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O Vício dos Livros II

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Sócrates não deixou escrita uma linha que fosse para a posteridade, Charles Darwin não suportava a poesia, Henry David Thoreau acreditava que a leitura de um livro marcava o início de uma era para cada leitor, Fernando Namora dizia que não escrevia para agradar a ninguém e Julian Green fazia-o para não sufocar.

Tudo isto e muito mais ficamos a conhecer neste segundo volume de O vício dos livros, onde Afonso Cruz — ciente de que os vícios são difíceis de matar, mas que ao contrário de outros este tem tanto de prazer quanto de benefício — alimenta o leitor com um sem-número de curiosidades literárias, reflexões e memórias, provando que é possível, sim, compreender a vida através da literatura.

176 pages, Hardcover

First published January 1, 2025

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About the author

Afonso Cruz

102 books2,034 followers
Nasceu em 1971, na Figueira da Foz e estudou nas Belas Artes de Lisboa, no Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e na António Arroio. É escritor, músico, cineasta e ilustrador.
Escreveu seis livros: A Carne de Deus (Bertrand), Enciclopédia da Estória Universal (Quetzal - Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2010), Os Livros Que Devoraram o Meu Pai (Caminho - Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009), A Contradição Humana (Caminho - Prémio Autores 2011 SPA/RTP; escolha White Ravens 2011; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011) e A Boneca de Kokoschka (Quetzal), O Pintor Debaixo do Lava-Loiças (Caminho). Participou ainda nos livros Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas (Saída de Emergência), O Prazer da Leitura (FNAC/Teodolito) e O Caso do Cadáver Esquisito (Associação Cultural Prado).
Ilustrou, desde 2007, cerca de trinta livros para crianças, trabalhando com autores como José Jorge Letria, António Torrado, Alice Vieira. O livro Bichos Diversos em Versos foi seleccionado pela Biblioteca Internacional de Juventude /White Ravens 2010 e Galileu à Luz de uma Estrela ganhou o Prémio Ler/Booktailors 2011 - Melhor Ilustração Original. Também tem publicado ilustrações em revistas, capas de livros e publicidade.
Em 2007 gravou um disco (Homemade Blues) com a banda de que é membro, The Soaked Lamb, para o qual compôs todos os originais, escreveu letras, tocou guitarra, harmónica, banjo, lap steel, ukulele e cantou. Em 2010, lançou um novo CD, Hats and Chairs, apenas de originais e com vários convidados.
Trabalhou como animador em vários filmes e séries tais como A Maravilhosa Expedição às Ilhas Encantadas; pilotos de A Demanda do R, Toni Casquinha, Óscar, As aventuras de João sem Medo; e vários filmes de publicidade.
Fez layouts para alguns episódios da série Angelitos e realizou vários filmes de O Jardim da Celeste, Rua Sésamo e Ilha das Cores.
Juntamente com mais duas pessoas, realizou uma curta-metragem chamada Dois Diários e um Azulejo, que ganhou duas menções honrosas (Cinanima e Famafest), um prémio do público e participou em diversos festivais internacionais. Também foi o realizador de O Desalmado e da série Histórias de Molero (uma adaptação do livro de Dinis Machado, O Que Diz Molero). Para publicidade destaca-se a campanha Intermarché onde realizou mais de duzentos filmes durante os anos de 2006 e 2007.

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Displaying 1 - 30 of 43 reviews
Profile Image for Marta Silva.
322 reviews111 followers
June 22, 2025
A paixão pelo livro
“Como é belo um livro, que foi pensado para ser tomado nas mãos, na cama, num barco, onde não existem tomadas elétricas, onde e quando qualquer bateria descarregou, e suporta sublinhados e cantos dobrados, e pode ser deixado cair no chão ou abandonado aberto no peito ou sobre os joelhos quando se adormece, cabe no bolso, estraga-se, registando assim a intensidade, a assiduidade ou a regularidade das nossas leituras, e nos recorda (se parecer intocado ou estiver intonso) que ainda não o lemos…”
Umberto Eco
Profile Image for Maria  C .
13 reviews13 followers
January 4, 2026
Afonso Cruz partiu o meu coração com o seu «Para Onde Vão Os Guarda-Chuvas», e voltou a alimentar‑me com um sem‑número de reflexões sobre leitura, escritores e escrita, neste segundo volume de O Vício dos Livros.
O vício dos livros é um viço vício dos livros.

