Estas “crônicas safadas” reúnem tudo o que está de alguma forma relacionado a sexo. Se não está, Reinaldo Moraes dá um jeito de fazer a ligação: Serge Gainsbourg, feministas fazendo topless, carros de corrida, viagens espaciais, Marquês de Sade, tartarugas, retiro para artistas, futebol, psicanálise.
A lista é quase infinita. O humor de Reinaldo, e a capacidade de ligar assuntos aparentemente díspares, também. O resultado é um livro único, escrachado e cômico, de um dos autores mais originais da literatura brasileira.
Muuuito bom! Um sentido de humor "hilário" aliado a uma temática "sáfáda", deveras interessante. Registei uma série de referências a outras obras que irei espreitar (algumas já espreitei e não me arrependi). Cada crónica é um delicioso partir de coco! Para ler com àqueli sótáquizinho açucárado dos brazucas ;)
Os temas, esses, são bastante diversificados e inusitados como, aliás, é hábito na escrita do autor.
O uso do humor e de um vocabulário pouco preocupado faz com que este livro consiga cativar pela originalidade e ousadia.
A forma de como esta obra é concebida pode, à primeira vista, aparentar ser, por vezes, descabida. Todavia, se prestarmos a devida atenção ao seu conteúdo percebemos que existe mensagem.
A crónica implica opinião, por isso, acaba por ser um exercício individual.
Primeiramente, é preciso reconhecer: Reinaldo Moraes tem verve – com isso me refiro a certo estilo criativo e vivaz, capaz de dar verdadeiro sabor a uma crônica. É relativamente simples ir enfileirando frases atrás de frases sobre o cotidiano, como se convencionou esperar da crônica, mas são menos do que imaginamos aqueles que realmente se deliciam com a escrita do gênero e fazem isso transparecer, em um estilo cheio de uma eloquente desenvoltura, porque marcadamente pessoal.
Afora o Machado, que claramente ria horrores enquanto escrevia suas crônicas, é possível elencar não muitos outros que se encaixam de maneira exemplar nessa categoria – penso no esquecido Guilherme de Almeida, no nem sequer lembrado Mário Guastini e no ainda não devidamente reconhecido Nelson Rodrigues. Todos esses têm em comum o fato de fazerem certa crônica de “ideias”, em que defendem pontos de vista, mas permanecem extremamente ciosos da estética da crônica.
Talvez Nelson Rodrigues, até pela proximidade temporal, seja o nome mais próximo ao estilo de Reinaldo Moraes. Como ele, afinal, Reinaldo é chegado a um exagero, sabe que vale insistir em certas imagens absurdas, o que no mínimo garante uma boa piada. Além do uso consciente dos efeitos humorísticos, ambos compartilham a ideia de crônica com uma função catártica e psicanalítica – ocorre que, no caso de Reinaldo, há um apego obsessivo à visão freudiana que sexualiza toda a vida.
É preciso considerar que Reinaldo escrevia para a Status, uma revista “masculina”, se por “masculina” se entender a revista que oferece ensaios de mulheres nuas ou quase. Foi com base nas crônicas escritas para essa revista que ele publicaria, em 2014, O cheirinho do amor: crônicas safadas (Alfaguara). Os textos, basicamente, se concentram no tema do sexo, o que parece de acordo com o público da revista, embora possa nos levar a questionar se é a isso que se reduz a cabeça do homem.
Reinaldo tinha a seu dispor um público que comprava “revista de mulher pelada”, a quem buscava atrair de alguma maneira. Como não podia apelar para os recursos visuais das páginas centrais da revista, procurava escrever sobre coisas comuns ao universo dessas pessoas – em suma, sacanagem da grossa. Então não é como se ele promovesse algum tipo de reflexão metafísica sobre o ato sexual: ele falava de sacanagem pura e simples, ainda que com talento e certas veleidades literárias.
Ocorre que dificilmente alguém que busca se alinhar ao pensamento do homem consumidor de revistas masculinas deixa de reproduzir a mesma visão em que as mulheres são objetificadas e coisificadas, transformadas em meros instrumentos de prazer a machos incapazes de controlar seus instintos animalescos. Isso pode render alguns momentos tidos como de “diversão” em meio a outros homens, mas também favorece a manutenção de estruturas de poder prejudiciais às mulheres.
Decerto essas crônicas não provocavam grande escândalo no ambiente em que eram originalmente publicadas. Quando foram transformadas em livro, porém, foi possível que outros públicos tivessem acesso a elas – inclusive mulheres. Fui dar uma olhada no que as mulheres andam dizendo sobre esse livro. Verdade que não encontrei muitas leitoras mulheres, mas essas poucas dizem coisas como “um livro extremamente machista”, “leitura machista e escrita rude, não dá para engolir”.
