À volta da publicação de um anúncio na imprensa diária, oferecendo emprego, gera-se uma teia de conflitos e angústias, de prepotências e sarcasmos. Na perspectiva do chamado neo-realismo, Redol analisa o comportamento de determinados estratos urbanos. Obra importante a dois tí por um lado, como ilustração da corrente literária em que se insere; por outro, como abordagem sociológica para caracterizar determinadas tipologias. Porque para além de posicionamentos ideológicos – e esse «para além» que consegue transformar o maniqueísmo simplista em obra de arte – é o desenho da vida e dos homens que se esboça. Porque se as condições materiais influenciam o Homem, é o Homem, com as suas imperfeições e com as suas virtudes, que influencia tudo.
Cedo começou a trabalhar dada a natureza modesta da sua família. Parte para Angola, aos 16 anos, procurando melhores condições de vida, regressando a Portugal três anos depois. Junta-se ao Movimento de Unidade Democrática (MUD), que se opunha ao regime do Estado Novo, e filia-se no Partido Comunista, escrevendo artigos no jornal O Diabo.
Introduziu o neo-realismo em Portugal com o romance Gaibéus (1939), nome dado aos camponeses da Beira que iam fazer a ceifa do arroz ao Ribatejo, em meados do século XX. Daí em diante sua obra revela uma grande preocupação social, velada ainda assim, dada a censura e à perseguição política movida pelo regime de Salazar aos oposicionistas, e mormente aos simpatizantes do PCP, como era o caso. Chegou mesmo a sofrer prisão política tendo sido torturado.
Seu último romance, Barranco de Cegos, de 1962, é considerado sua obra-prima e afirma sua nova fase, em que a intervenção política e social é posta em segundo plano, dando lugar a um centramento nas personagens e na sua evolução psicológica, de cariz existencial.
Um interessante retrato de todo um teatro de costumes e vicissitudes dos remediados lisboetas. Porém, aqui as mulheres surgem de uma forma algo decorativa, sempre em relação ao desejo que os homens nutrem por elas e aos desejos de união matrimonial. Ou então no papel de matriarcas austeras. Mas toda esta narrativa também mostra como eram vistas nas décadas de 50/60.