Este livro está organizado em quatro partes, cada uma, por sua vez, organizada cronologicamente. A primeira reproduz (em discurso direto, são cópias estenográficas) uma série de encontros com chefes de estado estrangeiros, a segunda (com o horroroso título “Nos segredos do Kremlin”), inclui actas de algumas reuniões da comissão política do PCUS, a terceira contêm excertos de muitos dos discursos proferidos por Gorbatchov entre 1985, quando subiu ao poder como Secretário-Geral do PCUS, e 1991, quando teve lugar o golpe de estado. A 4ª e última parte, abre com a sua declaração de demissão do cargo de presidente e continua com textos de conferências e discursos proferidos daí em diante em inúmeros eventos.
Eu teria preferido que os vários textos tivessem sido apresentados sem separação temática, por ordem cronológica. Apesar de entender a lógica desta organização, ela obrigou-me a andar para a frente e para trás no tempo, e a encontrar explicações e contexto para muitos acontecimentos que me teriam sido muito mais úteis, se tivessem sido apresentados antes.
As partes que achei mais interessantes, foram, sem dúvida, a 1ª (pela curiosidade de ver transcritas conversas com personalidades como Margaret Thatcher, George Bush-pai, e o papa João Paulo II, para referir só alguns), e especialmente a 3ª, que só não sublinhei profusamente, porque o livro não é meu.
Na introdução, Gorbatchov faz uma auto-crítica, refletindo sobre o que correu mal e deveria ter feito melhor, ao mesmo tempo que explica as suas convicções: É porque vivi a amarga experiência do modelo de “socialismo” imposto por Estaline, o qual nada tem a ver com o socialismo, que estou definitivamente convencido do anti-humanismo e da ausência de futuro desse modelo. Mas os valores que fazem parte da ideia socialista, a justiça social, direitos e liberdades inalienáveis do homem, igualdade em direitos dos povos, paz excluindo os meios militares nas relações entre Estados, todos esses valores se harmonizam com os interesses de toda a humanidade e não podem desaparecer.
Alguns excertos da 3ª Parte:
Diligências ativas para pôr termo à corrida aos armamentos e para reduzir o seu número são as premissas indispensáveis para resolver outros problemas globais que se tornam cada vez mais urgentes: a destruição do meio-ambiente, a necessidade de encontrar novas fontes de energia, a luta contra o atraso económico, a fome e a doença. O princípio do militarismo – o armamento em detrimento do desenvolvimento – deve ceder lugar ao contrário: o desarmamento para o desenvolvimento.
(declaração de política externa pronunciada por Gorbatchov em 1986)
Ver o mundo como o seu património, proclamar arbitrariamente “zonas de interesse vital”, são pontos de vista que ainda hoje existem. E que têm como consequência a corrida ao armamento, porque se aposta a força (...). Isto faz parte dos estereótipos da antiga mentalidade, quando era considerado “legítimo” explorar os outros povos, gerir os seus recursos, dirigir tiranicamente os seus destinos.
(discurso no Forum por um mundo desnuclearizado e pela sobrevivência da humanidade, Fev. 1987)
É por exemplo evidente que a força – ou a ameaça do recurso à força – já não pode nem deve ser um instrumento de política externa. (...) Todos, e em primeiro lugar os mais fortes, devem tomar a iniciativa de limitar e excluir totalmente a utilização da força no exterior. Para mais, é hoje evidente que não é o aumento das forças militares que torna um país todo-poderoso.
(Discurso na ONU, Dez. 1988)
Se a inteligência não se conjugar de forma orgânica com a moral, a ciência contemporânea perderá o seu sentido humano. É ainda mais importante e mais crucial que o esforço do princípio moral da ciência se repercuta nos laços que ela mantém com a política. O enfraquecimento e, ainda mais, a rutura de um dos pares da tríade política-ciência-moral teriam consequências imprevisíveis para a humanidade do nosso tempo. Uma política moral respeita os direitos soberanos de todos os povos, grandes e pequenos. Uma política moral ajuda-nos a encontrar uma combinação ótima entre os interesses individuais, coletivos, nacionais e universais.
