Virou um clichê na crítica dizer que tal obra é uma carta de amor para ______, quando se coloca ______ (a comédia romântica, os plataformas da era 16 bits, a pornochanchada etc.) num pedestalzinho pra ser admirado e pra que se façam oferendas. Esse fraseado não comporta O Coronel e o Lobisomem, visto que essas páginas são um histórico de Zapzap de putarias e sem-vergonhices do maior calibre com o português de Brasil adentro. Zé Cândido usa e abusa, deita e rola com essa tal língua do povo, muito menos preocupado em criar uma ilusão perfeita dum suposto dialeto sertanejo puríssimo e impenetrabilíssimo, como é tão comum entre os escritores regionalistas, e sim em escrever uma prosa gostosa com um temperinho da roça, resultando daí que o leitor não precisa vir armado de facão pra adentrar mato bravo, pois o que vai encontrar aqui é um sítio com chuveiro elétrico e sinal de wi-fi -- melhor de dois mundos.
Rasgada a seda pra escrita do Zezé, admito que só dei quatro estrelas por ser pessoa de alma generosa, já que estruturalmente a coisa é bem outra. Só no último 1/4 de livro é que se vislumbra uma trajetória, uma mudança de status quo. Até lá, o que temos são uma coletânea de causos -- o causo da onça, o causo do galo de briga, o causo do lobisomem etc. --, todos muito engraçados, é verdade, mas um pouco repetitivos -- funcionariam perfeitamente bem no formato de série da Globo, fica a dica aí pros executivos da Netflix que estiverem lendo esta resenha. Faltou uma guilhotina de editor pra decepar umas cem páginas.
Eu poderia dizer também que é excessivamente machista, mas como não quero ser anacrônico, vou dizer apenas que a obsessão do coronel Ponciano de Azeredo Furtado por rabo-de-saia é uma chatice, uma coisa que gasta as nossas vistas. Nos momentos de vulgaridade mais inspirada, surgem algumas expressões de fazer inveja em porteiro de meretrício, mas lá pela centésima nona vez que lemos a mesma ladainha sobre Ponciano ser sujeito entendido em povo de saia, a única coisa que dá é preguiça. Sem estragar nenhuma surpresa: o assunto ganha contornos mais interessantes nos finalmentes, mas Zé Cândido só faz coçar a cabecinha do tema.
Por fim, não sei onde Zezé queria chegar com essa figura quixotesca que é Ponciano, com suas manias de grandeza e abusos de herdeiro. Por mais que o personagem se ridicularize a todo momento, transparece um carinho enorme por ele, carinho de autor pelo personagem, em cada gesto de nobreza que Ponciano tem com os amigos, em cada desforra do coronel pelos seus desagravos. Eu sei, eu sei que o bicho humano tem muita contradição, mas é que não desceu bem essa historinha de latifundiário de bom coração, não me convenceu.
Mas que me divertiu, divertiu.