#lerosclássicos2021
Sabia que para poder tirar o melhor partido possível desta obra não poderia lê-la com o meu olhar cínico de leitora do século XXI, no entanto, tirando um ou outro momento mais aborrecido, algumas tiradas em tom empolado e certas marcas típicas do romantismo, como a orfandade que parece contagiosa e as paixões assolapadas e causadoras de lividez cadavérica, posso afirmar que foi uma agradável surpresa.
Os pontos fortes de “A Morgadinha dos Canaviais” são sem dúvida a ironia e o virtuosismo da escrita de Júlio Dinis, bem como os seus traços já de realismo, como a questão do progresso representado pelas estradas, a proibição de enterrar os mortos dentro das igrejas, que tanta celeuma aqui causou...
-Não queremos que ninguém se enterra aqui!- respondeu o Sr. Joãozinho.
- É verdade! É verdade! Ninguém se enterra aqui! – confirmaram diferentes vozes.
- Porquê? – continuou o padre. – Julgam que Deus não receberá almas cujos corpos não estejam lá dentro, a apodrecer sob os telhados da igreja e a envenenar o ar que se respira lá?
...e um certo anticlericalismo, totalmente justificado pelos episódios apresentados neste livro e que proporcionaram os momentos de maior comoção e tensão, protagonizados pelas minhas personagens preferidas, Henrique de Souselas e a morgadinha Madalena.
Efectivamente, não tinham passado desapercebidos do padre os comentários de Henrique, nem os sorrisos mal disfarçados de Madalena; e a raiva despertada pela descoberta cada vez inflamava mais o orador, exacerbando-lhe a virulência da frase. Já não podia tirar os olhos daquele grupo, e por vezes a cólera, estrangulando-lhe quase a laringe, interrompera-lhe o discurso.
É verdade que não me agradou inicialmente a forma como o lisboeta foi pintado, porque denoto na obra algum preconceito regionalista, mas no final fez-me lembrar um êxodo muito actual, o das pessoas que se cansam da vida citadina e se deslocam para a província para se dedicarem à agricultura e outras actividades mais bucólicas.
Henrique corria com prazer a vista pelos diferentes lugares da Quinta de Alvapenha, com as suas noras e medas, colmeias, eiras, cabanas e sebes. (...) Pouco a pouco, deixara Henrique de ver a quinta como ela era. Principiava a visão interior.
Tendo em conta que tinha este livro por ler há décadas, depois de ter detestado “Uma Família Inglesa” em tempos tão remotos que o estabelecimento de ensino onde eu a dissequei ainda se chamava liceu, posso apenas concluir que peguei nele no momento certo, até porque se adiasse muito mais a leitura nesta edição da Europa-América, teria de fazê-la de lupa.
Em geral, as mulheres, seja dito antes em honra do que em censura do sexo, são oradoras de muito mais fôlego do que os homens que blasonam de eloquentes. O assunto mais simples, uma colher que se perdeu, uma peça de louça que se quebrou, por exemplo, fornecem-lhes tema para uma prédica de duas horas.
É por estes e outros reparos igualmente engraçados que Júlio Dinis ainda merece ser lido!
[Obrigada, Ana, pelo empurrão suave para chegar ao livro mais antigo das minhas estantes, que corria o perigo de nunca vir a ser sequer folheado.]