«Os livros não se apreendem em segundos. Requerem tempo, obrigam a uma espécie própria de contemplação a que chamamos leitura, e por vezes são tão demorados que vivem milénios. Vão ficando.»

Quando li «Cartas a Nora», acusei James Joyce de obsceno nalgumas passagens. Afonso Cruz convenceu‑me (alguém o tinha de fazer, um dia) que «o uso da obscenidade (em Joyce) cria, na verdade, um caminho, cria erotismo».
Num cenário de prazer erótico não é o culminar que importa (de forma absoluta, sem mais nada), mas a viagem até esse final — e isso exige subtileza. Afonso Cruz defende que há que acautelar eventuais obscenidades, o que nem sempre é fácil.
A maioria dos escritores e dos leitores tende para uma narrativa subtilmente erótica que pede para ser despida lentamente, num jogo de encobre e descobre, em que se avança para recuar, em que se toca ao de leve ou se foge do toque.

«[Os livros] são objectos verticais. Aliás, como a vida. (...) E, seguindo o exemplo dos livros nas estantes, devíamos exaltar esse permanecer em pé, lado a lado.»

Obrigada, Afonso Cruz.
Profile Image for Mariana Osorio Schlögl.
242 reviews3 followers
October 17, 2025
Tudo o que li do Afonso Cruz é magnifico. Questiono-me se até a sua lista de supermercado será maravilhosa…
Este ensaio sobre livros e o prazer da leitura (composto por vários textos) é * chef’s Kiss *. Fartei-me de sublinhar, de colocar post-its, de reler frases e de mover a cabeça em sinal de concordância. Também sorri várias vezes.
É um livro para todos, mas para os mais aficionados da leitura, do livro como objeto, e do mundo literário é um must!
Deixo aqui dois excertos que mexeram comigo um bocadinho mais do que outros:
“Quando lemos, não nos alheamos verdadeiramente da sociedade, mergulhamos sim nas possibilidades de uma sociedade. É também um acto de amor.”
“Ler dá trabalho. Essa exigência torna a leitura uma arte activa, mais próxima da tradução do que da fruição imediata, e, talvez por isso, quando funciona, seja tão poderosa: porque é o leitor quem completa a obra. A leitura é uma arte de co-autoria.”
Profile Image for Vera Sopa.
774 reviews73 followers
June 8, 2025
Ler Afonso Cruz é muito prazeroso. E quando ele fala de livros e de leitores e mistura curiosidades e peripécias históricas para expor uma ideia, imagino aquele sorriso que o ilumina e o humor que o caracteriza, o mesmo que trespassa em muitos dos pequenos textos que tanto me dizem ou não fosse eu uma leitora. Um tipo. Não o leitor piza que, com esse é preciso cuidado.
Este livro é uma pequena preciosidade. O vício dos livros inicial também e os dois livros juntos são uma excelente companhia para a mesa de cabeceira em, que uma ou duas páginas regularmente nem sabe o bem que lhe fazia. A cultura é abrangente e diversificada e não há problemas de interpretação, nomeadamente com a literatura mas a imagem também abrilhanta este livro que, para um leitor é verdadeiramente indispensável.
Profile Image for Inês Honório.
122 reviews8 followers
September 30, 2025
Ensaios belíssimos sobre livros e leitura. Qualquer ávido leitor certamente terá muito prazer a ler estes textos, uns que nos metem a pensar sobre a nossa forma de ler e que leitores somos, outros que não trazem novidade mas que são um espelho onde nos reconhecemos. Mas um espelho adornado pelo Afonso Cruz é especial, mais bonito.
Profile Image for Carla.
330 reviews2 followers
January 30, 2026
Um livro feito de contos que parecem pequenos ensaios sobre a vida, a leitura e a condição humana.
Afonso Cruz escreve com inteligência, delicadeza e ironia, cruzando livros e pessoas, memória e imaginação, de forma profundamente sensível. Não é uma leitura apressada: é para saborear, parar, pensar — e voltar atrás.
Um livro que fala do amor aos livros, mas sobretudo do amor ao que nos torna humanos. Ficou comigo.
Profile Image for João Santos.
20 reviews
February 16, 2026
“Não ter cultura suficiente para perceber o valor da cultura é difícil de resolver. Aquele que queima livros sabe o que está a fazer, sabe do perigo que eles podem representar, sabe que um cidadão informado e com acesso à diversidade de opinião é mais difícil de controlar pelo pensamento único.”
Profile Image for Carla Ferreirinho.
147 reviews6 followers
September 9, 2025
Este livro é compêndio de curiosidades literárias, reflexões e memórias em que o autor partilha não só factos e anedotas, mas também uma visão pessoal do mundo através dos livros.
Termina com a afirmação de que é possível “compreender a vida através da literatura”, esta é a tese central de Afonso Cruz: os livros não são apenas objetos culturais, mas lentes que nos permitem entender melhor a existência humana.
A leitura é uma experiência pessoal, uma fonte de conhecimento e uma forma de compreender a vida. Afonso Cruz, através da sua escrita e seleção de curiosidades, convida-nos a encarar o acto de ler nas como um vício transformador e profundamente humano.
Profile Image for Cristina.
55 reviews2 followers
December 14, 2025
"...anedota que se contava durante a ditadura sobre a ignorância dos agentes da PIDE: estando dois polícias a decidir o que haveriam de oferecer ao chefe no aniversário, um deles sugere um livro. O outro responde: 'Um livro não, que ele já tem um'."
(...a joke told during the dictatorship about the ignorance of PIDE* agents: two policemen were deciding what to give their boss for his birthday. One suggested a book. The other replied: 'Not a book, he already has one'.)

