O QUE SÃO, AFINAL, AS GUERRAS CULTURAIS? E COMO É QUE A SUA HISTÓRIA NOS AJUDA A COMPREENDER O PRESENTE E O FUTURO?
De Martinho Lutero a Donald Trump, da invenção da imprensa às redes sociais, o historiador Rui Tavares transforma em livro cinco aulas sobre guerras culturais.
Não é possível entender o presente sem entender as guerras culturais — fenómenos de polarização extrema em torno de identidades, valores e narrativas, com grande intensidade emocional, que fazem de nós e dos outros meio humanos e meio bichos. Só que, ao contrário das grandes certezas dos teóricos — da economia à geopolítica — as guerras culturais não nos dão explicações simplistas. É que não é possível falar de guerras culturais sem falar de cultura, sem assumir que a cultura é a esfera primária em que os humanos vivem, um mundo de labirintos e asteriscos. O passado das guerras culturais ensina‑nos a olhar para o nosso futuro imediato — e diz‑nos que precisamos de novas palavras para entender novos monstros.
Muito interessante! o Rui faz-me sempre querer ler mais livros de história.
As últimas 5 páginas são a parte mais importante do livro (o futuro destas guerras culturais) e gostava que ele tivesse dedicado mais umas páginas a este futuro (daí as 4 estrelas).
Gostei. É um daqueles pequenos grandes livros que nos oferecem muita informação e nos convidam à reflexão sem serem maçadores. Dá uma boa retrospectiva e sistematiza o que foram e são as guerras culturais de uma forma acessível e com casos bem ilustrativos (e ilustrados). De notar o belíssimo grafismo que a tinta da china nos vem habituando.
Leitura absolutamente imprescindível (e necessária), focada em 5 séculos de guerras culturais, num paralelismo assombroso com as que vivemos actualmente. O Rui não é só um excelente historiador, como também consegue cativar o leitor a mergulhar em temas (que podem ser difíceis de digerir) de uma forma cativante. Foi o primeiro livro que li do autor, mas não será o único.
O facto de ter partido de conferências em que Rui Tavares falou sobre as guerras culturais faz com que a leitura do livro seja muito interessante, com o tom sardónico que o caracteriza mas que ajuda a coser toda a história e a explicar o tema do livro. Também traz uma luz sobre os tempos correntes que permitem imaginar onde tudo isto pode levar. O primeiro de muitos outros livros do Rui Tavares que hei-de ler.
"Precisamos de novos monstros. Precisamos de novas palavras também"
Para uma amante de história é um prazer e um privilégio que esta nos seja contada de forma simples, não maçadora e com uma elevada dose de reflexão sobre os acontecimentos que nos estão a ser relatados. É isto que o Tio Rui faz neste livro. Explica-nos o que pode causar uma guerra cultural e como estas foram mais ou menos impactantes ao longo dos séculos, sempre com um olhar crítico, fazendo-nos refletir sobre o momento presente, e como a História nos pode dar algumas respostas ou estratégias para lidarmos com estes tempos estranhos em que vivemos. É assim que se deve falar de História e não entendo como é que alguém a pode achar desinteressante quando nos é contada assim. E é por isso que o Tio Rui leva as primeiras 5 estrelas do ano.
“As guerras culturais não só são polarizadoras, não só se fazem em torno de identidades, valores e narrativas, não só têm grande intensidade emocional, como também podem envolver teorias da conspiração e inversões de posição relativamente ao que cada campo político tipicamente defende quando, perante determinadas peripécias, é mais ou menos convivente tomar uma certa posição.”
Este livro apanhou-me na melhor altura possivel! Ando um bocadinho "sedenta" por conteúdo sobre história europeia e o Hipocritões e Olhigarcas deu-me isso mesmo. A forma como está escrito é super descomplicada, acessível, cheia de exemplos práticos e até imagens. Claro que ao longo do livro se percebe que queremos chegar a uma comparação com o presente e gostei muito da forma como foi abordado. Nem demasiado pessimista, nem um mar de rosas.
