"O Mandarim", de Eça de Queirós. Um conto com a mestria de escrita a que estamos habituados por parte de Eça de Queirós.
Um homem recebe a visita do Diabo que lhe propõe um acordo: matar um mandarim chinês ao tocar numa campainha e receber toda a sua fortuna.
Este problema moral era conhecido no século XIX como o "paradoxo do mandarim". Formulado em 1802 por Chateaubriand, consistia numa pergunta: "se pudesse, com um simples desejo, matar um homem na China e herdar a sua fortuna na Europa, com a convicção sobrenatural que nunca ninguém descobriria, formularia esse desejo?"
No texto de Eça de Queirós, o Diabo apresenta-se de sobrecasaca e com os modismos do século XIX.
Teodoro, a personagem principal, aceita o desafio. A partir do momento em que recebe a fortuna, a sua vida vai mudar.
Do ponto de vista social, muda-se da pensão onde morava para um palacete, deixa de trabalhar como escriturário, passa a receber visitas no palacete que o consideram muito importante devido à sua inesperada fortuna.
As pessoas passam a tratá-lo de acordo com a sua posição social por causa do dinheiro, e é essa uma das vertentes de crítica moral presente no texto, ao revelar a hipocrisia que domina as relações pessoais e sociais. A segunda vertente diz respeito à dimensão psicológica do narrador/personagem principal. A partir do momento em que recebe a herança passa a ser muito mais infeliz, o crime que originou a riqueza deixa-o com peso na consciência, passa a ver o fantasma do mandarim falecido.
Planeia uma viagem à China com o propósito de expiar o seu pecado e acalmar o espírito do mandarim. Tem o plano de dar a fortuna à família do falecido, mas na China depara-se com uma sociedade diferente, com regras e preceitos diferentes, que o impedem de fazer o que planeara. Após várias peripécias e se aperceber que deixara de ver o fantasma do mandarim na China, considera que o espírito do falecido está calmo e que pode voltar à Europa. Triste erro: o espírito volta a aparecer-lhe assim que desembarca em Lisboa. E volta a viver triste e infeliz no palacete, decidindo voltar a viver na pensão e deixar de usar a fortuna... quem o rodeava anteriormente passa a tratá-lo como pelintra, denotando que só se relacionava com ele por causa da fortuna.
Passado algum tempo decide voltar ao palacete e usufruir dos milhões que tinha no banco, porque vivendo como pobre ou como rico, o fantasma não o abandonava (como representação da consciência humana).
No texto de Eça de Queirós, um dos aspectos mais interessantes é a visão exótica que descreve da China. Apresenta-nos um lugar construído a partir de relatos de terceiros, de leituras e, principalmente, pela construção da sua imaginação. A fantástica viagem à China, com todas as suas peripécias, constitui o cerne do texto e o que o mantém vivo e interessante.