A campanha eleitoral que em 1958 opôs Humberto Delgado a Américo Tomaz (ou melhor, a Salazar); o desvio de um avião da TAP (1961) e o assalto à delegação do Banco de Portugal da Figueira da Foz (1967), por Hermínio da Palma Inácio, Camilo Mortágua e outros companheiros, que viriam a juntar-se na LUAR - Liga de Unidade e Ação Revolucionária; e a destruição de postes de abastecimento de eletricidade a Lisboa no dia da tomada de posse de Américo Tomaz como Presidente da República (1972), pela ARA - Ação Revolucionária Armada, ligada ao Partido Comunista Português - eis os factos reais que sustentam o romance, uma história de intriga e de amor no contexto histórico do despontar da democracia.
Este livro despertou em mim a lembrança de um Portugal antigo — aquele que conheci apenas pelas histórias contadas pelos meus avós. Recordo os serões passados à volta da fogueira e as tardes nas escadas soalheiras, onde as minhas tias-avós se entregavam à arte da renda, num labor paciente que parecia não ter fim, entre silêncios cúmplices e conversas sobre a vida na vila.
Pedia-lhes histórias das suas vidas, e elas contavam-me os confrontos de infância — as suas versões das pedradas entre os rapazes do Alto e os da Avenida, batalhas travadas com a inocência de quem ainda desconhece a dureza do mundo. Lembro-me das suas versões dos senhores Hermenegildos, os “Trogloditas” da aldeia — homens e mulheres de poucas graças e muitas queixas, que discutiam até com o silêncio.
Falavam também dos namoros à janela, tão recatados quanto ousados, espelhos de um país feito de contrastes.
Descreviam um Portugal desigual, onde muitos deixavam as suas terras não por vontade, mas por necessidade. Alguns fugiam por causa da política, outros da fome. E havia os que partiam para guerras que não eram suas, em nome de causas que mal compreendiam.
Essas são as vozes da minha infância — ecos de quem partiu e de quem ficou. Este livro devolveu-me tudo isso: memórias envoltas num tom leve e bem-disposto, sem nunca esquecer o retrato de uma sociedade marcada por assimetrias e lutas silenciosas.
Senti o calor da lareira, voltei a estar sentada naquela escada soalheira e revi uma infância tão boa, feita de afetos e recheada de histórias — um tempo, que depois de ler o livro, agora carrego com mais saudade.