Obra Vencedora do Prémio P.E.N. Clube Português Ensaio 2015
Ser escritor. O texto ficcional. Dilemas, enigmas e perplexidades do ofício. No vale das contrariedades. Nada do que parece é. O «assertivismo» é um charlatanismo. A valsa dança-se aos pares: escrita e leitura, autor e leitor, personagem e acção, causalidade e verosimilhança, contar e mostrar, o dentro e o fora, a superfície e o fundo. O bico-de-obra do primeiro livro. Por onde começar? Com que começar? Com quem começar? A manutenção do interesse. Não há regra sem senão; não há bela sem razão. Ou o oposto. Riscos, cautelas e relutâncias.
Mário de Carvalho nasceu em 1944, em Lisboa. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Lisboa em 1969. Desde jovem que se envolveu na luta antifascista, tendo estado preso ainda na década de 1960 e durante o serviço militar. A sua luta política leva-o ao exílio, primeiro para a França, depois para a Suécia, em 1973. Após o 25 de Abril regressa a Portugal. A sua estreia literária dá-se em 1981, tendo desde aí publicado regularmente numa grande diversidade de géneros: romance, drama, contos, guiões.
A sua escrita é extremamente versátil e torna-se impossível incluí-lo numa escola literária. A crítica considera-o um dos mais importantes ficcionistas da actualidade e a sua obra encontra-se traduzida em vários países (Inglaterra, França, Grécia, Bulgária, Espanha, etc.).
Recebeu diversos prémios, podendo-se destacar, na sua bibliografia, o romance histórico "Um Deus passeando pela brisa da tarde", que constitui o seu melhor sucesso de vendas e que mereceu a aclamação da crítica, tendo sido distinguido com o Grande Prémio da APE (romance) 1995, o Prémio Fernando Namora 1996 e Prémio Pégaso de Literatura do mesmo ano. Vencedor, em 2004, do Grande Prémio de Literatura ITF/DSTe, em 2009, do prémio Vergílio Ferreira.
Este ensaio é um excelente livro de estudo para o potencial escritor. Para o simples leitor é muito interessante para recordar obras já lidas, estimulando a vontade de as reler, ou como incentivo a novas leituras. Se me enquadrasse na primeira opção, certamente o classificaria com cinco estrelas; assim, e porque saltei alguns parágrafos muito técnicos, retiro-lhe uma.
Quatro conselhos de Mário de Carvalho que aproveitei neste livro:
1. Conselho ao futuro escritor "Leia muito, leia por gosto, leia por desfastio, leia por obrigação, leia por indignação, mas leia, leia, leia de tudo, sem preconceitos nem reservas. Há quem diga que com os livros maus se aprende mais do que com os bons." (Tenho que ler ainda mais, não para aprender a escrever, mas para aprender a ler.)
2. Conselho ao leitor "Pode ler um livro salteadamente, do fim para o princípio, omitindo este ou aquele parágrafo ou capítulo. Pode deixar para depois. Pode saltear e picar aqui e além. Essas opções são suas e ninguém tem o direito de lhas retirar nem censurar. Sempre que, por qualquer razão, não esteja interessado nas descrições tem sempre um recurso. Salta." (Já não fazia muitas cerimónias com a leitura, agora ainda vou fazer menos.)
3. Recomendação de leitura 1. O conto de Jorge de Sena, Homenagem ao Papagaio Verde, que Mário de Carvalho qualifica "como um dos melhores contos que já li em português.". Procurei-o na internet e li. É um tesouro.
4. Recomendação de leitura 2. Debaixo do Vulcão, de Malcolm Lowry, é várias vezes referido neste ensaio, e a sua leitura recomendada, como "um dos livros fundamentais do século XX". Já escolhi o marcador...
Exatamente um ano depois, decidi reler este livro para relembrar alguns conceitos e captá-los com os olhos gastos da leitura de muitas linhas (e escrita de algumas) em 2015.
É uma obra nada pretensiosa, que poderá ser imensamente útil para escritores e aspirantes a tal, mas também será com grande deleite que os fãs de literatura poderão ler excertos de obras marcantes da nossa história, pois o livro tem vários trechos para exemplificar a mensagem do autor. Além disso tem imensas referências para consulta futura.