Excelente ensaio de Rui Tavares, que se lê de forma contínua e que nos deixa um alerta para o futuro do mundo, apresentando os argumentos da realidade do passado. Numa escrita muito acessível, Rui Tavares, relata factos e situações da História, deixando o leitor tirar as devidas conclusões. Excelente e obrigatória leitura para quem se preocupa com o futuro de Portugal e do Mundo.
aprendi imenso, é mesmo muito bom. desta vez achei o tom mais coloquial e acessível. há acontecimentos e associações históricas mesmo interessantes. fez-me pensar muito sobre sociedades
O melhor do livro está nas últimas cinco páginas. Tudo o que está para trás é uma espécie de resenha histórica que, embora fundamental para a proposta do livro, cativa menos
Muito interessante e muito fácil de ler, e de alguma forma, também me deu uma dose de esperança no futuro. Eventualmente líderes carismáticos, agregadores e com uma visão universalista vão emergir do pântano em que estamos.
Hipocritões e Olhigarcas é um daqueles livros que parecem falar do presente mas, na verdade, estão a dialogar com séculos de história. Rui Tavares parte da ideia de que a base de qualquer guerra cultural é sempre a mesma: um conflito de identidades, valores e narrativas. E fá-lo com uma mestria rara, cruzando casos contemporâneos com episódios que moldaram a história europeia.
O livro parte de cinco aulas que o autor deu sobre o tema e sente-se essa origem oral – há uma fluidez no discurso, um ritmo próprio de quem está a conversar connosco e não a discursar. Rui Tavares mergulha na história (da imprensa à Reforma, de Lutero a Trump), traçando paralelos entre o passado e o presente para mostrar que estas guerras culturais não são exatamente novas - mas hoje, talvez, estejam a ser travadas com armas mais ruidosas e menos subtis.
Entre os exemplos, surge o caso Mortara e o Papa Pio IX, o affaire Dreyfus em França ou a disputa em torno da família Calmon no Porto — episódios que, em diferentes épocas, incendiaram debates públicos e polarizaram sociedades inteiras. Tavares mostra como estes conflitos são menos sobre factos concretos e mais sobre aquilo que cada lado quer ver neles: símbolos, pertença, valores em choque.
O livro é também uma viagem intelectual deliciosa. De De Rerum Natura, obra “demasiado à frente do seu tempo”, até à sobrecarga de livros no século XVII (porque sim, já nessa altura se achava que havia informação a mais), Rui Tavares recorda-nos que o medo do excesso de conhecimento não nasceu com a internet. Da mesma forma, lembra como o nome “Europa” nos chega de uma história de rapto — uma mulher asiática levada por Zeus —, símbolo fundacional que por si só já contém tensões de identidade e poder.
As páginas estão cheias destes momentos surpreendentes: Kant a especular sobre “gases” para explicar o terramoto de 1755, enquanto em paralelo esse mesmo terramoto moldava o pensamento político de Alexander Hamilton, futuro pai fundador dos EUA. Ou o facto de, antes da Revolução Francesa, os livros mais lidos não serem tratados iluministas, mas sim coleções de fofocas. A cultura, afinal, é sempre menos nobre do que gostamos de pensar — e é justamente isso que a torna viva.
Tavares também faz paralelos brilhantes entre tecnologias de ontem e de hoje. O rádio, que um século atrás assustava elites pela sua capacidade de difundir notícias e manipular massas, aparece aqui como um espelho das redes sociais atuais. Só que, hoje, em vez de estados nacionais a controlar as ondas, temos arquicensores privados — Musk, Zuckerberg e companhia — que dominam fluxos de informação globais e se dão ao luxo de brincar com criptomoedas lançadas em homenagem a presidentes corruptos. A “hipocriptomoeda”, como Tavares lhe chama, é o exemplo máximo do hipocritão contemporâneo: alguém que se deixa corromper à vista de todos, sem sequer precisar de fingir.
Apesar do diagnóstico severo, o livro não termina em pessimismo. A mensagem é clara: não devemos ter medo da mudança. As guerras culturais existiram no passado, existem no presente e existirão no futuro. O que podemos — e devemos — fazer é aprender com a história, reconhecer as metáforas e monstros que criamos, e evitar cair na ilusão de que vivemos tempos inéditos ou apocalípticos.
