Surpreendente. Muitos poemas com assuntos ou descrições que eu não imaginava encontrar em poesia desta época. Não sei comentar a técnica, mas muitos poemas muito belos.
Gostei menos da poesia amorosa.
“Deslumbramentos” parece uma fantasia adolescente e machista, esse desejo de querer se vingar da mulher que o esnobou vendo-a rebaixada.
“Setentrional” – Interessante o jeito de falar do namoro passado do casal, mas concluir que depois que a amada acabou sofredora num convento, ele “Se pudera na terra achar suplícios,/ Eu também me faria gordo frade / E cobriria a carne de cilícios.” Mas o que o impede de também se martirizar? Isso porque um frade gordo não deve sofrer tanto quanto a moça no convento, mas nem isso. O cara provavelmente é a causa da mulher ter este triste fim e se safa dizendo que não pode sofrer também, então vai fazer o quê? Toda punição para a mulher e nada para ele.
“Ironias do desgosto” – Esse eu até gostei por achar engraçado a inversão do topos do carpe diem. A moça critica o eu-lírico por sua sensibilidade e morbilidade excessiva que o impede de ir aproveitar a companhia da tal moça, a primavera, etc. A que ele lhe responde que o motivo dele estar para baixo é saber que a tal moça vai envelhecer. Ele ama a “mocidade e as modas fúteis”. Em vez de aproveitar a vida porque o tempo passa, ele não aproveita a vida porque o tempo passa e ele sabe e fica triste.
“Humilhações” – Enquanto Baudelaire com sua passante fala de uma atração no meio do anonimato da multidão, aqui temos uma aração a distância mas que não é anônima (talvez as pessoas “que contam” da sociedade em Lisboa não fossem tantas assim). Ele é mais um “stalker” que sabe onde a mulher vai, no teatro, e se posiciona para ficar olhando. Não tem chances porque ela não gosta de pobres e ele não é da mesma classe que ela. O surpreendente deste poema vem no final, quando a mulher entrou e ele vai embora. Um guarda sobre um cavalo tromba com ele, que fica com raiva da “guarda” que “espanca o povo”. Na estrofe seguinte e última ele é abordado por uma “velhinha suja” e “fanhosa, infecta, rota, má” pedindo um cigarro. Se ele é pobre para a mulher que admira, o que é essa velhinha miserável para ele? O interessante deste poema é o ruído que esta senhora e a pobreza trazem para seu significado.
Na segunda parte do livro encontram-se os melhores poemas.
“Contrariedade” – Adorei este poema. Primeiro ele não é um poema grandioso sobre a vida, é sobre um momento e um estado de espírito especifico e normalmente completamente escondido por trás da fatura do poema. Começa com “Eu hoje estou”, tem este “aqui e agora”. Depois, a métrica, as rimas, as elipses etc., ele é lindo e uma maravilha de ler. E o estado de espírito que fala é do escritor com raiva porque não é aceito pelos jornais para publicação, isto porque ele se recusa a escrever a maneira que é mais aceita e se recusa a adular. É um poema metalinguístico não sobre a poesia, mas sobre a crítica e o sistema literário. Mas perpassando o poema, também neste “aqui e agora” o eu-lírico vê uma vizinha com problemas de outra ordem. Ela trabalha muito, mas mal consegue o suficiente para se alimentar e esta morrendo de tísica, sem ter recursos para se tratar. Mas continua a trabalhar. O contraste entre o trabalho do poeta e da vizinha engomadeira, da raiva dele que ao final se esvai, enquanto a doença dela persiste e há de matá-la, entre a falta de sucesso dele e falta de comida dela, tudo colocar as dores do eu-lírico em perspectiva. Ele sabe que está certo: sua poesia é superior e os jornais são uns imbecis, mas ele ironiza seus problemas ao compará-los com os dessa vizinha.