Se querem que vos diga a verdade (e sabendo que quem disser o contrário é porque tem razão), acho que este livro do Mário de Carvalho vale mais do que grande parte dos cursos de escrita criativa que por aí são apregoados. Instrutivo e altamente divertido.
Um livro que li como quem vai à escola, cumpre os horários das aulas, e estuda. Com prazer. Deliciei-me com estes ensinamentos em tom leve e divertido, com uma abordagem, por vezes irónica, de temas pertinentes para quem quer, sonha, ou deseja escrever um livro. Ou para todos aqueles que, simplesmente adoram livros, e queiram fazer uma viagem pelo que possa ser a construção de histórias, personagens, escolha de palavras, e caminhos a evitar para chegar, esgotado mas feliz, ao fim. Ao livro. Na verdade não oferece nada de novo, mas a forma como explora o que já sabemos é genial. Quem quer escrever sabe (acho eu) que o percurso é sinuoso e que há uma série de opções a evitar. Chavões e lugares comuns são a morte do artista. Há que criar um estilo, ser original, único. Fazer com que o leitor acredite nas maiores mentiras. Escrever pode ser um dom, mas sem trabalho é coisa nenhuma. Esforço. Sangrar de dentro. E ler muito. De tudo, sem preconceitos. “Quem disser o contrário é porque tem razão” disserta sobre tudo o que já sabemos de modo envolvente, credível e entusiasta. Aconselha, aponta direcções, dá a conhecer alguns truques e dá liberdade de se seguir um caminho. O caminho secreto que está dentro de quem escreve. Alarga horizontes, dá novas perspectivas, ensina palavras novas, mostra a imensa cultura, talento a capacidade de escrita de um autor que me envergonho de não conhecer. Circunstância a reverter com urgência. Empolgante. Motivante. Marcante. Um livro que fala, interroga, e ao qual dá vontade de responder. Respondo sublinhando, marcando páginas, escrevendo e roubando as passagens preferidas (tantas, tantas) para reler até ao infinito. Sublime e imperdível. Merece que se inventem adjectivos novos só para o caracterizar. “Leia muito, leia por gosto, leia por curiosidade, leia por desfastio, leia por obrigação, leia por indignação, mas leia, leia, leia de tudo, sem preconceitos nem reservas. Há quem diga que com os livros maus se aprende mais do que com os bons. O leitor que vai iniciar-se na escrita literária precisa de um património, precisa de recursos, precisa de provisões, como alguém que vai enfrentar uma rota esplendorosa de paisagens, mas de longo curso e piso acidentado. (…) É vantajoso ler-se desprendidamente, sem preconceitos e sem parcialidades pré-estabelecidas. E sem superstições. A própria prática da escrita fará chegar o tempo da selecção, da exigência, da separação das águas. Até lá, ver como tudo funciona: desde o registo mais melodramático, ao livreco de mistério mais pernóstico, o policial mais endurecido (mesmo hard-boiled – “A eles, Mac!”), que venha tudo à rede. Até que – a isto poderá chamar-se depuração do gosto – a banalidade se torne insuportável pelo confronto da excelência e vá ficando de lado, como um resíduo que se desprende. Vai nas águas barrentas. Sobram as palhetas a faiscar no alguidar do garimpo.” (Págs. 28/29). Sinopse “Ser escritor. O texto ficcional. Dilemas, enigmas e perplexidades do ofício. No vale das contrariedades. Nada do que parece é. O «assertivismo» é um charlatanismo. A valsa dança-se aos pares: escrita e leitura, autor e leitor, personagem e acção, causalidade e verosimilhança, contar e mostrar, o dentro e o fora, a superfície e o fundo. O bico-de-obra do primeiro livro. Por onde começar? Com que começar? Com quem começar? A manutenção do interesse. Não há regra sem senão; não há bela sem razão. Ou o oposto. Riscos, cautelas e relutâncias.” Porto Editora, 2014
Uma obra que recordarei sempre que necessite de escrever não importa o quê. Duas coisas percebi com clareza : poucos se comparam a Mário de Carvalho em originalidade e engenho. Inesperadas as combinações de palavras, labor demorado, respeitinho polo leitor. Fingimento de fluência farta e fácil. Texto rosado e bem nutrido, sem empecilho de aparas, " trabalho de lima" competente e sério.
" Costuma dizer-se que o que se escreve sem esforço se lê sem gosto. É-me grato perceber que um escritor se preparou, trabalhou para mim. Gostamos de avaliar a canseira do escritor mas não gostamos e vê -lo a esforçar-se. Preferimos que como operário competente, remova as pranchas, arrume a ferramenta e varra o passeio."
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Excelente! Cheguei ao também excelente Estilística da Língua Portuguesa de Rodrigues Lapa por referência contida neste livro de Mário de Carvalho. Mas enquanto a "Estilística" se debruça sobre a elegância da escrita e o bem escrever, este "Quem Disser o Contrário" é complementar e mais abrangente, aconselhando o candidato a escritor não só sobre o estilo, mas também sobre o começar a escrever, os elementos basilares do romance, o evitar ou superar bloqueios, o procurar inspiração e muito mais. Curiosamente, para um livro que traz na capa a palavra "Guia", Mário de Carvalho adopta uma posição de grande flexibilidade em relação à escrita literária e afirma que quem quer fazer crer que existem regras, truques ou processos sistemáticos para escrever bem (aka "escrita criativa") não está a ser sério. Pelo contrário, diz ele, em clara sincronia com Rodrigues Lapa, em escrita literária tudo é possível; afinal todos os dogmas foram sendo esmagados ao longo da história e o que ontem era medíocre, hoje é premiado. Aventure-se, caro escritor, concluiria Mário de Carvalho. Não posso terminar sem referir que, mesmo descontando o interesse pelo conteúdo, a leitura é fonte de enorme prazer, pela elegância da escrita, pelo tom coloquial e intimista, pelas referências e citações certeiras e pelo que revela da extensa curiosidade, cultura e amor pelos livros e pela escrita do autor. Vou reler, sem dúvida, e recomendo a todos os "candidatos a escritores"!
Nunca escrevo nos livros. Mas quando comecei a ler a obra mais recente de Mário de Carvalho apercebi-me que ia ser uma espécie de bíblia da escrita, com inúmeras dicas que queria aproveitar, sublinhar e escrevinhar. E por isso este é um dos poucos livros que tenho que está riscado, com notas e muitos sublinhados, porque acho que o vou abrir muitas vezes ao longo dos anos. Claro que isto só pode ser um bom sinal. Este "Quem disser o contrário é que tem razão" é claramente escrito para quem quer escrever (o autor dirige-se ao leitor como "escritor em potência", "futuro escritor", etc.), e aborda a escrita literária com objetividade mas, ao mesmo tempo, muita piada e clareza. Aqui são abordadas, literalmente, dezenas de obras - desde os títulos, aos capítulos iniciais, os prefácios, as personagens, as descrições, os diálogos. São dados muitos exemplos, muitas dicas de leitura - tudo coisas muito úteis para quem ainda anda a iniciar-se nestas andanças da escrita e ainda tempo muito por onde aprender. Devo admitir que gostei muito mais dos primeiros capítulos do que dos últimos (pelos temas abordados, pelo ritmo e estilo de escrita). No início é tudo mais filosófico, onde há mais lugar para piadas e tiradas do autor, enquanto que no fim são questões mais técnicas abordadas com mais alguma seriedade. Aconselho muito a todos os que, um dia, pensem em escrever ficção - ou que simplesmente queiram saber como é que tudo se faz, pelas palavras de alguém que sabe realmente escrever.
"O que se escreve sem esforço lê-se sem gosto (...) a ilusão da espontaneidade é o que fica depois de sofridos os ossos do ofício."
Este livro, nada pretensioso, é um compêndio essencial para o potencial escritor, mas não só. Para o comum dos mortais é uma viagem muito interessante por obras já lidas, num tom leve e humorístico.
Se ambicionasse ser escritora - ambição que claramente não tenho -, acredito que o meu interesse por este livro seria mais constante, sempre lá nos píncaros (pelo contrário, foi diminuindo gradualmente à medida que virava as páginas). Como não é o caso, mas antes o de uma leitora atenta e que gosta de se pôr no lugar do outro, acabou por ser uma leitura bastante interessante e até divertida, teórica q.b., mas da qual não extraí tudo o que poderia ter extraído. Nunca tinha lido nada do Mário de Carvalho e fiquei agradavelmente surpreendida com o seu sentido de humor e com a sua capacidade de expor conhecimentos sem menosprezar os pares. Considero mesmo que os aspirantes a escritores deveriam ler este livro, uma espécie de Guia para Escritores desconstruído, bem como ler várias (muitas!) das obras mencionadas. Lerei outras obras do MdC de certeza absoluta! Esta foi, mesmo assim, um excelente começo!
Há a escrita de ficção e a escrita sobre a escrita de ficção. Mário de Carvalho salta dos romances para a escrita dita 'criativa', como se estivesse em frente a uma máquina de escrever a escrever, em lugar de mais um romance, sobre como escreve estes romances, as suas personagens, as histórias mirabolantes, os truques que usa. Um guia bastante prático e totalmente despretensioso que nos prende de capítulo para capítulo.
Ainda que não tenha qualquer interesse em se tornar escritor, este livro é delicioso. Caso tenha, venha armado de lápis, prepare-se para alguns desgostos e acima de tudo, descontraia. Pode não sair daqui escritor, mas sairá certamente mais culto.
Um livro pensado para os aspirantes a escritores (não é o meu caso) repleto de dicas de livros para ler e nos enriquecer. O autor usa, principalmente na primeira parte, um tom que nos faz ficar absorvidos, quase como se estivessemos à conversa com o Mário de Carvalho.
A única experiência que tinha com o autor (A Sala Magenta) não correu muito bem - não gostei nada - mas esta foi bastante agradável e deixou-me com muita vontade de ler mais coisa dele.
Nunca pensei que um livro sobre escrita pudesse ser tão interessante, divertido e difícil de interromper, mesmo para alguém como eu, que não escreve nem tem qualquer intenção de se vir a dedicar a essa atividade. Para além de tudo isto, ainda cheguei ao fim com uma enorme lista de livros e autores para acrescentar à minha wishlist, o que sabe sempre tão bem!
Foi o primeiro Livro de Mário de Carvalho que li. É um livro que tem um objectivo técnico, sem nunca deixar de ter uma escrita cuidada e com alguma ironia. Usei-o como primeiro passo para começar a escrever 😉...Como começar, como organizar uma ideia e passá-la para o papel. Como criar a magia da ligação Escritor➡️Leitor através de um livro, que depois de escrito, aguarda fechado o seu leitor, num sítio e num tempo a que só ao leitor diz respeito.
A escolha do título, capa e outros pormenores, até ao trabalho do ofício de escritor propriamente dito, personagens , técnicas diversas e erros comuns a evitar, tudo é tratado. Recorrendo a muitos exemplos de outros livros e autores, ficamos com imensas referências para leituras futuras, tendo como fio condutor melhorar a nossas escrita e o prazer da leitura 😊.
Como o autor diz no livro:
" A arte não transmite um conhecimento. Faz nascer um conhecimento. A literatura não nos comunica os sítios. Fá-los recriar no espírito do leitor "
Tendo a ser generoso com os livros de que gosto muito, abundam as 5 estrelas nos meus registos de leitura. O problema é que depois leio livros como este e faz-me falta uma 6.ª estrela. Não se deixem enganar pelo subtítulo, o livro interessará não apenas a quem pense escrever ficção mas a qualquer um que a goste de ler. Mas atenção ao aviso, a vossa lista de intenções de leitura aumentará bastante. Desde logo o que vos faltar do Mário de Carvalho, sem dúvida o melhor escritor português deste tempo.
Poucos livros me deram tanto prazer ler nos últimos tempos. Trata-se de um livro de conselhos destinado ao aspirante a escritor,com muita graça, muito espírito e grande pedagogia. Mário de Carvalho usa os bons exemplos de escrita dos seus pares, bem como, aponta os perigos que devem ser evitados por quem se propõe dedicar-se à ficção. Divertiram-me as alfinetadas aos cursos de escrita criativa e aos livros a metro.