No fim, Hipocritões e Olhigarcas é um ensaio vibrante, cheio de humor e erudição, que nos obriga a pensar sobre como a cultura nos molda e sobre como nós próprios alimentamos estas guerras — ora como cúmplices silenciosos, ora como protagonistas. Um livro que incomoda, ilumina e diverte ao mesmo tempo.
Informativo e tem uma perspectiva cronológica diferente de uma simples analise de eventos históricos. Gostava que elaborasse mais nas guerras culturais contemporâneas e os apontamentos ao tempo em que vivemos. Estes últimos dois capítulos foram os em que mais se notou a voz do Rui Tavares comentador e cronista, e são aqueles em que faz as críticas mais mordazes. Não quero dizer que são os mais interessantes, porque o levantamento histórico e os eventos narrados nos capítulos anteriores realmente despertam o interesse do leitor por serem aponta entos históricos fora do circuito geral,e são magistralmente interligados. No entanto é preciso sublinhar que este livro é um produto de sessões online que o autor deu ao abrigo da editora (Tinta da China ), o que por um lado é bom para quem, como eu, a elas não assistiu. Mas acho que também se deve olhar para este livro não como um produto natural do autor mas como uma rentabilizacao do material da editora. Não é uma crítica negativa, mas acho que é um detalhe que não se pode ignorar quando se fala do clima de guerras culturais. Será um sintoma as editoras fazerem render as suas galinhas dos ovos de ouro em vez de arriscarem em novo material?
“Podemos olhar para as estatísticas e os índices de preços; para as sondagens e para os resultados eleitorais; para a geopolítica e para a macroeconomia. Mas se nos recusarmos a entrar no labirinto da cultura, por muito que nos percamos nele, e por muitos asteriscos que tenhamos de jogar para nos salvarmos de sermos devorados, não entenderemos a política”
“Pensamos muito nas coisas que mudam, mas pensamos pouco na própria mudança em si. E fazemos mal, porque este tema aparentemente vago e teórico tem sérias consequências práticas. É que, na verdade, não há só uma mudança, mas vários tipos de mudança. A alguns tipos de mudança, gostando ou não, estamos acostumados, como humanos que somos. São eles a mudança constante, incremental ou cíclica. A outros tipos de mudança temos resistências emocionais, como no caso da mudança irreversível. E outros ainda - como é o caso da mudança exponencial — são difíceis até de abarcar cognitiva-mente. O cérebro humano recusa-se a querer compreender; ficamos perplexos e desorientados; perdemos a confiança nas lideranças, revoltamo-nos e queremos voltar ao passado, mesmo sabendo que isso é impossível.”
Engraçado que, quando ouvimos a voz da pessoa, imaginamos essa mesma pessoa a narrar-nos o texto. Admito: este é o primeiro livro que li do Rui Tavares. Sempre foi um nome que eu ouvia falar, mas só “prestei” atenção quando o Livre foi aparecendo. Pessoa culta, inteligentíssima e que, a partir deste livro, recomendarei a toda a gente. E, claro, passarei a consumir mais livros do próprio.
Em relação ao livro, muita coisa a dizer que já foi dita. Muito bem escrito, conciso (daí o tamanho), mas cheio de riqueza. Saí do livro com muitas recomendações para aprofundar ainda mais as temáticas abordadas. O Rui Tavares tem uma habilidade impressionante de não aborrecer por alongar-se ao abordar os temas, conseguindo tecer uma narrativa que liga temas que pensamos não terem ligações. Afinal de contas, o que é que o labirinto do Minotauro tem em comum com FDR, ou Hitler, ou até mesmo com a invasão ao Capitólio?
Hipocritões e Oligarcas foi uma leitura extremamente prazerosa.
"(...) Mas não só: a leitura tornou-se mais pessoal e silenciosa (cada um, ou cada uma, lendo o livro para si, sem pronunciar as palavras), em vez de em voz alta e coletiva, como ocasião social ou institucional. Essa relação mais pessoal e subjetiva foi posteriormente associada à imprensa como possível explicação para os acontecimentos relacionados com a divisão da cristandade europeia ocidental entre católicos e protestantes e as subsequentes guerras de religião. Surgiu a ideia de que os livros tinham servido, quando lidos e interpretados à maneira de cada um, para acicatar os ânimos e os ódios. E que, portanto, os livros impressos, ao contrário dos manuscritos, talvez não fossem uma invenção divina, mas sim uma invenção demoníaca."
