Depois do sucesso de O peso do pássaro morto e Pequena coreografia do adeus, Aline Bei volta a explorar temas como maternidade e infância em Uma delicada coleção de ausências, um romance emocionante sobre três mulheres — neta, avó e bisavó — que precisam conviver em suas individualidades enquanto dividem traumas e mágoas que perpassam gerações.
Numa humilde casa de portão laranja em Belva, vivem avó e neta. Enquanto Laura vai à escola, brinca com as amigas e pouco a pouco se despede da infância, Margarida lê mãos numa feira de antiguidades para prover o sustento da família. A avó se devota por completo ao cuidado da menina, elo mais forte com sua filha, com quem não tem contato. Da mesma forma, Laura entrega a Margarida o amor desmedido de uma criança. O universo particular das duas, porém, se quebra com a chegada de Filipa, bisavó de Laura e mãe de Margarida. A idosa, que perdera o lugar onde morava, logo se apodera dos pequenos cômodos com suas caixas e amarguras. A mudança na rotina provoca transformações imediatas. Laura se vê sozinha, sem a atenção de quem mais ama, além de ter que se habituar à estranha presença da bisavó. Margarida, por sua vez, passa a se dedicar integralmente aos cuidados da mãe. Sobrecarregada com o aumento das tarefas domésticas, ela encontra em Camilo, um amigo da feira, a ajuda de que precisava para seguir atendendo seus clientes. Neste romance, Aline Bei observa as mulheres em os corpos jovens e envelhecidos, os desejos primitivos, as frustrações geracionais, o trabalho de cuidado, as incontáveis violências às quais são submetidas. Ao mesmo tempo, como não poderia deixar de ser, a autora investiga a determinação inabalável feminina, os afetos que salvam e a força para romper com sofrimentos que parecem não ter fim.
"Abrir estas páginas é deixar-se levar por muitos caminhos, das arquibancadas de um circo a quartos fechados cheios de segredos, e perceber, com os cinco sentidos, a vida que aí se desenrola, não só enquanto palavra escrita, mas com seus odores, sabores, texturas, sons de pranto ou de canto, luzes e sombras." — Maria Valéria Rezende
"Aline Bei confirma o domínio da arte de contar uma história ao mesmo tempo que inventa uma linguagem poética que devolve à escrita o encanto das vozes que a todos nos pertencem." — Mia Couto
Aline Bei nasceu em São Paulo, em 1987. É formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e em Artes Cênicas pelo Teatro Escola Célia-Helena. É editora e colunista do site cultural OitavaArte. O peso do pássaro morto é o seu primeiro livro.
“entre elas, os segredos eram sempre respeitados, pois há coisas que ao serem ditas perdem ainda mais volume do que quando existiam apenas no silêncio.”
"irá sentir um poema ao tempo vivido que é a nostalgia. mas é preciso que aconteça daqui a muitos anos. é preciso primeiro Esquecer, para então verdadeiramente lembrar."
"Laura olha para Jordana em busca de algo que pudesse remeter a Lívia, mas percebe que, depois da própria Lívia, é ela quem mais tem a amiga por dentro. Lívia também tem Laura por dentro, se quiser encontrar, e isso é o que mais doía em Laura, pois sente falta do pedaço de si mesma perdido dentro da amiga."
"saudade de ser mais cedo na própria vida, saudade de quando o tempo ainda não tinha chegado até aqui."
você é absurda, aline bei!!!!!! me encontro sem palavras
Achei um livro incrível, que com muita sutileza vai mostrando as micro agressões e solidões corriqueiras da vida de uma mulher e que com o desenvolvimento do livro vão se tornando cada vez mais visíveis e dolorosas.
A estrutura do texto é similar aos dois primeiros livros da autora, mas com uns toques de peça/roteiro que demonstram seu amor - já declarado - pelo teatro. Quanto ao conteúdo, há uma ou duas boas ideias sobre a passagem da infância para a adolescência, mas só. Se a Coreografia tinha uma escrita envolvente, a Coleção é arrastada, quase penosa. Realmente, não há nenhuma Glória. Nas últimas páginas há uma descrição explícita de violência completamente desnecessária. Não sou contra a expressão de violência e poderia citar alguns livros em que ela serve a um propósito na obra, mas aqui ela não parece servir para nada além do choque. E não é a descrição de violência em si (ou apenas) que me incomoda (afinal, acontece o tempo todo na vida real, infelizmente), mas a escolha de como empregá-la na narrativa. Parece que existe apenas para que se diga “o livro estava tão morno até que, uau, uma reviravolta chocante”. A violação do corpo feminino como elemento surpresa.
