Buenos Aires, capital da Argentina, 1959. Uma preguiçosa noite. Juan Salvo, um bem sucedido empresário, prepara-se para cumprir um ritual de anos: jogar truco com três velhos amigos. Eis que, repentinamente, as luzes se apagam e uma misteriosa neve começa a cair. Perplexos eles percebem que o mínimo contato com essa neve provocava morte instantânea. Além disso não há comunicações. Com um antigo rádio de ondas curtas eles recebem informações truncadas de que há uma espécie de invasão alienígena e de que as grandes potências ocidentais, que já haviam explorado e espoliado a América Latina, fizeram um acordo com os invasores entregando a região em troca de não serem invadidos. Começa então a saga de Juan Salvo em busca de sobreviver e proteger sua família em meio à neve mortal, ao desespero de seus concidadãos e às incursões de criaturas e veículos enviados pelos alienígenas como forma de eliminar os seres humanos e viabilizar a ocupação.
Esse é o enredo básico de “O Eternauta” que, lançado originalmente em 1959, com roteiro de Héctor Oesterheld e desenhos de Francisco Solano López, e tendo como inspiração o clássico “Guerra dos Mundos” de H.G. Wells, se tornou um clássico mundial dos quadrinhos.
Dez anos depois a história foi relançada e reformatada com roteiro também de Héctor Oesterheld mas com os desenhos, nesse relançamento, a cargo de Alberto Breccia.
Os diferenciais dessa edição de 1969 são o enredo que aqui ganha contornos bem mais politizados com a invasão alienígena como uma espécie de metáfora ao autoritarismo e patriarcalismo reinantes e os desenhos de Brescia, que, ao contrário do traço mais limpo e algo tradicional de Solano López, foram estruturados em torno de uma espécie de expressionismo sombrio que dividiu opiniões já que muitos não gostaram desses desenhos considerando-os confusos e, curiosamente, inexpressivos.
Como importantes complementos para esse clássico dos quadrinhos a graphic novel traz um ótimo prefácio de autoria de André Pereira de Carvalho, doutor em Sociologia pela UFMG e um interessante posfácio intitulado “Uma revista fresca e uma história de quadrinhos podre” de autoria de Guillermo Saccomanno, escritor e ensaísta argentino e Carlos Trillo, quadrinista e professor também argentino que descreve com muitos e interessantes detalhes o contexto histórico em que essa versão de “O Eternauta” foi lançada.
Vale a pena reproduzir alguns trechos do prefácio:
“No dia 29 de maio de 1969 chegava às bancas argentinas a nova edição da revista “Gente”. Dentre uma centena de páginas, três delas se destacavam pela distinção insólita quanto ao restante do conteúdo: uma nova versão de “O eternauta”. [...] Héctor Germán Oesterheld se manteve nos roteiros, enquanto a arte de Francisco Solano López dava lugar ao gigante Alberto Breccia. [...]
Frequentemente, alguém diz que “é preciso separar a obra do artista”. Oesterheld sabia que essa é uma falsa separação, e escreveu diversos quadrinhos com um teor crítico explícito. Por seu posicionamento político de esquerda, ele e suas quatro filhas são parte dos 30 mil desaparecidos durante a ditadura argentina. A obra de um quadrinista pode ser tão importante a ponto de um governo fascista silenciar sua voz? A resposta é sim. Se a ditadura argentina não separou a obra do artista, tampouco iremos nós. Mas aqui não iremos silenciá-lo; pelo contrário, iremos reverberar o texto ensurdecedor de suas páginas.
“O eternauta” é fruto do contexto político e social de sua época. Mas Breccia e Oesterheld foram capazes de extrapolar a dimensão de seu momento histórico e produzir algo que se encaixa em qualquer conjuntura onde existam características semelhantes. [...]
Se esta obra tivesse sido lançada simultaneamente no Brasil, talvez o público aqui também entendesse o seu peso. Afinal, apenas dois dias antes do lançamento argentino, Antônio Henrique Pereira Neto, o padre Henrique, era torturado e assassinado pelo Comando de Caça aos Comunistas, em Recife. Angústia e medo já eram familiares ao brasileiro e este quadrinho aproxima o leitor da aflição de Juan Salvo em tentar proteger sua família da ameaça que os cerca. [...]
Qual a função de Juan Salvo enquanto eternauta? [...] Ele conta sua história. Sua função é a de fazer lembrar o que aconteceu, de não deixar esquecer. Se Juan e todos os demais morrerem e não houver quem conte sua história, seu desaparecimento será uma incógnita. Como diz a infame frase do ditador argentino Jorge Rafael Videla, proferida em 1979, dois anos após o desaparecimento de Oesterheld, “um desaparecido não tem entidade, não está nem morto, nem vivo, está desaparecido”.
Essa declaração ecoa ao longo do tempo, e, em julho de 2019, o presidente do Brasil Jair Bolsonaro afirma: “Se o presidente da OAB quiser saber como o pai desapareceu no período militar, eu conto para ele”. Fernando Augusto Santa Cruz de Oliveira, estudante de Direito e militante do movimento marxista Ação Popular, foi levado por agentes do Estado no dia 23 de fevereiro de 1974 e nunca mais foi visto. Não se engane: não se trata aqui de contar sua história, mas de justificar o crime cometido pelo Estado. [...]
A neve mortal que cobre toda a Argentina no quadrinho tem outros significados para além de seu sentido mais literal. Embora a obra seja apresentada como uma ficção científica, a história de pessoas como Oesterheld, Fernando Santa Cruz e o padre Henrique nos mostra que havia algo real acontecendo, tão mortal quanto os flocos de neve, cobrindo a América Latina.
De maneira terrivelmente profética, o papel do Eternauta é o papel de Oesterheld: não deixar as memórias serem esquecidas, dar voz àqueles que foram silenciados”.
“O Eternauta” (1969), dessa forma, é uma ótima pedida a despeito das polêmicas envolvendo os desenhos. Pessoalmente eu prefiro o traço mais limpo da versão de 1959. Os desenhos dessa versão realmente, em minha avaliação, são “artísticos demais” e às vezes, realmente, são um tanto confusos.
Na dúvida leia as duas versões e reflita sobre as questões que Oesterheld aborda em suas digressões acerca da sociedade e da política argentinas no particular e sul-americanas no geral.