E, honestamente, não dá para negar. As crônicas são daquele machismo que não se considera machismo só porque não manda a mulher lavar a louça. Não imagino que uma mulher consiga concluir a leitura desse livro sem se sentir frontalmente ofendida – nem precisa ser feminista de carteirinha. Aliás, homossexuais, travestis, héteros menos escrotos, pessoas gordas e mesmo paraplégicas – todo mundo tem razão de se sentir ofendido por alguma coisa que Reinaldo disse em suas crônicas.
Como a própria filha de Reinaldo percebeu, ele escreve o que passa pela cabeça, o que significa que não tem muito filtro em suas crônicas, seja de linguagem, seja de conteúdo. A própria revista Status chegou a censurá-lo uma vez, por ter narrado a fantasia de um sujeito pelas fezes de sua parceira. Tudo o mais, porém, a revista deixou passar sem adendos, o que inclui algumas tiradas de mau gosto, algumas outras levemente problemáticas e outras, ainda, francamente ultrajantes.
Merece destaque a crônica em que trata com bom-humor uma situação em tudo criminosa, isto é, a história de um marido que, desconfiado de que poderia estar sendo traído, instalou uma microcâmera na vagina de sua esposa, procedimento que só foi levado a efeito depois de dopá-la. Reinaldo, é claro, não chega a endossar essa atitude, mas enxerga nela muito mais graça do que qualquer mulher. E ele saía caçando histórias insólitas sobre sexo, saídas de alguma seção “planeta bizarro”.
O mundo tem mudado muito rapidamente. Os dez anos que separam tais crônicas da atualidade talvez já fossem suficientes para que Reinaldo não tivesse mais a paz que provavelmente tinha na época. Não se trata, evidentemente, de impedir que as pessoas escrevam, inclusive de forma escrachada, sobre sexo. Mas é de se pensar em que tipo de comportamentos são perpetuados pela perspectiva adotada em nossos textos – há coisas ali que, como disse a leitora mulher, não dá para engolir.
O diabo é que, sim, o homem é muito talentoso e criativo, a tal ponto que, durante a leitura, fiquei pensando em como seria bom se fosse um “cronista generalista”, e não um especializado em sexo. Digamos, um que fosse parecido com Mário Prata, que é inclusive amigo de Reinaldo, e falasse de tudo que lhe apetecesse na vida, não apenas das infâmias que lhe ocorrem sobre aquilo que as pessoas fazem entre quatro paredes. Creio que, assim, até eventuais “deslizes” fossem atenuados.
Mesmo com as qualidades inegáveis de seu estilo, também deve-se admitir que o caráter monotemático das crônicas de Reinaldo chega a cansar a cera altura, o que é o mal das crônicas lidas em sequência. E, quando já não se está muito disposto a enxergá-lo favoravelmente no aspecto político e sociológico da coisa, aí é que o livro desagrada mesmo. O livro, em suma, deve ser lido unicamente pelo tipo de homem que leria a revista Status, não por outro tipo de homem, e menos ainda por mulher.
Não se deve se deixar enganar pelo título do livro também. Não há amor ali. Este é um daqueles livros que parecem tornar o amor uma coisa repulsiva, pois, se é amor isso que aparece ali, então não há nada mais detestável.
Quem o ler procurando o amor, vai ficar apenas no cheirinho.
Reinaldo Moraes é um cara engraçado! Seu humor as vezes é refinado e em outras lembra um moleque de uns 15 anos, daqueles que sentam lá no fundo da sala de aula... Já tinha lido algumas crônicas do livro na revista Status que leio sempre. Fui comparar e realmente ele mudou o texto, reescreveu as crônicas para o livro tirando algumas frases e colocando mais conteúdo. Ficou melhor. Ótima leitura pro verão, livrinho bom pra ler numa cadeira de praia bebendo uma cerveja, rende boas e sinceras gargalhadas.
Foi uma experiência! Casquei de rir com os comentários irônicos sobre a psicanálise. Não conhecia o Reinaldo Moraes, esse foi o meu primeiro contato com o escritor. Não gostei de algumas crônicas, mas isso não estragou o humor das outras. Achei a escrita um pouco parecida com a do Bukowski. :D
Sou fãnzasso do Reinaldo, mas os romances sao bem melhores que as cronicas. Aqui, a zuera que ele coloca no texto fica mais rasa, na base do trocadilho, menos interessante que em Tanto Faz e Pornopopeia.