Nova edição de um dos romances mais conhecidos da autora de Vista Chinesa e Melhor não Contar.
A dolorosa perda da mãe, um amante violento, as origens longínquas que seduzem como sereias. Estes são os temas deste romance de Tatiana Salem Levy, história de uma mulher do Rio de Janeiro, nascida em Lisboa e descendente de judeus sefarditas, cujo avô, antes de morrer, lhe dá a chave da sua antiga casa em Esmirna, na Turquia. Incitada a partir, a protagonista embarca numa peregrinação, numa jornada íntima de redescoberta das suas raízes e de reinvenção de si própria, porque esta mulher não é apenas uma mas muitas, é memória, dor e silêncio.
Obra polifónica de cariz autobiográfico, que se insere na linhagem literária de Marguerite Duras, Virginia Woolf ou Clarice Lispector, A Chave de Casa, romance de estreia galardoado com o Prémio São Paulo de Literatura, consagrou Tatiana Salem Levy como uma das vozes mais singulares da literatura brasileira contemporânea.
Há muito esgotado em Portugal, conhece agora uma nova edição revista pela autora.
Os elogios da crí
«Com uma prosa intimista, combinando delicadeza e vigor, eis uma voz extraordinária da nova literatura brasileira.» O Globo
«Com Tatiana Salem Levy, tudo vem diretamente do coraçã a dor, o amor, o desejo, a morte. Um romance de cortar a respiração.»
Tatiana Salem Levy is a Brazilian writer and translator. Her parents were Turkish Jews established in Portugal during Brazilian military government. She studied literature at the Federal University of Rio de Janeiro and the Pontifical Catholic University of Rio de Janeiro and she has lived in the United States and France.
«nasci no exílio: em Portugal, de onde séculos antes a minha família havia sido expulsa por ser judia. Em Portugal, que acolheu meus pais, expulsos do Brasil por serem comunistas. demos a volta, fechamos o ciclo: de Portugal para a Turquia, da Turquia para o Brasil, do Brasil novamente para Portugal. não teria sido menos penoso, menos amargo, se não tivéssemos sido obrigados a fazer esse longo percurso? por que tivemos de sair do lugar para voltar ao mesmo lugar? (…) nasci no exílio, e por isso sou assim: sem pátria, sem nome. por isso sou sólida, áspera, bruta. nasci longe de mim, fora da minha terra — mas, afinal, quem sou eu? que terra é a minha?»
«uma viagem é uma viagem porque não sabemos o que vamos encontrar no caminho ou o que faremos com aquilo que descobrimos — nem o que aquilo que descobrirmos irá fazer connosco.» esta frase de James Baldwin descreve na perfeição o propósito deste livro, no qual a autora viaja do Brasil para a Turquia e da Turquia para Portugal em busca da «chave da sua existência e origem». aprecio sempre quando os autores são vulneráveis e nos revelam um bocadinho de si na sua escrita e acho que é por isso — e pela belíssima escrita, é claro— que gosto tanto da Tatiana Salem Levy.
«a dor está em tudo, espalhada por todos os cantos do planeta, por todos os cantos de nós. não existe nem mesmo um poro da pele que não carregue dor. os sentimentos mudam, mas a dor persiste. em tudo o que experimentei, lá estava ela, de um jeito ou de outro. no amor, na alegria, na tristeza, no sofrimento, no luto, nos sonhos: nunca conheci nada disso sem dor. não concordo quando você diz que sou eu que levo as coisas para o lado da dor. não sou eu, é a vida, mãe, ela que é assim.»
Senti a história algo confusa Passado, presente, “como se”, história de 3 gerações. Pedaços que não consegui integrar. Sobre a violência de um amor. Seria amor? E a possibilidade de sarar feridas.
Não percebi o que fazia parte da história e o que era um “como se”.
“Escrevo com as mãos atadas. Na concretude imóvel do meu quarto de onde não saio há muito tempo. Escrevo sem poder escrever e, por isso, escrevo.”
O começo deixa-nos logo sem ar. Frases curtas, rápidas, e que transmitem esta mistura de paralisia e urgência que acompanha todo o livro.
Tatiana Salem Levy escreve sobre a memória de forma fragmentada, cheio de silêncios e de coisas que não se dizem, exatamente como nos lembramos da nossa própria vida. Nada é linear, até porque a memória também é feita de peças soltas.
O medo está presente em cada página. O medo de não pertencer, de não conseguir falar, de não encontrar um lugar chamado casa. Um medo que se transforma em narrativa. Em vez de fugir dele, escreve-se a partir dele. E a escrita torna-se a forma de lidar com a memória e com tudo o que assusta.
Uma história com veios autobiográficos. Ao longo da narrativa da autora, conseguimos enquadrar e conhecer o mundo da imigração, da fuga e da dor, do contexto de um Brasil na ditadura. Grande riqueza.
Para mim, o ponto menos positivo ou mais desconexo tem a ver com a história das relações amorosas abusivas. Há a dor ancestral e a fogacidade presente. O sofrimento e o prazer extremo. Mas, para mim, não fluiu e tornou-se algo à parte na leitura, que merecia um livro próprio e autónomo.