No interior do Rio Grande do Sul, a caçula de sete irmãos chega à adolescência e percebe que, para sobreviver, precisa escapar dali. Dezesseis anos mais tarde, ao receber a notícia da iminente morte do pai, decide voltar à cidade natal para um acerto de contas com o passado.
Numa cidade pequena do Rio Grande do Sul, Manu é uma jovem às vésperas da adolescência. Dentro e fora do ambiente doméstico, onde a masculinidade domina, ela percebe que ser mulher é uma condição que limita seu lugar no mundo – uma fonte de privação e angústia. Cedo a garota chega à conclusão de que precisa encontrar uma rota de fuga, de preferência bem longe dali. Já adulta, morando em outra cidade, Manu recebe a notícia de que o pai está muito doente e decide visitá-lo. O retorno é um caminho por um lado, a força a se haver com mágoas do passado; por outro, oferece a chance de ressignificar uma relação marcada pela incompreensão, pelo silêncio e pela violência. Neste romance com fortes tintas autobiográficas, Manoela Sawitzki joga luz sobre o processo de se tornar mulher, a delicadeza das dinâmicas familiares e o modo como o luto é capaz de reconfigurar vínculos.
Manoela Sawitzki nasceu em Santo Ângelo, Rio Grande do Sul, Brasil, em 1978. É escritora, dramaturga e jornalista. Publicou o romance Nuvens de Magalhães (Mercado Aberto, 2002), a peça Calamidade (Funarte, 2004), cuja primeira montagem lhe rendeu o Prêmio Açorianos de Melhor Dramaturgia de 2006. Seu segundo romance, Suíte Dama da Noite, foi publicado no Brasil em 2009 pela Record e em Portugal, pela Editora Cotovia. Já trabalhou em roteiros para cinema e televisão, e é colaboradora da revista brasileira Bravo!, escrevendo críticas de teatro.
Gostei muito, mas tive o azar de lhe pegar depois de ler “Se Deus me Chamar Não Vou”, de Mariana Carrara. São ambos livros sobre o olhar de crianças sobre a sua vida, com a diferença de que no de Carrara a criança (Maria Carmen) relata o seu presente, e aqui, na “Filha”, de Manoela Sawitzki, o olhar é sobre a infância, adolescência, e vida adulta de Manu. Devia ter lido este primeiro porque leva com a injustiça de ser considerado menos bonito, apenas e só porque o outro é prosa poética, e este é mais cru (não deixando de ser excelente, até porque não há embelezamento, apenas a sobriedade de uma descrição “real” dos factos). A vida de Manu, uma de 7 irmãos, é sufocante e muitas vezes hostil. O pai é um bêbado, violento, que não se ensaia nada em dar grandes sovas em toda a família (“bater é, afinal, poder”). A cidade onde Manu vive é um lugar do qual ela quer fugir mal possa (um sítio pequeno, machista, patriarcal, sem perspectivas de futuro), e é isso que ela faz assim que pode. O seu crescimento é feito contra o que viveu, mas sob o trauma do passado. Inclusive, repete relacionamentos que perpetuam a subjugação de que foi alvo, mas vai-se conseguindo, apesar de tudo, libertar. Quando o pai adoece, muda. Começa a dizer coisas que nunca disse, a preocupar-se como nunca pareceu preocupar-se. E é então que surge a ambivalência: sentir amor por alguém que foi violento, inimigo, até. Como é possível? Será que é “só” por ser pai? Será que a nossa memória nos atraiçoa e as coisas, afinal, não foram como nos lembramos? Afinal, “enquanto houver vida, haverá versões”. Gostei muitíssimo e achei uma reflexão forte, esta do amor pelos pais, mesmo quando toda a vida foram opressores. Aquela velha ideia de que pai é pai (mesmo quando é uma bela merda). Quando fica sem ele, Manu diz: “a ausência definitiva, mais do que tudo, produz uma presença excessiva, insidiosa, que não se deixa coagular.” Se recomendo? Absolutamente.
Nunca tinha lido nada da Manoela Sawitzki e que grata surpresa para este início de ano. Livro fortíssimo que trata da relação da autora com o pai.
Aqui não há romantização. A relação entre pai e filha foi construída sob muita hierarquia, agressões (bizarramente aceitas até os anos 90) e falta de cumplicidade.
Acompanhamos a Manoela criança e adolescente, em uma família de classe média, numerosa e com pouca instrução. Aqui também temos um relato de uma mulher que conseguiu uma mobilidade intelectual em relação a sua família de origem. Manoela também conseguiu fugir.
Muito bem construído o reencontro com esse pai que envelhece e adoece. O amor que nasce de uma relação tão violenta é mais humano e irracional do que podemos tentar explicar.
Não sei se é um livro para todos e que pode acionar gatilhos desagradáveis, mas certamente foi uma leitura irretocável para mim e que merece minhas difíceis 5 estrelas.
