Comprei a versão da Editora 34, que é uma tradução fiel do russo, e achei a leitura um pouco difícil e cansativa. O livro utiliza palavras que já estão em desuso e que eu nunca tinha ouvido ou lido em nenhum lugar. Por isso, toda hora precisei parar para pesquisar o significado de algum termo, para que a leitura fizesse sentido. Isso acabava quebrando um pouco o meu ritmo, já que eu tinha que ficar sempre com o celular por perto (péssimo hábito).
Mas, tirando isso, achei interessantíssimo esse livro, principalmente pela forma como foi tratada a morte de Ivan. A narrativa começa apresentando o contexto social da vida dele e, em seguida, aprofunda em quem era Ivan Ilitch. Em vários momentos da leitura, me chamava atenção o quanto ele queria ter “uma vida decente”, porque era isso que os nobres e as pessoas “decentes” faziam. Então, para ele, que desejava alcançar o mesmo nível dessas pessoas que admirava de certa forma, era necessário fazer igual: seguir carreira no Direito e subir de cargo, casar porque isso era bem visto nas famílias nobres, ter filhos — também como consequência, porque todos tinham filhos — cultivar amizades, interesses, posicionamento… tudo por “uma vida decente”.
Enquanto eu lia, parecia que ele era quase um vegetal por dentro. Eu me perguntava: onde estava a emoção de viver? Nada tinha paixão, medo, frustração, alegria, ansiedade, calor. Era como se ele estivesse apenas seguindo um roteiro, um script da vida, e só isso bastava para ele.
Depois, tudo vai ladeira abaixo com o casamento arruinado pelos dois. Não existiu nem a dor pelos (muitos) filhos mortos, nem contentamento pelos dois que ficaram vivos e seguiram com ele suas vidas. Acho que o último sopro que ele teve foi quando pediu para mudar de cargo por causa do salário e recebeu aquele aumento gigantesco e a ascensão do outro cargo. Mas isso nem demonstra tanta paixão, e sim a ambição de ter “uma vida decente”.
Parece que ele começou a realmente sentir e viver quando adoeceu, por causa da queda que sofreu (a doença ficou em aberto no livro). Foi com a doença que ele passou a sentir medo da morte. Gostei muito do trecho em que ele revisita o passado e percebe que só lá existiam lembranças felizes. E, à medida que crescia, essas lembranças iam diminuindo cada vez mais.
A frase que mais me marcou foi quando ele dizia que, enquanto achava que estava subindo a montanha, na verdade estava descendo. Eu amei isso.
O final, para mim, ficou meio em aberto sobre se ele entendeu ou não o que foi que faltou em sua vida. Para mim, faltou a própria vida, viver de verdade.
Realmente é uma ótima leitura, que me deixou muito reflexiva sobre vida e morte. Estou vivendo para mim ou para os outros? E quem é tanto esse grande Outro (alô, Lacan) que dita como devo viver a vida, né? Muitos pensamentos.