“As guerras culturais não só são polarizadoras, não só se fazem em torno de identidades, valores e narrativas, não só têm grande intensidade emocional, como também podem envolver teorias da conspiração e inversões de posição relativamente ao que cada campo político tipicamente defende quando, perante determinadas peripécias, é mais ou menos conveniente tomar uma certa posição.”
Um livro muito muito muito muito denso, mas muito necessário. Fala sobre 2 mil de anos de guerras culturais, como sociedades se polarizam e como tudo se torna um ciclo. Uma leitura imprescindível para qualquer interessado por história e política, retrata os temas de religião, totalitarismo, socialismo e entre outros de maneira profunda e com caudal. Nada que não se espere vindo de um historiador como Rui Tavares.
“Para um racista não há forma das suas vítimas provarem a sua inocência” - a frase não era bem assim, era sobre antissemitismo, mas penso que não mudei a ideia da frase sobre o caso de Dreyfus.
Estava à espera de um livro que me deixasse com mais respostas do que perguntas e encontrei o oposto. O que para ser sincero não é mau e já me venho habituando.
A exposição feita sobre as guerras culturais passadas é, apesar de leve e bastante “escolhida”, muito rica e cheia de informações que complementam falhas nas guerras anteriores.
No geral um livro que não vai deixar ninguém mais ou menos esperançoso mas que pelo menos esclarece que apesar de vivermos tempos conturbados isso não implica que tudo vai acabar, só que mudou o tipo de conturbado.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Uma análise ampla e cuidada, com um importante e relevante contributo pragmático, apesar do seu cerne filosófico. Se por um lado fica bem clara a ideia cíclica e inevitável do confronto cultural como parte do contacto democrático de ideias, por outro lado também se entende o seu significado mais localizado e a necessidade de abordar esse mesmo confronto com franqueza e estrutura para compreender e resolver os nós que por sua conta se vão atando.
"A História Cultural: Entre práticas e representações" de Roger Chartier "A Transformação Estrutural da Esfera Pública" de Jürgen Habermas "Como Reconhecer o Fascismo / Da Diferença entre Migrações e Emigrações" de Umberto Eco "Terra Sangrenta: A Europa entre Hitler e Estaline" de Timothy Snyder "Eles Pensavam Que Eram Livres - Os Alemães 1933-1945" de Milton Sanford Mayer "Why We're Polarized" de Ezra Klein
Reflexão interessante sobre as guerras culturais da antiguidade aos nossos dias, sobre o que as promove e como arrastam paixões, convicções e imprevisibilidade. Esta reflexão toca em algumas fases particulares da historia como a reforma protestante e a invenção da imprensa ou a ascensão dos populismos, desembocando no que talvez considere a parte que gostaria de ter visto mais desenvolvida, ou seja, a da contemporaneidade: novos monstros, desafios actuais e futuros, como a luta / definição de um desejo comum pode combater o medo. Leitura facil e escorreita.
um livro ensaio muito bom, em que o tema é a tese das "guerras culturais" pela perspectiva de Rui Tavares ( historiador e político português)
gosto muito de história por isso sou suspeito, o livro vai contando a sua tese através do tempo começando num pequeno labirinto em Pompeia, contando promenores como o surgimento do Asterisco e Obelisco, e vai cruzando a história até aos nossos dias.
gostei especialmente do capítulo sobre a rádio e Roosevelt e também o a seguir a esse sobre a carta universal dos direitos humanos.
Uma leitura acessível e profundamente enriquecedora, este livro de Rui Tavares é uma verdadeira aula sobre história e sociedade. Com uma escrita clara e envolvente, o autor consegue transformar marcos históricos em poderosos momentos de reflexão interior, explorando não só os fatos, mas também seu impacto sociocultural. A obra convida a pensar criticamente sobre o passado e suas repercussões no presente, tornando-se essencial para quem quer compreender melhor a época política tumultuosa em que vivemos