Gosto muito do que escreve o Sérgio Rodrigues desde que li O Drible ainda adolescente e tive a impressão de encontrar algo que estava desesperadamente procurando mas que não tinha ideia de estar desesperadamente procurando.
O Escrever é Humano é um ensaio/manual/introdução/comentário sobre essa coisa esquisitíssima que é escrever. Expõe uma série de dilemas que transparecem umas vezes um pouco de vertigem e numas outras vezes algo de consolo.
Em pé de guerra (sic) com o clichê, fala (entre tantas outras coisas) da chuva que cai, da marquesa que saiu às cinco horas, da gramática como lei e da morte como fim. Fala de voz, de reescrita, da hipersignificaçāo dos detalhes, de inspiração e de trabalho. Reflete a força centrípeta da poesia e a força centrífuga da prosa. Oferece muitas questões e discute algumas boas respostas (e outras menos boas) que circulam por aí.
Tem uma excelente coleção de frases. Umas do próprio autor e outras emprestadas. Cito (bastante livremente). Escrever é uma forma socialmente aceita de esquizofrenia. Requer a paciência de um sábio combinada com a persistência de um idiota. O escritor é uma pessoa que, mais do que qualquer outra, tem dificuldade para escrever. Passa uma manhã para retirar uma vírgula e uma tarde para colocá-la de volta. Existe uma forma de lidar com a realidade como lidamos com a ficção: chama-se paranoia. Existem três regras para escrever ficção. Infelizmente, ninguém sabe quais são elas.
Tangencia a revolução dos LLM. Tenta ser esperançoso mas não sei se consegue. O futuro é um bicho difícil de encarar. Sou à la fois mais e menos otimista. Gosto de uma máxima (bem simples) que o Sérgio esboça: Muito dificilmente valerá a pena ler o que ninguém se deu ao trabalho de escrever. Enfim. Sei lá.
Nota do autor dessa resenha. Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Um dia acabarei escrevendo alguma coisa. Não sei se prestará. Não terá sido por falta de aviso. Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos.