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“Está em face de si próprio, sem testemunha, sem ajudante, sem vítima. Está só naquela cama que adquiriu as formas do seu corpo emagrecido, ao lado daquela pilha de medicamentos, em frente daquela parede suja pela humidade que não cessa de avançar; tem medo que as quatro paredes se ponham a aproximar-se da cama dele até formarem uma casota, para não dizer uma tumba."
Em Tânger, um velho alfaiate está de cama, em absoluta negação quanto à gravidade da sua doença, recusando-se a assumir o peso da idade, profundamente entediado por não ter com quem falar. Por um lado, muitos dos seus amigos e conhecidos já morreram, por outro, incompatibilizou-se com aqueles que lhe restam, porque, como nos apercebemos aos poucos, é uma pessoa intratável, de língua afiada, retrógrada, rancorosa, que nos dias maus trata a mulher por A Aranha ou O Trovão e, nos dias piores, por A Badalhoca e A Demente.
Tahar Ben Jelloun transmite a solidão e o silêncio a que este homem está votado de forma muito evocativa, com passagens de grande beleza e clarividência, mas o contraste com os pensamentos malévolos e indecorosos do protagonista impede-me de me render a esta obra.
“Mortos ou desaparecidos, partiram todos, deixando aqui ou ali algumas recordações, imagens, o eco ainda suspenso das vozes. Apura o ouvido e regozija-se de os ouvir tagarelar em volta de uma mesa redonda, bebendo chá, e rindo a propósito de tudo e de nada. Não devem ir muito longe. Isso inquieta-o: é ele que se aproxima deles. (...) As vozes continuam a chegar-lhe, cada vez mais confusas e indistintas. A morte é talvez isso: vozes familiares que atravessam a terra e nos chegam irreconhecíveis."