É na parte em que se finge de guia prático que falha: tem pouco de guia e ainda menos de prático, com o prejuízo de se mais perderem preciosos insights do autor durante os trechos de suposto guia. A melhor parte é tudo o resto. Das selecções, curiosidades às indicações, sempre acompanhadas de uma espirituosidade tão particular que faz da leitura um deleite.
Lê-se muito bem, tanto quanto qualquer outro texto do autor. Mas de prático não tem nada e de guia muito pouco! Os títulos das seis partes não são nada informativos e os tópicos dos capítulos são lançados em bloco no início de cada parte... Sem índice, nem bibliografia no fim, talvez aproveite mais a quem já saiba que todas as narrativas de ficção têm um tema, personagens, um enredo, tempo, espaço e um narrador, e que a frase inicial de um narrativa é importante, e reconheça uma litotes e conheça Nasreddin Hodja... E também a quem tenha lido de antemão "O Primo Basílio" e "Le Rouge et le Noir", entre outros. As preferências do autor (os livros que cita, os livros que não cita), que são o mais interessante no livro, mostram como um profissional que eu admiro pensa o seu ofício.
Este livro não é, sequer, apenas mais um "guia de escrita de ficção". É isso tudo e ainda um ensaio que varia entre o domínio das preferências e opiniões do próprio autor, a referência académica, catálogo de obras e autores, e o entretenimento ligeiro. Já o tinha na minha "to read list" há dois anos e finalmente me convenci (e fui convencida) a arranjá-lo. Valeu a pena!
Uma leitura conjunta me motivou e ainda que céptica (um outro livro recente de MdC não me cativou por aí além) dei-lhe uma oportunidade e fiquei rendida nas primeiras páginas por um refinado sentido crítico, domínio assertivo das palavras e um bom humor. Não se trata de um livro convencional com uma história mas é exemplar e sem dúvida uma leitura imparável e refrescante que muda a perspectiva de um leitor sobre o que lê. E se pretender escrever, tanto melhor. Ademais, são muitas as referências literárias dignas de registo. Muito, muito bom.
Há duas coisas que gostei especialmente neste livro: o amor pela literatura e o humor. O amor pela literatura está em todos as obras que cita e no evidente conhecimento com que nos guia por elas. Torna-se muito mais um livro sobre ler do que sobre escrever, o que tem tudo a ver ou não estarão as duas coisas ligadas? O título expressa bem o tipo de humor que está no livro - o não se levar demasiado a sério, o gozo com alguns estilos, frases e obras, o desapego pelas fórmulas. Tudo ótimas razões para ler o livro. Nos contras, há para mim um evidente problema nas escolhas literárias citadas: há pouquíssimas mulheres autoras. E além disso há um problema de género em toda a linguagem usada. Ainda assim, e no geral, a avaliação é positiva.
Não é um livro. É um manual de escrita. Tenho vários livros deste tipo, de vários escritores (alguns estrangeiros de renome). Este é sem dúvida o meu favorito. Obrigada Mário
Um livro extraordinário, obrigatório para quem gosta de escrever e/ou de compreender os meandros da ficção. Concilia conhecimentos sólidos, experiência, muitas referências a obras de ficção e de estudos literários, tudo isto de forma leve e agradável, amenizada por um grande sentido de humor. Aliás, basta olhar para o título (fantástico!) para perceber o humor, a humildade e a autoironia... Adorei. E reforcei a minha opinião sobre Mário de Carvalho, que considero um autor incontornável.
Não me inclino muito para guias práticos, mas as referências muito elogiosas, praticamente unânimes, que vi sobre este livro, despertaram-me a atenção. E as expectativas conseguiram ser largamente superadas. Começa por ser um guia de escrita de ficção mas consegue ser muito mais do que isso. É, na verdade, um guia que ajuda a apreciar literatura, e que fornece inúmeros exemplos, tirados das grandes obras, que ajudam a perceber o que distingue a literatura enquanto sublime forma de arte do mero ofício mecânico e comercial de escrever livros banais mas que vendem. O resultado deixa no leitor um apetite voraz por ler mais e mais livros. Recomendável a todos os que amam os livros.
