3,5
Cecília é a pediatra, uma mulher sem amor pela medicina que pratica (limita-se a seguir protocolos em situações agudas), sem amor por crianças (sobretudo pelas que atende), sem amigos, sem namorado, sem empatia pela empregada grávida que dorme no quartinho dos fundos, sem vocação ou paciência para tudo o que é crónico na vida, da doença à relação filial ou amorosa.
Cecília é daquelas personagens antipáticas ao leitor, mas cuja vida se quer conhecer melhor. Não deixamos de torcer por ela, talvez tenha conserto, talvez se toque, talvez...
Com o estilo de escritora, a leitura torna-se viciante, apesar de algo repetitiva, num crescendo de ansiedade e sensação de desgraça a rebentar. Cecília é funcional, confiável, profissional, certeira, metódica, e ainda assim o seu "trem" parece estar sempre prestes a descarrilar.
Refiro, brevemente, a tentativa de contrastar medicina convencional com modas de parto sem anestesia em casa, doulas e cenas esotéricas, todas muito diabolizadas (e não é que eu seja adepta).
Parece-me um livro curioso, diferente, arriscado, ousado e bem escrito. O final, ainda que previsível, foi um pouco abrupto, deixou-te nervosa, com palpitações.
Enfim, A Pediatra lê-se rápido e dá que pensar.