canhão, tanque. Não entrava nada novo aqui.
A carne que o Brasil produzia passou a ser exportada para os Estados Unidos, então não havia carne para comprar. E o bombardeio de navios interrompeu o transporte de mercadorias entre o Sul/Sudeste e o Norte do Brasil. O Norte fabricava açúcar até dizer chega, mas não podia transportar para o Rio ou São Paulo. Lá havia excesso, aqui, escassez. Começou a haver racionamento de laticínios, ovos, trigo, com cotas semanais. A economia brasileira foi sendo desmantelada.
Excelente pedida para todos aqueles que apreciam uma boa e informativa leitura.