(extratos de discurso na Sorbonne, Jul. 1989)
Em primeiro ligar, um país não pode garantir a sua própria segurança em detrimento da segurança dos outros, defender os seus próprios interesses em detrimento dos interesses dos outros, pretender que sabe melhor que os outros povos e Estados de que modo é que estes povos e Estados devem gerir os seus assuntos. Reconhecer que cada povo tem o direito à livre escolha é um dos fundamentos sobre o qual se edificará a nova ordem mundial. Em segundo lugar, não se pode criar uma sociedade florescente, livre e democrática, opondo a sua própria via de desenvolvimento à dos outros. O co-desenvolvimento, a co-criação, a colaboração, são os imperativos da nossa época.
( relatório apresentado ao XXVIII congresso do PCUS, Jul. 1990)
O total controlo da propriedade do Estado, gerida, no essencial, de forma centralizada, um sistema burocrático autoritário omnipresente, o domínio global da ideologia sobre a política, o monopólio do pensamento e da ciência, um potencial industrial militarizado que açambarcava tudo o que havia de melhor, incluindo os mais válidos recursos intelectuais, o fardo insuportável das despesas militares que esmagava os ramos civis e comprometia as conquistas sociais que, apesar de tudo, tínhamos alcançado desde a revolução e de que continuamos a orgulhar-nos – eis o que era, na realidade, a situação do país.
É improdutivo avaliar a perestroika segundo o padrão imposto pelas noções que nos são familiares. E é absurdo e perigoso impor a seguinte condição: nós compreender-vos-emos e confiaremos em vós quando vocês, a União Soviética, forem inteiramente idênticos a “nós”, o Ocidente.
É uma tarefa árdua manter o método pacífico num país em que as pessoas, de geração em geração, foram educadas na ideia de que, se o outro é “contra” ou está em desacordo connosco, e nós detemos o poder ou qualquer outra força, então convirá afastá-lo, ou mesmo metê-lo na prisão. Neste país, ao longo dos séculos, tudo foi decidido, afinal, através da violência. Este facto marca de forma indelével a nossa “cultura política”, se é oportuno utilizar esta expressão.
(excertos do discurso proferido por ocasião da atribuição do Prémio Nobel da Paz, Jun 1991)
Há pessoas que se apressaram a apresentar os acontecimentos dramáticos do final dos anos 80 e princípio dos anos 90 como uma “vitória” do liberalismo económico e como o “fim da história”. Como uma prova do facto de que o liberalismo se teria imposto como a resposta universal aos principais problemas levantados pela existência do homem na sociedade, sem que restasse o mínimo espaço para qualquer outro ponto de vista, fosse ele qual fosse. (...) Sabemos bem que, confrontado com a luta dos dois grandes princípios que são a eficácia e a justiça social, o liberalismo se viu obrigado a ir buscar alguns elementos da teoria socialista. (…) Os socialistas, por seu turno, tiveram de recorrer aos métodos elaborados pelos teóricos e pelos políticos do liberalismo, sem o que, depois de conquistarem o poder, teriam sido incapazes de se manter no poder, te-lo-iam perdido. Não será este um bom argumento contra uma perspectiva de brutal oposição entre estas duas correntes? Tanto mais que estas duas correntes não são as únicas que esistem e agem no mundo.
(Comunicação no IX Congresso da Internacional Socialista, em Berlim, Set 1992)
A verdadeira escolha que a Rússia deve fazer, não é uma escolha entre a Europa e a Ásia, entre o Oeste e o Leste. É uma escolha entre estes dois termos da alternativa, que são, por um lado, democracia e abertura, e, por outro, autoritarismo (ou pior) e fechamento. Se a Rússia escolher a via do aprofundamento da democracia, tanto no domínio político como no domínio económico, ficará aberta à cooperação com o resto do mundo. Mas se as tendências autoritárias vencerem, então o país, tal como nos anos do estalinismo, voltará a isolar-se do resto do mundo e, dessa forma, sabotará as suas próprias possibilidades de desenvolvimento.
(intervenção na conferência internacional que decorreu na Fundação Gorbatchov, Dez 1992)
Eu já admirava este senhor, mas depois de ler este livro fiquei a admirá-lo ainda mais, e a pensar como a história poderia ter seguido outro rumo.