(*political police of the dictatorship in Portugal until 1974)

"Só as artes são capazes de descrever o lar, porque essa descrição é uma lacuna noutras áreas. A casa importa, mas é o lar que tem significado"
(Only the arts are capable of describing home, because that description is absent in other fields. The house matters, but it is the home that carries meaning.)

"O ruído que fazem os livros abertos sobre esta mesa: murmuram [...] a audição, longínqua, irreal, de cantos gregorianos, na frescura de uma igreja visitada [...] a leitura, como esses cantos, inventa algo da nossa alma."
(The noise made by the books opened on this table: they murmur [...] the distant, unreal sound of Gregorian chants, in the coolness of a church visited [...] reading, like those chants, invents something of our soul.)

"...indefinido e doce passeio por pomares luminosos, aqueles mesmos evocados no século XII por Guerric d’Igny: 'Passeais por tantos jardins quantos livros ledes'"
(...an undefined and sweet stroll through luminous orchards, the very ones evoked in the 12th century by Guerric d’Igny: 'You wander through as many gardens as the books you read'.)
Profile Image for Sara Oliveira.
61 reviews6 followers
September 7, 2025
"Seria expectável que um grande leitor fosse aquele com menos livros porler na sua biblioteca, pois leu muitíssimo, mas não é isso que acontece: o melhor leitor tem sempre cada vez mais livros por ler. Quanto mais lê, mais
essa lista aumenta."
Profile Image for Catarina Godinho e Santos.
3 reviews
August 26, 2025
“A interioridade plena que o leitor consegue ao silenciar-se mostra que a leitura não se limita a uma mera decifração de símbolos ou à descodificação de signos; configura-se como a mais madura prática do espírito, uma forma de nos posicionarmos perante o mundo com a atitude própria de quem escuta - com o corpo inteiro, com a alma inteira.”
Profile Image for João Teixeira.
2,358 reviews46 followers
January 22, 2026
Textos curtos em forma de ensaio, com pequenas curiosidades e citações de autores conhecidos sobre o tema genérico do prazer de ler ou o gosto pela literatura. Reminiscente da série Enciclopédia da Estória Universal, não fosse Afonso Cruz igualmente o seu autor... Mas enquanto que as entradas deste suposta Enciclopédia são fictícias, as da série do Vício dos Livros são bem mais reais e extensas e, por isso, altamente recomendáveis.
Profile Image for Celia Pina.
112 reviews1 follower
January 17, 2026
Pequenos textos sobre o prazer de ler. Gostei muito de ler,muito interessante. Primeiro do ano 🥳

