Epifania é a expressão religiosa empregada para designar uma manifestação divina. Por extensão, é o perceber súbito e imediato de uma realidade essencial, uma espécie de iluminação. As crônicas escritas por Caio Fernando Abreu retêm essa qualidade, levam o leitor a enxergar, como num clarão, verdades bem escondidas.
A primeira fase das Pequenas epifanias foi publicada no jornal O Estado de S. Paulo entre 1986 e 1989. Depois de uma retirada de três anos, Caio voltou ao terreno da crônica instigado por Antonio Gonçalves Filho, então editor do “Caderno 2” do jornal. É aí que sua escrita de cronista se torna mais visceral, mais atada aos fenômenos da vida e da morte. Como lembra Gonçalves Filho, na apresentação desta obra, Caio vinha “disposto a fazer da crônica uma narrativa explicitamente autobiográfica e escandalosamente literária”.
Caio Fernando Loureiro de Abreu nasceu no dia 12 de setembro de 1948, em Santiago, no Rio Grande do Sul. Jovem ainda mudou-se para Porto Alegre onde publicou seus primeiros contos. Cursou Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, depois Artes Dramáticas, mas abandonou ambos para dedicar-se ao trabalho jornalístico no Centro e Sul do país, em revistas como Pop, Nova, Veja e Manchete, foi editor de Leia Livros e colaborou nos jornais Correio do Povo, Zero Hora, O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo.
No ano de 1968 — em plena ditadura militar — foi perseguido pelo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), tendo se refugiado no sítio da escritora e amiga Hilda Hilst, na periferia de Campinas, São Paulo.
Considerado um dos principais contistas do Brasil, sua ficção se desenvolveu acima dos convencionalismos de qualquer ordem, evidenciando uma temática própria, juntamente com uma linguagem fora dos padrões normais.
Em 1973, querendo deixar tudo para trás, viajou para a Europa. Primeiro andou pela Espanha, transferiu-se para Estocolmo, depois Amsterdã, Londres — onde escreveu Ovelhas Negras — e Paris. Retornou a Porto Alegre em fins de 1974, sem parecer caber mais na rotina do Brasil dos militares: tinha os cabelos pintados de vermelho, usava brincos imensos nas duas orelhas e se vestia com batas de veludo cobertas de pequenos espelhos. Assim andava calmamente pela Rua da Praia, centro nervoso da capital gaúcha.
Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro e em 1985 passou a residir novamente em São Paulo. Volta à França em 1994, a convite da Casa dos Escritores Estrangeiros. Lá escreveu Bien Loin de Marienbad.
Ao saber-se portador do vírus da AIDS, em setembro de 1994, Caio Fernando Abreu retorna a Porto Alegre, onde volta a viver com seus pais. Põe-se a cuidar de roseiras, encontrando um sentido mais delicado para a vida. Foi internado no Hospital Menino Deus, onde posteriormente veio à falecer.
Thinking travels Every night takes me To a different place but the dream I dream Is always the same: a home -- Ryokan
This is the kind of book which perfectly justifies why people should learn Portuguese hahaha. Seriously! Caio Fernando Abreu terrifically creates a series of chronicles - all them published between 1986 and 1995 -, with texts about loneliness, doubts, love and second thoughts engendered upon a lucid madness.
"I cry alone in the dark and you don't wipe my tears. You don't wanna see my childhood."
Caio is a transgressor who fights and complains about the status quo. He, however, is not aggressive; he is affective and one of a kind with a terrific sensibility.
"I looked outside of me, and I couldn't find anyone in the vibrations of the dirty city. I looked inside of me and there was only blood. Spilled, like in the winnows."
The most brilliant writing in this book is the composition of a series of chronicles entitled "Letters to beyond the wall". In this set (First, Second, Last letter to beyond the wall), Caio talks about the time in which he discovers that he's HIV positive. He then painfully and beautifully tells us about his disease and the changes in his life.
"It hurts a lot, but I won't stop. My not-giving-up is the best I can offer you and me right now. (...) The only thing I can do is write - this is the certainty I send you if you can pass this letter to beyond the walls. Listen carefully, I'll repeat it in your ear, lots of times: the only thing I can do is write, the only thing I can do is write."
After that, he hasn't written much about traveling, love, horoscope and so many things he used to love to talk about. He starts discussing his garden and how important gardening has become to him. Then, he talks about loneliness and things that could have been.
"But to you, I humbly reveal: what matters is the Mrs. Lady Life, covered in gold and silver and blood and moss of Time and chantilly cream sometimes and some Carnival confetti, discovering little by little your horrendous and dazzling face. We need to endure it. And kiss it on the mouth.
