Lindo, fúnebre e solitário, D. Pedro V foi um cometa que iluminou a quarta dinastia. Filho de D. Maria II de Bragança e de D. Fernando de Saxe Coburgo, nasceu em Lisboa, no Palácio das Necessidades, a 16 de Setembro de 1837. Foi uma criança prodígio, mais afeiçoada aos estudos do que aos brinquedos. Após a morte de sua mãe, e por ter de esperar dois anos até atingir a maioridade, viajou pela Europa. Seria coroado a 16 de Setembro de 1855. Três anos depois, casava-se com um membro da casa real da Prússia, D. Estefânia de Hohenzollern Sigmaringen, com quem manteve uma relação platónica. Morreu aos 24 anos, a 11 de Novembro de 1861. Existiam, na sua natureza, contrastes surpreendentes. Era severo e gentil; modesto e sarcástico; tinha carências afectivas e era de uma frieza que podia ferir. Para o bem e para o mal, não teve tempo de mostrar aquilo de que era capaz. Morreu, como afirmou desejar, na flor da idade. Passou à história sob o cognome de o Esperançoso.
MARIA FILOMENA MÓNICA nasceu em Lisboa, a 30 de Janeiro de 1943. Licenciou-se em Filosofia na Universidade de Lisboa, em 1969, e doutorou-se em Sociologia na Universidade de Oxford, em 1978. Colabora regularmente na imprensa. Entre outros livros publicados, é autora de «Eça de Queirós» (Quetzal, 2001), «Bilhete de Identidade» (Alêtheia, 2005) e «Cesário Verde» (Alêtheia, 2007). É investigadora-coordenadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
A ideia que fica é de que a obra poderia ser muito melhor.
Em termos de análise política, o livro é demasiado superficial, fornecendo muito pouco contexto para os vários acontecimentos descritos, incluindo alguns importantes. Geralmente, as curtas contextualizações apenas servem para corroborar demonstrações de exasperação por parte de D. Pedro e defender as suas infindáveis lamentações relativas a políticos. Nesta vertente, também falta densidade ao livro. Sinto que a quantidade de texto tinha espaço para uma melhor descrição da ação política do monarca e dos governantes que o rodeavam. Para além disso, a escolha de tópicos e situações a abordar parece, várias vezes, um pouco arbitrária, faltando fio condutor à obra.
O facto da autora não ser historiadora foi, por demais, evidente. Penso que a escolha de Maria Filomena Mónica, por parte da organização, tenha estado relacionada com o seu contacto próximo com a correspondência entre D. Pedro e o príncipe Alberto, que, em conjunto com o resto do legado escrito extraordinariamente extenso de D. Pedro, poderia permitir à autora uma profunda análise da interessante e complexa personalidade do rei. Em teoria, faria sentido abdicar de uma melhor análise social e política para cumprir este fim. No entanto, também o estudo psicológico foi pouco conseguido. Com exceção de alguns momentos no epílogo, as declarações sobre a personalidade de D. Pedro são redutoras e repetitivas, ficando presas em exposições da sua frustração relacionada com acontecimentos políticos e administrativos.
Há, também, uma acentuada sobre-dependência, por parte da autora, dos escritos do monarca. Grandes excertos de cartas, relatórios, e outros documentos, são transcritos e intercalados com algumas palavras de preenchimento inócuas da autora. Esta deixa que seja D. Pedro a tomar o controlo da escrita de uma obra, que, por vezes, se assemelha a uma organização de escritos do monarca com breves notas (ocasionalmente com pouco sentido) de Maria Filomena Mónica.
Por último, o anexo, dois artigos de D. Pedro transcritos na íntegra, embora interessante, não tem razão para aparecer nesta obra. Penso que haveria algum limite mínimo de páginas a cumprir e a autora não sabia como o atingir, optando pela escolha, aparentemente arbitrária, dos mencionados artigos.
Em conclusão, para um novato em relação a D. Pedro V, como é o meu caso, há bastante a aprender nesta obra. Como tal, a sua leitura valeu a pena. Mas há, claramente, largo espaço para melhoria, por parte de alguém com um domínio profissional da matéria em questão.
Quis ler este livro para comparar com o anterior que li sobre este Rei. Enquando Isabel Machado (num romance histórico) dá uma visão, isso mesmo, romanceada, mas de uma pessoa sensível e muito humana, Maria Filomena Mónica apresenta-o como alguém sombrio e arrogante. Claro que são estilos completamente diferentes mas, ao contrário do que é habitual em Mónica, de que gosto muito, parece não haver isenção. A autora explica que esteve a ponto de deixar este projecto... se calhar deveria tê-lo feito. Não me parece que tenha sido imparcial. D. Pedro V tem, também, o cognome de "O Bem Amado". A autora omite-o sempre e refere-se apenas a "O Esperançoso", ainda que na sua descrição também de esperançoso não haja muito. Quase que descreve, em termos de personalidade, mais o seu pai, D. Fernando, do que D. Pedro. Possivelmente o Rei não terá sido o doce de Machado mas Mónica omite mesmo o que o leva a ser O Bem Amado para o povo. E há que ter em conta que Isabel Machado também usa documentos. nomeadamente cartas para ilustrar o que escreve. Devemos atar-nos que este é um livro que incide essencialmente na política? Possivelmente sim. Mas é desapontante, na minha opinião, para a escritora de quem tinha a melhor opinião.