Que maravilha!!
Mais um autor português, no seu ponto de partida... primoroso!
Ultimamente, ou ando com uma brilhante mira para o que é excelente, ou este Portugal, à beira mar plantado, está com uma colheita de autores de se tirar o chapéu.
Acabei agora e ainda estou lá(acho que ainda vou levar um tempo para tirar esta sensação, de continuar lá),...e nem sei bem que diga deste livro e desta obra com um cunho tão português.. e tão pitoresco.
Vou tentar assentar os pés no chão para fazer esta travessia, e entregar um pouco de tudo o quanto de bom este livro me ofereceu...
Em pano de fundo encontrei, o que gosto, um manancial da nossa história(claro está!!), um cenário em que o foco tem como objectivo principal, retratar a construção da primeira ponte a ligar as margens do Tejo em Lisboa, que ocorreu nos anos 60,(Ponte Salazar, nome alterado para Ponte 25 de Abril)...e então, entrega uma estória envolvente passada, principalmente, num bairro operário lisboeta(Alcântara), num perfeito enlace com a realidade da história de Portugal, numa altura em que vigorava o regime autoritário do Estado Novo/ditadura liderada por Salazar,... época marcada por forte censura, prisão política, com um povo com analfabetismo acentuado e com escassa informação... e ainda com todo o impacto doloroso que as guerras coloniais, desse período, exerciam sobre o povo... tudo isto e mais um pouco recheado de detalhes.
Existe um entrelaçar no enredo, quase discretamente mas bem enredado, as realidades e os acontecimentos de autrora, deixando um rasto rico em conhecimento. Acredito que o autor tenha guardado a semente desta obra entre um vasto portefólio, d'uma antecipada pesquisa e estudo minucioso...quero eu dizer que esta maravilha, não foi, com toda a certeza, escrita "em cima do joelho", teve ali muito trabalhinho na retaguarda, muito estudo documentado, com dados recolhidos, talvez de largos anos, não sei...mas à semelhança da ponte, os pilares são de aço, ou de cimento armado, e os rebites foram colocados nos pontos estratégicos do projecto para edificar esta construção repleta de fortaleza e beleza,..e nem precisou de ajuda d'uma empresa americana😄
...está lá tudo com o seu preceito e a sua norma, para que a travessia se fizesse e resultasse nesta magistral obra.
E de leve ou aparentemente leve, aqui e acolá, foi também metendo o dedo em diversas feridas,...até naquelas verdades que parecem mentira...o justo e o injusto de tanta vida vivida...
Quanto à escrita é peculiarmente cuidada, cativante, com um sentido de humor inteligente e avassalador, em modo de crítica política e desajuste social..
Diria também que tem a audácia competente de se atirar à dor com humor...
..o enredo traz-nos a nossa gente, aquelas personagens vestidas de simplicidade, mas repletos de garra, coragem e bravura perante a vida..com tudo aquilo que fortalece e agarra a viagem por dentro de cada personagem...
"O povo cansa-se de esperar, mas não se cansa de sonhar."
Há na verdade mestria na forma narrativa em que o faz... Adorei as nuances consistentes entre a luz e a escuridão...dicotomia arrebatadora.
Fez-me rir, por vezes fez-me sentir a revolta, até algum asco...e aqui e ali conseguiu dar-me um nó na garganta...e isto para mim só quer dizer uma verdade literária: está muito bem escrito!!... para mim atingiu o auge de um excelente livro.
A trama tem um excelente ritmo, e do inicio ao fim, está lá uma descoberta, e uma novidade constante que incentiva muito a leitura e impulsiona àquele vê-se-te-avias, que quero já saber tudo.
Um pequeno pormenor que me apetece deixar expresso...talvez porque li há pouco o 📖 Memorial do Convento, de repente algo me fez ver na Dália, a Blimunda de Saramago... há ali algum elo familiar entre as duas, nada de mais,.. não são de todo gêmeas, mas senti alguma semelhança no sentimento que me deixaram quando as "conheci".. mas ainda assim, confesso que foi da Dália que mais gostei, e com quem criei uma maior empatia.. perdoe-me grande Saramago, mas aqui o Nuno Duarte superou-o com a sua Dália..."hon"?!
Por norma, nas minhas descrições ou opiniões de um livro, nunca desvendo o enredo da estória e muito menos nomes dos personagens, mas abro esta exceção para a Dália... "Hon"?!... Adorei-a, simplesmente!!
E para finalizar...Nunca mais vou olhar para a ponte da mesma forma, ou melhor dizendo, a partir de agora vou olhar para a ponte que tomou esta forma, feita de emoção, história e tanta gente...
E já agora, uma missiva ao autor...
Continue!
Só continue!... Não largue a caneta ou não pare de bater nas teclas😉