His last text is entitled "One more letter to beyond the wall". Regarding this text, I can only put here one excerpt of it:
"I also scream: Lord, not now, because I don't want it to happen now"
An outstanding book by one of my all time favorite authors. His death was a terrible loss to Brazilian - and worldwide - literature.
Perdoem-me os anglófonos, mas o Português é fundamental em assuntos que envolvem Caio F.
E, este é um daqueles momentos sem cor definida, talvez cinza, em que só há no fundo da língua o sabor das últimas palavras, do último parágrafo. É sempre assim quando degusto a página final de um Caio F.
Adentrei as "Pequenas Epifanias" em um almoço, aquele do "possibilidade de amor". E logo aí, tão cedo, fui arrebatado pelo sagaz Caio das palavras de tons exatos. Há algo de Clarice em Caio (e digo isso com total respeito à belíssima instituição Clarice Lispector), na concatenação de vocábulos com tal precisão que parece que não há outra razão para a qual tenham sido concebidos. E é assim sempre, em cada epifania. Na simplicidade extensa dos jardins do autor, nos (des)encontros copollianos, na dor que é física e não numa simultaneidade quase quântica, Schroedinger.
Recomendo, fortemente, como a todos os Caio F. Leia, ou ao menos inicie sua leitura, dentro de um momento íntimo. Entenda como sua alma vai se estender no plano delicado de Caio e vá, com toda a dor de suas próprias pequenas epifanias.
Que triste e que bonito perceber como a doença invadia os escritos com o passar dos meses. Que bonito ler sobre as plantas do Caio F., sobre as angústias que acompanham agosto, sobre as esperanças que setembro traz. E que triste ele não estar por aqui.
Ah, Caio, Caio...por que você fez isso comigo? Como explicar-te o quanto me fizestes refletir sobre minha vida e os acontecimentos últimos que a estão mudando de sobremaneira? Como dizer-te que te adoro mesmo sem ter te conhecido, mesmo tendo lido só dois livros teus? Mas és tão íntimo, tão indiscreto...chegastes na minha alma para ficar. E mesmo sem ter pedido tal intromissão no meu eu, peço-te que fiques. Sempre.
Pequenas Epifanias junta crônicas de um período delicado da vida de Caio, de 1986, passando pelo seu diagnóstico de infecção por HIV em 1994, até sua morte em fevereiro de 1996. São relatos simples permeados de coisas da rotina e da vida comum, reflexões sobre o jardim que ele cuidava, a desesperança com a política, amores que quase deram certo, amigos. Caio escreve de um jeito calmo e pessoal, pensativo, perguntativo. A interação com o texto dele é quase imperceptível, te leva das lágrimas aos sorrisos mais bobos sem ter pretensão, só por que ele tem a coragem de mostrar a própria vida como mostraria uma flor no jardim ao qual ele se dedicava com tanto carinho. E tem coragem também de mostrar as pragas e as intempéries que tiveram que ser superadas pro florescimento final. O autor não esconde nem o que chama de "ciclos secos", quando fraquejava, quando tudo parecia muito cinza. Esse livro tem ainda mais a dizer agora que todos os planos foram esmigalhados e estamos todos passando por um enorme ciclo seco com flores ocasionais. Que sigamos o exemplo do Caio e façamos isso com sinceridade, de mãos dadas com quem amamos, olhando pra frente.
falei que não ia dar nota, cá estou dando. dou quando quero e pronto. foi meu primeiro contato com caio fernando e eu adorei. as crônicas vão ficando melhores com o passar das páginas, mais pessoais. muita referência que eu não tenho e posso vir a ter um dia, ou não. foi belo ver tão de perto sua doença, eu nem sabia que ele tinha morrido de aids.. foi como se eu estivesse assistindo sua morte. e artista deixa tudo belo, até a morte. várias crônicas me tocaram, marquei pra relê-las. até o próximo livro caio.
Pequenas Epifanias, um conjunto de crónicas publicadas em jornal nos anos oitenta, e depois, entre 1994 e 1995, foi o primeiro livro de Caio F que eu li, em 2004, e que reli agora, quando já conheço boa parte da obra do autor. As crónicas de jornal são, por natureza, efémeras, muito ao sabor dos acontecimentos e dos estímulos do quotidiano. Mas nem por isso estes textos são menores. Antes pelo contrário, é toda a sensibilidade e abertura ao mundo de Caio que está aqui presente, é o modo pungente como ele agarra o essencial da vida e dos dias, aquilo que é mais intensa e intrinsecamente humano. Parte destas crónicas são marcadas pela doença (o autor morreria em fevereiro de 96 vítima de complicações causadas pelo vih), o que as torna ainda mais fortes e emocionais, apesar de não passar por elas ponta de lamechice ou auto-comiseração.