Essa é uma obra profundamente autobiográfica que explora a complexa relação entre a autora e seu pai, uma figura marcada por violência, machismo e conflitos, especialmente agravados pelo consumo de álcool. A narrativa retrata a infância no interior do Rio Grande do Sul, em uma família grande, onde a presença do pai dominava com suas verdades absolutas, e a violência, muitas vezes, se manifestava sob o efeito do álcool, criando um ambiente de insegurança e medo constante. A autora questiona a possibilidade de perdoar alguém que foi violento, refletindo sobre o amor e o conflito que coexistem na relação com o pai, mesmo após sua morte, que ocorre na fase adulta, quando ela já está distante emocionalmente. O livro também aborda temas como luto, perdão, superação e a busca por entender e processar traumas familiares, incentivando debates sobre machismo estrutural, violência familiar e saúde mental, podendo servir como ferramenta terapêutica e de reflexão para leitores que vivenciaram experiências semelhantes. Savitsk consegue narrar esse universo de forma madura, honesta e sem sensacionalismo, trazendo à tona a importância de falar sobre esses assuntos e a força da escrita como meio de cura.
Em 128 páginas, Manoela Sawitzki nos leva em um romance com fortes elementos autobiográficos que fala sobre se tornar mulher sendo a filha caçula entre sete irmãos e tendo um pai violento.
❝Eu devia ter uns sete ou oito anos quando comecei a querer desesperadamente duas coisas: me mudar e que ele mudasse.❞
Filha é um livro que desperta muita coisa no leitor, enquanto eu lia e ia me aprofundando na história eu me via em alguns momentos. Acredito que isso vai acontecer com quase todos os leitores, seja se vendo no crescer dessa filha caçula, seja em como a dinâmica familiar se dá, seja na vontade de sair de casa e da cidade que nasceu… são diversos os momentos em que é possível se encontrar aqui.
O livro me pegou bem no comecinho, a escrita da Manoela é quase como se estivéssemos conversando com um amiga das antigas, onde estamos escutando alguns desabafos do passado. É forte, mas também é fluido.
Tive a oportunidade de participar da Cabine com a autora que a Companhia das Letras organizou alguns meses atrás e isso me ajudou ainda mais na imersão. Ter ouvido a Manoela falar mais sobre o processo de escrita e desenvolvimento do livro foi especial demais.
Peguei Filha pra ler despretensiosamente, ia ter uma cabine de leitura com a autora e a editora e eu queria participar e ter uma experiência completa, então peguei o livro pra folhear... e não consegui largar. Isso está se tornando algo corriqueiro porque foi o primeiro de três livros que aconteceu isso esse mês (julho de 2025).
Filha fala da relação pesarosa da filha mais nova de sete com seu pai violento e de como as lembranças felizes que quase sempre aconteciam longe dele: ”o pai quase não participava desses momentos desprovidos de dor." Ser a caçula deve ser uma benção, mas também uma maldição. Eu sou a irmã mais velha, então é sempre interessante ler o ponto de vista da irmã mais nova.
É claro que essa convivência familiar, numa cidadezinha do Rio Grande do Sul daquelas que todo mundo sabe e fala da vida de todo mundo, recheada de experiências desagradáveis, um medo do que qualquer comentário ou ação poderia desencadear no pai, os vários irmãos, a relação caótica da família com o dinheiro e muitas outras coisas iria ter um peso na mente de Manu, nossa protagonista: ”não pode ser normal alguém pensar tanto. Minha cabeça dá voltas e mais voltas, como se precisasse dar conta de um número infinito de equações sem solução. Um surto parece ser o natural passo seguinte." No livro, Manu sonha em sair desse ambiente familiar opressivo e fugir pra longe. 16 anos depois, ela precisa retornar por causa do falecimento do pai. E como lidar com essa situação? Dá pra amar um pai violento? E tem como sentir falta de quem deveria ter te protegido e não agredido?
E vamos caminhando nessa trilha de desespero, tentando responder essas perguntas em meio ao alívio e ao luto da protagonista e seus irmãos. No livro os momentos de tensão são muitos, o suficiente pra conseguir fazer Manu pensar "[...] na morte como uma forma de martírio que vai ensinar uma lição a todos que me fazem sofrer." É triste, pesado, nostálgico e escrito de maneira belíssima, mostrando a transformação de uma menina em mulher num ambiente machista.
Mesmo que eu não tenha consciência plena, há o reconhecimento intuitivo de que, ainda que fosse tudo diferente e cada uma dessas paixões fossem correspondidas, ali estaria a solidão, cercando como o próprio ar.
Como diz Ana Suy: “ninguém sai ileso da família que tem”. Esta máxima é muito bem retratada na obra de Manoela, incluindo muitas (se não todas, na visão da filha sobre o pai pelo menos) as complexidades que as relações humanas, especialmente as impostas antes de a gente nascer, carregam consigo.