Um romance irreverente e luminoso sobre o tempo, a vida adulta e as novas (e velhas) definições de trabalho e solidão. Aos trinta e poucos anos, Felipe está como muitos de sua geração: uma carreira que vai e não vai, relacionamentos interrompidos, um esforço tremendo só para chegar na metade. Nem o chamado para acompanhar as filmagens do próprio roteiro o anima particularmente. Sua função ali é incerta. A rigor, Felipe é apenas um convidado, quase que por gentileza. À deriva na rotina frouxa do hotel, Felipe conhecerá personagens que narram progressivamente os laces e desenlaces dessa filmagem em uma trama conduzida pelo olhar único ao detalhe e por um elenco construído com graça, densidade e pretexto, ao meditar sobre o tempo, a vida adulta e as novas (e velhas) definições de trabalho e solidão.
Matheus Borges nasceu em Porto Alegre. É formado no curso de realização audiovisual da Unisinos e egresso da oficina literária de Luiz Antonio de Assis Brasil. No cinema, atuou como roteirista em A Colmeia, longa-metragem vencedor de cinco prêmios na edição 2021 do Festival de Cinema de Gramado. Em 2022, publicou seu primeiro livro, o romance Mil Placebos, vencedor do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica.
É um livro muito cinematográfico, não apenas por que o cinema tem um papel fundamental dentro da narrativa, mas a construção das cenas, personagens, cenários, é tudo muito imagético. Matheus se importa com seu protagonista, um roteirista, tem carinho por ele, mas isso não impede que o personagem cometa erros, afinal ele é humano - demasiadamente humano.
O mesmo para os coadjuvantes. É interessante como as histórias deles tocam e influenciam o protagonista em sua jornada como um contador de histórias, que é isso quem ele é. Nada impede que em futuros filmes que ele escreva, estejam lá episódios que ele ouviu nessa viagem. Um livro melancólico, com respiros de um humor deadpan, e um olhar curioso pela condição humana e como e possível a transformar em narrativa, e como essa pode cumprir um tom simbólico em vidas reais.
Frankito em Chamas, o segundo romance de Matheus Borges, se revelou, em parte, uma continuidade esperada e, por outra parte, uma grande surpresa. Explico. Eu li o primeiro romance de Matheus, Mil Placebos, e o resenhei aqui mesmo para a Parêntese, neste link. Sendo assim, minha impressão da prosa do autor foi moldada por aquela única leitura, e foi interessante perceber que Matheus é um escritor de recursos múltiplos capaz de fazer sua prosa ajustar-se aos propósitos de cada projeto.
Explico ainda mais: Mil Placebos é um livro sobre a impotência e a deterioração psíquica de um jovem de saúde mental já de início problemática, depois de um mergulho paranoico no universo predatório dos “chams”, os fóruns de internet. A desagregação psíquica do protagonista refletia-se na característica algo opaca e lodosa da prosa, Mil Placebos era um livro para leitura atenta, em que as coisas aconteciam muito devagar e, do nada, seções inteiras pareciam ser um delírio ou uma alucinação do protagonista, e não um episódio real vivido por ele.
Frankito em Chamas começa bastante diverso e adota um tom definitivamente mais leve, ao menos em seu início. Embora seu protagonista ainda seja uma figura masculina em crise, o mergulho na paranoia do primeiro romance é, aqui, permeado pela sátira que vem tanto da incerteza autoconsciente de seu narrador em contraste com a seriedade necessária para a produção de uma arte profundamente colaborativa, como o cinema. Frankito em chamas é a história de um escritor, Felipe, que é chamado a passar alguns dias no pequeno e remoto balneário uruguaio (imagino que fictício) de La Pedrerita, acompanhando as gravações de Aves Migrantes, um filme para o qual escreveu o roteiro, dirigido por um contato antigo, o diretor Guilherme Wallauer (nome que para mim despertou associações inesperadas, já que Wallauer marcou a minha infância como o nome de uma galeria em São Gabriel, um dos dois ou três prédios realmente altos da cidade). Embora Felipe conste oficialmente como um produtor associado, está lá mais por cortesia do que por qualquer utilidade efetiva, e não há realmente nada para ele fazer enquanto a equipe se desdobra na produção.
Nessa qualidade de visitante, Felipe vai interagindo com os personagens coloridos que encontra no set e fora dele. O astro Paulo Roberto Castelo, uma espécie de Tarcísio Meira/Antônio Fagundes fictício que vive o protagonista do filme. A técnica de som Natália, uma musicista com quem Felipe tem um passado romântico que logo é retomado no isolamento da produção. Lúcia, diretora de arte, e Vanessa, diretora de fotografia, cuja relação cheia de arestas no set não chega a interferir na sua relação pessoal fora dele. E, claro, o Frankito do título, um ex-palhaço de circo especializado em sofrer quedas espetaculares sem se ferir no processo – e, portanto, o dublê improvisado de uma produção em que algumas das principais cenas envolvem o protagonista caindo de escadas ou sofrendo algum tipo de provação física (o diretor a certo momento diz com honestidade ao roteirista que ele é um sádico com seus personagens).
