Esse foi meu primeiro romance de Jorge Amado. Desde quando coloquei ele no to read, uns seis meses atrás, criei bastante expectativa nele. Isso me impulsionou bastante no momento da compra, dia que sai conhecer o Berinjela e a Leonardo da Vinci, no Centro do Rio, depois do trabalho.
No seu terceiro romance, Jorge Amado, através de uma narrativa fragmentada, que às vezes se confunde com um mosaico de microcontos, descreve e nos localiza no Casarão 68, na ladeira do Pelourinho, em Salvador. Prostitutas, lavadeiras, anarquistas, operários, costureiras, malandros, gringos, mendigos, entre outros injustiçados e explorados, se espremem nos quartos do Casarão, que nos fundos ainda abriga um cortiço.
Nesse Casarão imundo, os moradores convivem nas mais perversas condições insalubres, dividindo latrinas fétidas com focos de mosquitos, quartos abafados e infernalmente quentes devido aos telhados de zinco e compartilhando o lar e a escada com os ratos.
O mosaico é moldado com a descrição dos aspectos da personalidade de alguns personagens, seus conflitos existenciais, as mazelas a que são submetidos. A caracterização é minimalista, os nomes dos personagens muitas vezes não são citados, as narrativas não tem aprofundamento e desenvolvimento. O 68, apesar de abrigar mais de seiscentas pessoas é construído de tal forma a ser percebido como algo uno, ou que se une por determinadas questões.
No início da leitura fiquei um pouco confuso com a fragmentação e o foco em diversos personagens e em acontecimentos banais. O autor não parece querer criar uma trama com um ponto de virada de tirar o folego, ou coisa parecida; em alguns momentos me pareceu que Jorge Amado se propunha a construir uma "etnografia" sem compromisso, com caráter cômico, cru, crítico, mas também pejorativo e infelizmente preconceituoso, em alguns momentos.
Muitas escolhas ressaltadas da vida dos moradores do 68 me pareceram bem boladas, como: o trabalho árduo de Dona Risoleta na máquina de costura, para manter a vida de mordomias da neta; ou, a relação de amizade de Cabaça e o rato gordo pelado, que vivia junto a ele embaixo da escada. Senti, porém, que a quantidade de personagens e a pouca profundidade e dinâmica entre eles deixa a desejar. O número imenso de personagens traz a sensação de desligamento e pouco envolvimento com a trama. Quando um ponto de virada mais excitante foi construído - já no final do texto -, o seu desfecho se mostrou insuficiente, em minha opinião, pois pra mim a história termina como inicia, sem lançar e criar no lúdico vantagens positivas da revolta e do enfrentamento social.
Recomendo o livro por seu caráter documental e "etnográfico", pelos seus fragmentos e retalhos que instigam a refletir sobre a dinâmica da vida na miséria.
Por ser a terceira obra do autor, penso que seus trabalhos mais maduros possam me agradar, já que essa ele publicou com 22 anos, apenas. Veremos...