Um excelente livro para quem pretende perceber de forma mais aprofundada o que é isto da literatura. Deixa uma mensagem fundamental: devemos escrever. Já existe de tudo, é verdade, o próprio Mário de Carvalho refere-o. Mas a nossa forma de olhar, de sentir, será sempre a nossa. Deixo aqui esta citação, do diálogo de Álvaro de Campos com Alberto Caeiro, que acho maravilhosa e que também se pode encontrar neste livro:
"(...) Toda a coisa que vemos, devemos vê-la sempre pela primeira vez, porque realmente é a primeira vez que a vemos."
Por isso, escreva-se sempre como se fosse a primeira vez. Porque, efectivamente, será mesmo.
Bom para pensarmos na nossa escrita, como geralmente é quando nos expomos a qualquer pensamento sobre um assunto. Adicionou pouco ao tópico, mas parece-me um bom ponto de partida.
Ao contrário da maioria dos autores (ou pseudoautores) que se aventuram no ensino da escrita ficcional seja por meio de um livro ou de um workshop, e que iniciam os seus sermões por uma prolixa auto-apoteose, Mário de Carvalho admite desde logo a sua insuficiência para açambarcar tudo o que convém a este tema tão abrangente, bem como a sua "incompetência" para o fazer, rejeitando ser elevado ao panteão dos mestres da escrita. O livro cumpre o seu objetivo na perfeição: incentiva o leitor/aspirante a escritor a trabalhar a arte da literatura com o devido critério e dedicação, não desrespeitando tudo o que já foi feito por ela "Não se esqueça de que está a trabalhar sobre uma Língua e uma Literatura que são pré-existentes" (p.28), mas sobretudo o futuro leitor "O autor deve criar o leitor que o mereça" (p.46)
Fugindo aos exercícios práticos (salvo raríssimas recomendações) muito comuns neste tipo de livro, o autor prefere dar uso (e que uso!) ao exemplo prático recorrendo a obras clássicas portuguesas e internacionais, e sobretudo fazer o leitor duvidar e questionar-se. A apresentação das normas literárias, das regras de pontuação e narrativa, das formas de apresentar um personagem, vem sempre acompanhada de um lembrete: quebre-as se assim o desejar. São linhas guias, não dogmas "Rege o princípio precioso da autonomia e soberania do escritor. Conhecer, ter ao dispor, mas não se sentir obrigado a usar" (p.133). Tudo isto é exposto de uma forma divertida e sagaz sem descorar a seriedade do tema. O engenho de Mário de Carvalho e a sua sabedoria fazem desta leitura uma agradável viagem pelo mundo da escrita de ficção.
De resto, irei sumarizar algumas das ideias que, na minha opinião, merecem destaque no meio de tantas outras que não são de desvalorizar:
- Somos todos contemporâneos. Todos os autores que se dedicam à exploração da condição humana falam do mesmo. "Se a história dos homens é curta, a história da escrita literária é ainda mais curta. Os homens de todos os tempos não são muito diferentes uns dos outros" (p.26);
- O hábito faz o escritor. Tanto a leitura "Leia muito, leia por gosto, leia por curiosidade, leia por desfastio, leia por obrigação, leia por indignação, mas leia, leia, leia de tudo, sem preconceitos nem reservas" (p. 28), como a escrita são bases imprescindíveis para quem quer escrever uma obra de ficção (ou outro género qualquer). O treino da escrita é única forma de escrever. "o treino até consegue pôr os ursos a dançar. Encontre forma de estar permanentemente a escrever" (p.36);
- O escritor não deve se deve limitar às regras e normas mas deve saber que elas existem e usá-las consoante a sua vontade e necessidade "As normas podem interferir na ponderação, nas não são para seguir à letra" (p.164). O próprio título do livro remete para esta ideia: quem fugir a regra é porque tem razão;
- "As melhores personagens possuem sobremodo aquela qualidade que as aproxima de qualquer leitor atento: são reconhecíveis. E os autores conseguem o aspecioso efeito de nos levar a pensar que já as encontrámos em qualquer lado" (p.189);
- "O diálogo literário nunca é natural" (p.260), nem tem de o ser.
Recomendo vivamente a leitura ao aspirante a leitor, ao leitor que quer ler mais e melhor, e, sobretudo, àquele que quer ler por gosto, por curiosidade, por desfastio, por obrigação, por indignação, porque quer ler.