"o melhor leitor tem sempre cada vez mais livros por ler. Quanto mais lê, mais essa lista aumenta."
Profile Image for André Pereira.
Author 3 books19 followers
January 4, 2026
Pretende ser uma espécie de Manual da Literatura, onde se tenta explicar como se escreve, como se lê, quais as boas e quais as más práticas de escritores e de leitores - obviamente, é impossível explicar qualquer uma destas coisas. Portanto, este livro não passa de um panfleto de curiosidades sobre algumas pessoas que escrevem e sobre algumas pessoas que lêem - escrito por uma pessoa que julga saber escrever. É por isso que considero essencial a sua leitura - para sabermos o que está errado nisto da vida.
Profile Image for Inês.
355 reviews57 followers
February 13, 2026
À semelhança do primeiro volume, neste livro encontramos uma coleção de pequenos textos e ensaios sobre livros, a literatura, a experiência de ser leitor. Alguns baseados em factos, outros nas memórias e observações do autor, todos os textos são um convite a pensar na importância dos livros na nossa vida e na experiência humana.

Para ler aos bocadinhos, refletir no que estamos a absorver, e revisitar os favoritos.
Profile Image for Andreia Morais.
477 reviews33 followers
Read
August 10, 2025
O Vício dos Livros II ensina, aguça a curiosidade e prova que é «possível compreender a vida através da literatura». É um livro precioso, no qual me senti sempre incluída, que me deixou a pensar na necessidade que temos de tornar a leitura mais apelativa, já que a gratificação não é imediata, na obra que deixa de ser do autor assim que é publicada, já que o leitor nasce e lhe atribui novos significados, na escrita enquanto manifesto de liberdade, no preconceito em relação a determinados ramos literários, na importância do silêncio e na solidão que parece ser imprescindível para os momentos de criação.

Opinião completa aqui: https://andreiapmorais.blogspot.com/2...
Profile Image for Nuno.
113 reviews5 followers
October 21, 2025
Ainda melhor que o volume anterior…
É um prazer enorme ler alguém tão apaixonado pelos livros a conseguir transmitir essa paixão de forma tão clara e entusiasmada…
Por entre factos da vida do escritor a comparações e analogias entre uma panóplia enorme de autores e obras, não deixando de lado os episódios cómicos ou curiosos, somos invadidos por uma torrente de informação que é como uma sobremesa farta para quem tem esta paixão pelos livros e a literatura.
Profile Image for Ana Rita Ramos.
287 reviews5 followers
March 19, 2026
3.5⭐

Gosto sempre de ler Afonso Cruz. Neste livro ele mistura literatura e pintura numa combinação harmoniosa.
Apresenta inúmeras referências bibliográficas, dando a conhecer autores que eu não conhecia e recordando outros.
É um livro intelectual e interessante.
Profile Image for Inês Lóio.
125 reviews6 followers
June 7, 2025
“Olhe-se para a capa de um livro como para as pálpebras de uns olhos fechados. “
Profile Image for Cláudia Guedes da Silva.
99 reviews18 followers
June 24, 2025
Que maravilha de livro ❤️📖❤️, é só o que posso dizer de mais um livro sobre livros, leitura e leitores. Todas estas referências bibliográficas fazem as delícias de qualquer leitor apaixonado e formam o paraíso para os melhores livrónicos!
Profile Image for Graciosa Reis.
553 reviews54 followers
January 31, 2026
“Não sei bem o que é pior, se queimar livros ou não os ler.” (p. 28) Afonso Cruz escolhe esta frase de Brodsky para abrir um dos seus textos, mas ela poderia muito bem abrir o livro inteiro. É uma citação que funciona como alerta e como diagnóstico. A violência explícita do “queimar livros” é fácil de reconhecer; a violência silenciosa de ”não os ler” é mais subtil, mais contemporânea e, talvez, mais perigosa. É neste intervalo entre o visível e o invisível que 𝑶 𝒗í𝒄𝒊𝒐 𝒅𝒐𝒔 𝒍𝒊𝒗𝒓𝒐𝒔 𝑰𝑰 se instala.

