Prosa seca e truncada, que tenta compensar a aridez implodindo em referências autoindulgentes à música e à literatura. Tenório organiza esses elementos de modo inorgânico e artificial; o resultado é um pastiche erudito que se pretende sofisticado, mas carece de consistência narrativa.
Em sua maioria, os personagens são arquétipos esvaziados, criados apenas para atender a algum tropismo transformado em “lacre” superficial do autor. Aquele monólogo da professora Berenice, por exemplo, é uma afronta ao feminismo interseccional — mulheres brancas não são, a princípio, inimigas! Pelo menos, não para nós…. O feminismo negro não se funda na antagonização das mulheres brancas — isso a gente deixa para o patriarcado e suas artimanhas. O gesto de Tenório, ao escolher retratar recortes identitários sem o devido aprofundamento, resulta em leituras violentas e perigosas, servindo justamente a uma agenda que contraria — ou esvazia — a própria argumentação central do texto.
Mas o maior problema está na figura do protagonista: um jovem frouxo, constantemente apoiado por mulheres negras, a quem, no entanto, não hesita em responsabilizar por suas frustrações. É difícil sentir empatia por alguém que usa o dinheiro da aposentadoria da avó doente para levar a namorada à praia; que permite que uma idosa trabalhe até o limite para sustentar sua ilusão de alcançar o que apenas especula como ideal — uma revolta mal elaborada diante da constatação de que não tem sequer o mínimo garantido, vivida com infantilidade e ânsia em emular a vivência de seus colegas brancos do curso. O pior é que nem essa raiva pulsa de verdade: Joaquim escolhe a inércia a todo momento. Ele sabe que não pode ser como seus colegas — mas, ainda assim, insiste em seu desconforto de forma paulatina e imatura (porque Joaquim não se organizou politicamente enquanto estava discutindo Nietzsche no CA, sabe?), sem que o texto tensione essa dinâmica.
É espantoso que Tenório acredite estar contribuindo para o debate ao retratar esse jovem de 24 anos — precarizado, sim, mas completamente deslocado, incapaz de se situar na própria condição, e ainda por cima agarrado a idealizações ingênuas. Tipo: como Joaquim chegou a essa idade sendo tão muleque? Acho que o patriarcado tem uma ou duas respostas… Engraçado que seu “despertar” só ocorre com a morte da avó — quando o último pilar do simulacro, a aposentadoria, vai pelo ralo. O gesto final, longe de catártico, apenas confirma o extrativismo afetivo que o romance se recusa a criticar.