A linguagem de Frankito é uma daquelas surpresas de que havia falado ao começar este texto. Embora não menos rigorosa, aqui ela parece se estender com mais ligeireza e leveza, contrariando o caráter lamacento e acidentado do primeiro livro. Mas não é como se este fosse um livro escrito por outro autor. Ainda está lá um elemento que começo a pensar como característico do trabalho de Matheus: a dispersão da narrativa, mesmo quando ancorada em um centro poderoso. Se em Mil Placebos essa dispersão operava pelo caráter errático dos contatos do jovem protagonistas na rede, aqui ela se dá por meio de diálogos entre Felipe e os personagens da produção, cujas histórias abrem janelas episódicas interessantes dentro do romance, como o passado de Castelo numa produção teatral ou a narração do diretor Guilherme sobre performances conceituais cabeçudas e carregadas de absurdo que testemunhou em uma visita a São Paulo. Ou a temporada da diretora de fotografia Vanessa como fotógrafa da turnê de uma banda de metal no Japão.
São desvios na narrativa que representam momentos humanos dos personagens cuidadosamente construídos mas que ecoam aos poucos os próprios dilemas do protagonista, um homem ora em dúvida ora em flagrante equívoco sobre a importância de seu trabalho. Na cena inicial, no avião a caminho de Montevidéu, o protagonista intui que as coisas “vão dar errado” e menciona que sempre total certeza de que “meu próprio trabalho era irrelevante, de que a própria perspectiva de se fazer um filme era um esforço que desaguava em porra nenhuma. Um filme, vejam só, que coisa ridícula”. Só que essa proclamada certeza entra em choque com a ilusão que Felipe tem sobre a própria relevância dentro da hierarquia da irrelevante produção. Ao chegar e testemunhar sua primeira reunião de equipe, ele também se sente um pouco desapontado ao perceber que foi chamado para acompanhar uma produção já em andamento e que ninguém esperou por ele: “A verdade é que o filme já estava sendo rodado sem que eu estivesse ali. E por que teriam começado sem mim? Não seria importante que o roteirista falasse algumas palavras à equipe antes do começo da filmagem?”
Essa ambígua relação de Felipe com o ambiente à sua volta vai ser responsável pelo desencadear do “algo errado” que ele havia intuído lá no início. Ao saber do passado circense de Frankito, e tomado pela ideia algo ingênua de “eternizar” no filme um momento que o palhaço sempre considerou seu principal número (contrariando sua ideia inicial de filmes como “coisas ridículas”), o roteirista propõe ao diretor uma nova cena que desaguará em consequências inesperadas – e aqui não consigo imaginar que outro andamento a coisa poderia ter, mas tive um sentimento vago de decepção com o final por dois motivos.
Um deles não posso entrar em muitos detalhes por ser spoiler, mas o fato é que o protagonista se vê distante do clímax que ajudou a orquestrar. É uma opção, mas me parece minimizar as consequências das ações postas em marcha pelo próprio Felipe. A segunda é que ao fim, por mais que tenhamos Frankito como elemento central da história, inclusive no título, a escolha por retratá-lo sempre pelo olhar ou pela voz dos outros, como Felipe, Guilherme ou Santiago, filho do palhaço, que aparece mais adiante, nos mantém isolados de Frankito, um personagem cativante nos breves vislumbres que temos dele.
No fim, é um bom romance e ainda melhor que a estreia de seu autor prometia. Não chega a comprometer a experiência por completo, mas chegamos ao final com a sensação de que, em chamas ou não, merecíamos mais Frankito em Frankito em Chamas.
Gostaria de ter gostado mais: a parte inicial do livro me pegou pela temática e pelos levantamentos em torno da filosofia que guarda a narrativa. Porém, ao longo do livro, achei que o desenvolvimento não ficou tão claro e algumas passagens não conversam necessariamente com quais problemáticas o autor queria levantar.
Exemplo: o livro é cheio de micro críticas ou alfinetadas ao governo recém empossado (reitero aqui que eu também sou contra esse mesmo governo, antes que isso seja levado como fator de nulidade da crítica), porém que não dizem a que veio. Isso era pra ser um tema central da história? Se era, porque são feitas de maneira tão tímida a ponto de estarem totalmente deslocadas do resto da narrativa? O mesmo acontece com alguns relatos de personagens secundários o tempo todo.
Me passou a impressão de que Felipe tinha tanto medo de não ser alguém relevante na vida que abdicou da sua própria história no livro para contar apenas um grande conjunto de histórias soltas de outros personagens que, no fim, também não colaboram para a moral final.