Se você para pra enumerar o incontável ou contar a dor que não se verbaliza, não são as grandes catástrofes que estarrecem, mas as pequenas violências cometidas minuto a minuto de todos os dias de uma mulher. As que ganham força no silêncio do cotidiano. As que encontram espaço largo nas frestas das mentiras. As que se regeneram na dissimulação. As que ganham rosto no abandono. As que são ecoadas na voz do moralismo. As que travestem-se de amizade quando, por dentro, nada são senão predadores. Se elas aparecem escritas nas sílabas claras de uma linguagem lírica, que te convida a preencher as lacunas do indizível, talvez tenham chance de nos abrir os olhos ao nos enredar nas histórias de outras nossas. As violências que não podem ser contadas, medidas e narradas são cometidas enquanto se desenrola o gestual ordinário do dia-a-dia, passam despercebidas entre tarefas escolares, obrigações domésticas e a rotina da cidade. Elas engolem, abocanham, devoram. Essas violências falam baixo, em letras minúsculas e vírgulas realocadas, mas o barulho que deixam nos ouvidos que ouvem e nos olhos que lêem são ensurdecedores. São emudecidas de verbos, mas eloquente nas ações. Por isso, é preciso, ainda, ‘estar atenta e forte’.
“Por que será que dizer um adeus nunca ensina a dizer o próximo? é horrível ver alguém diminuir e aumentar de tamanho dentro de você. além do mais, quando uma pessoa se afasta ela parece se tornar mais verdadeira no momento exato em que parte. e você nunca terá aquela pessoa que mora na pessoa que você costuma.”
Estou destroçada com este final. Este livro deixou-me completamente devastada. Esta autora tem uma capacidade rara de nos envolver na história, de nos ir revelando pequenos pedaços que se entranham em nós e despertam as emoções mais duras. Se vamos sofrendo ao longo do livro, a verdade é que nada nos prepara para o final, o momento em que se revela a crua e horrível verdade, escondida à vista de todos, aquela para a qual simplesmente não estamos preparados. 💔 Chego ao fim a pensar: quantas ausências cabem numa só vida? Quantas ausências consegue uma pessoa suportar? 🥺
mais uma vez, termino um livro da aline bei totalmente destruída, não só por tanta coisa dolorosa que acontece, mas também pelo jeito tão lindo e tão único que ela escreve até mesmo sobre as coisas mais banais. achei tudo tão cru, os personagens tão reais, uma história tão intimista, verdadeira, visual. acontecimentos e diálogos tão simples que me senti invadindo o espaço daquela família, naquela casa, naquela cidade. e por mim já tava bom só por isso, só pela escrita brilhante dela retratando uma vida normal de pessoas normais. mas é CLARO que o final seria completamente devastador. e é difícil digerir justamente por coisas tão tristes estarem totalmente dentro do que é “normal” na história de todas nós, mulheres. aline bei você tem o dom!!!!
"Filipa vasculha o rosto envelhecido da filha erguendo entre elas uma terceira presença, invisível mas ensurdecedora, feita de tudo o que a vida poderia ter sido e não foi"
"ai, que saudade de ser mais cedo na própria vida, saudade de quando o tempo ainda não tinha chegado até aqui."
Continuo a gostar muito dos livros de Aline, mas este não está ao mesmo nível dos dois anteriores embora a escrita continue muito bonita.
Eu amo a escrita de Aline Mas esse me deixou com uma sensação estranha, de não reconhecimento. Não que ela tenha que seguir uma linha única de escrita, mas não consegui reconhecer ela no que li.
Uma leitura dura, com rodeios, muitas pontas, a dor de ser mulher explicitamente descrita mas não vista
nossa, tava gostando muito da história, o estilo de escrita e a perspectiva da Laura. e aí odiei muito o final e estragou a experiência. também me incomodei muito em como a cena de abuso sexual foi escrita. juro, uma pena!!!!
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acho que a aline bei quis dar de novo o elemento de choque no livro e atrapalhou demais, na minha opinião as personagens mereciam uma narrativa melhor. odiei o final, odiei como tudo foi se desenrolando e de novo o elemento de choque nem sempre precisa ser incluído em um livro, nessa história foi totalmente desnecessário pq a história de vida dessas mulheres já é uma tragedia em si não precisava do Que a mais escandaloso pra dar um drama enfim pessimo além do mais é um livro que fala fala e não fala nada, muito daria pra se falar sobre a ausência geracional nessa família e não se fala, são 200 páginas de ausência de conto, ausência de vivência das personagens.
«Estava curiosa com o seu novo romance porque sabia de antemão que iria tentar explorar uma escrita mais dentro da prosa, embora tenha mantido a sua escrita tão característica — entre a prosa e a poesia, a ocupar a página de uma forma muito original. Gostei muito que, pela primeira vez, a autora explorasse uma história com mais do que uma perspetiva, já que nos leva para o seio de uma pequena família.»
A cadência desse aqui me pegou muito de surpresa. Aline Bei, mais uma vez, entrelaça o cotidiano e o íntimo. Fala de perdas sem suavizar. Conquista ao incomodar. O tempo mais uma vez é um elemento central, porém com um elemento forte geracional, onde a ausência é uma constante.
Amo a Aline Bei de paixão, abri o livro pronta para devorar… e Não houve fio condutor do início ao fim, achei o livro arrastado, sem ritmo, sem dinâmica, detestei o final, me parece que romantizou um abuso, enfim, amo a autora mas não gostei de nada… pena.
Com toda certeza a Aline sabe o que é ser mulher. São tantas frases de identificação, fico impressionada com as experiências compartilhadas de todas nós. Dói o peito de angústia, você não quer chegar ao fim. É difícil de ler, definitivamente, mas ainda sim lindo, como tudo que a Aline faz.