# Mothering May
Há seres que são sustentados pela vida e outros que precisam lutar contra ela.
No livro sobre a mãe que precede este, “Lutas e Metamorfoses de uma Mulher”, Édouard Louis conta com orgulho como ela se libertou de um casamento de duas décadas caracterizado pela humilhação e pela anulação, para refazer a sua vida apenas com o único filho que ainda vivia em casa e, pouco depois, com o seu novo companheiro, com quem se mudou para Paris, reaparecendo perante o filho como uma verdadeira fénix renascida das cinzas. Até que, passados sete anos, o autor recebe um novo telefonema de Monique a meio da noite: a história repetia-se, era a terceira vez que ela vivia com um homem alcoólico, controlador e agressivo.
A violência que minha mãe vivia tinha o cheiro das grutas e cavernas da pré-história, o cheiro da violência milenar.
Sem emprego nem dinheiro, Monique tem de recomeçar de novo, mas desta vez, graças a sucesso de Édouard Louis como escritor, pode contar com a ajuda do filho, que primeiro a recebe no seu apartamento e, depois, lhe aluga e mobila uma casa, provando que a vida é realmente irónica.
O que minha mãe tinha visto como traição era agora o que nos permitia, juntos, construir a sua liberdade. Ela ficou com raiva de mim (…) por eu ter escrito um livro sobre minha infância e sobre nossa família. Mas, paradoxalmente, foi porque escrevi esse livro, e depois os outros, que ganhei o dinheiro que agora eu podia gastar com ela.
Por Louis ser uma soma das experiências traumáticas que sofreu enquanto vivia com a família, há uma racionalização inesperada na capitalização da dor:
Eu poderia dizer: sem sofrimento na infância = sem livros publicados = sem dinheiro = sem liberdade possível.
Com essas considerações em mente, o autor ousa ir mais longe em termos materiais…
O meu projeto consistia em registar, às margens do texto sobre a fuga da minha mãe, os valores em dinheiro necessários para ela se libertar. (…) Eu queria, como Virginia Woolf e as suas 500 libras de renda, fixar uma quantia concreta que refletisse o custo de uma vida e de sua possibilidade.
…mas além de temer que isso desfeasse o seu livro, há factos mais descoroçoantes na existência da sua mãe:
Ela tem 57 anos e nunca pegou um avião na vida (…), ela nunca dormiu num hotel, nunca foi ao teatro, a não ser para ver algumas peças escolares.
Contudo, quando “Lutas e Metamorfoses de uma Mulher” é adaptada ao teatro na Alemanha, Louis permite-lhe que todos esses “nuncas” sejam substituídos por várias primeiras vezes, porque tal como a infelicidade da mãe o tornava inerentemente infeliz, o processo de superação dela ajuda-o na cicatrização das próprias mazelas emocionais. É assim que surge “Monique se liberta”, desta vez como um pedido da própria mãe, também já em paz com o protagonismo que o filho lhe dá.
Por meio dela, aprendi o prazer de escrever a serviço de outra pessoa.