O último livro do Caio F., e é uma seleção de suas últimas crônicas. É um mergulho profundo, uma faca afiada, um penhasco logo ali a frente. Penetrar na sua melancolia é inevitável. Ele tem o coração inteiro pronto para se entregar através das palavras. Após a descoberta da aids, ele se entrega as palavras de conforto. É visível a embriaguez lúcida que a morte lhe traz. Caio foi uma pessoa muito forte apesar da sensibilidade. Frágil como uma taça de vidro. Ele me ensinou sobre emoções engavetadas, mas sobre esse olhar profundamente humano que ele observava o mundo.
"Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa."
"Era isso, aquela outra vida, inesperadamente misturada a minha, olhando a minha vida opaca com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania."
"A lua deu mais uma volta completa no zodíaco. Ultrapassou sagitário e caminhou até áries, completando seu triângulo de amor e paixão."
Há uma imensidão de mundo nessas crônicas. Nelas conseguimos acompanhar a vida do autor e a sua visão de mundo. As amizades, as viagens para o exterior, os relatos da vida como autor, a descoberta do HIV e vivendo com ela, uma paixão pela jardinagem está tudo ali. Em momentos textos engraçados ou mais introspectivos, às vezes homenagens e fábulas. Só tenho a dizer Caio teve muito para compartilhar conosco. Uma leitura agradável que recomendo fazer aos poucos.
Es un maravilloso libro de crónicas. Lo leería una y otra vez. Nunca me canso de leer a Caio Abreu. Es una pena que se consiga tan poco de él en español.
Que solidão ... , que amor pela vida ... , várias epifanias. Crônicas fortes desse autor que se foi muito cedo, ainda tinha muito a dizer e muito a sentir.
"No século XX ninguém se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, careta. Embora existam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não entendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio [...] Mentira, compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarquei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem eu cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem [...] e exigimos o eterno do perecível." (Pág 34)
"Você não grita nem acorda. Não há terror, mesmo sendo aterrorizante: é assim que é. E pior ainda, não se trata de um sonho. Começa a amanhecer. Ou a anoitecer. Ninguém sabe quando passa o trem. Nem para onde vai. E não se leva nada. Isso é tudo que sabemos."
edit: 14 de novembro.
Seis meses após ter terminado de ler este livro, me peguei pensando nele. Na minha primeira review, deixei aqui apenas as partes que me marcaram, porém não tem como não escrever sobre essa experiência.
Foi a minha primeira leitura do CFA, e que primeira impressão deixou. A cada escrita pro jornal, aprendemos um pouco mais sobre ele. A vida dele foi repleta de aventuras, viagens pra lá e pra cá, conhecia celebridades e ainda assim, era só mais um brasileiro em São Paulo. Ah, São Paulo. Ele mantinha uma relação de amor e ódio com SP. Reclamava do ar poluído, do barulho e do trânsito, mas sabia que no fundo, amava São Paulo.
A primeira citação que deixei aqui, acontece ainda no começo do livro, e me marcou bastante. Ele está certo, não está? E isso passou pra este século também. O Século XXI segue ainda mais rápido pro fim do romance. Hoje em dia ninguém quer saber de amar, quem ama é idiota. Hoje o negócio é crush. Crush isso, crush aquilo. Mas amor? Realmente se entregar pra alguém, de corpo e alma, ir além de dar uns pegas num beco escuro? Não... hoje em dia amar é pros inconsequentes, para aqueles que ainda acreditam que amar é o suficiente.
A outra citação ocorre bem no final. Se não me engano, é a penúltima crônica que ele escreve pro jornal. No começo do livro, as cartas dele eram cheias de vida. Contando sobre suas viagens, São Paulo, a política daquele tempo e como ele se encontrava no meio de tudo isso. Mais pro final, quando a doença começa a tomar conta dele pouco a pouco, a escrita vai ficando mais sombria. Ele está se deteriorando, sabe que o tempo dele é curto. Porém, ele também sabe que viveu, e, de certa forma, parece aceitar o fato de que o trem passará.
A última crônica nunca chegou a ser publicada no jornal. O trem passou, levando Caio com ele. E o Caio não levou nada. Dinheiro, bens materiais, ensinamentos... nada. Quando o trem passa, tudo que ele leva somos nós. A única coisa que prevalece, não conosco, mas no mundo de que partimos, são as nossas ações. Caio Fernando viveu, e como viveu! O trem passa para todos nós, só nos resta ir além da sobrevivência e viver de verdade, sem medo ou anseio, só... viver.