O livro é composto por pequenos textos que nascem quase sempre de uma citação. Mas Cruz não usa essas referências como ornamento ou demonstração de erudição. Usa-as como detonadores de pensamento. Cada frase alheia abre uma porta para uma reflexão que é simultaneamente íntima, filosófica e profundamente literária. Borges, Bobin, Levi, Tchékhov, Lewis, Green, Eco e tantos outros entram no livro como companheiros de conversa, não como intelectuais distantes.

Uma das questões que atravessa o livro e que o torna tão actual, é a pergunta “Como se formam leitores?” (p. 11). Afonso Cruz desmonta a ideia de que a leitura se ensina como se ensina uma técnica. Para ele, formar leitores não é impor, é contagiar. Não é prescrever, é despertar. Não é transformar a leitura numa obrigação, mas criar condições para que ela se torne um gesto de liberdade. A leitura nasce do exemplo, do espanto, da curiosidade, nunca da imposição.

Outro eixo fundamental do livro é o prazer da leitura de bons livros. Cruz escreve com a convicção de que a literatura amplia o mundo, afina o olhar, desarruma certezas. Ler é uma forma de alegria, uma alegria íntima, silenciosa, que transforma quem a pratica. E essa alegria não se mede em números de páginas, mas na intensidade do encontro. “Um texto costuma ganhar muito quando sabe respeitar o silêncio do leitor.” (p. 117)

Daí nasce também uma das ideias mais deliciosas do livro: ter mais livros do que aqueles que se podem ler (tsundoku). Longe de ser um problema, é para o autor um sinal de esperança. Uma biblioteca que nos ultrapassa é uma biblioteca viva, um horizonte, uma promessa. Os livros que ainda não lemos são futuros possíveis. Não são tarefas pendentes; são mundos à espera.

E é precisamente no penúltimo texto que ele formula uma das imagens mais belas do livro: “Os livros são animais lentos. É preciso deixá-los pousar, voltar a pegar neles, pô-los ao colo...” (p. 156). Esta frase ilumina toda a sua e, também minha, visão da leitura: os livros têm um tempo próprio, pedem cuidado, pedem demora. Não se deixam domesticar pela pressa. São organismos vivos que exigem presença.

Mas o livro não se limita a celebrar. Ele também alerta. Afonso Cruz critica a leitura superficial, literal, apressada, que passa pela superfície das palavras sem tocar o seu subtexto, sem captar a ironia. Num tempo de velocidade e fragmentação, a leitura profunda torna-se um acto de resistência. Ler com atenção, com demora, com disponibilidade para o que está nas entrelinhas é, hoje, quase um gesto contracorrente. E é aqui que a frase de Brodsky volta a ecoar: não ler é apagar; ler sem profundidade é não ver.

No conjunto, 𝑶 𝒗í𝒄𝒊𝒐 𝒅𝒐𝒔 𝒍𝒊𝒗𝒓𝒐𝒔 𝑰𝑰 é um livro que pensa a leitura, a escrita, os livros como relação, como liberdade, como prazer e como responsabilidade. Um livro que nos lembra que os livros não são apenas objectos, mas criaturas que nos acompanham, nos moldam e nos devolvem a nós mesmos. Um livro que, sem levantar a voz, defende a importância de ler bem, ler devagar, ler com espanto.

67 reviews
July 9, 2025
“O Vício dos Livros II” de Afonso Cruz
Continua Afonso Cruz a dissertar sobre o Vício dos Livros …
E diz, no capitulo “ Ler ou não ser, eis a questão”: “Por norma, a leitura não tem uma gratificação imediata e contraria as nossas características gregárias, isolando-nos dos outros e do mundo, impondo algum silêncio, exigindo atenção, concentração e, como se tal não bastasse, obriga ao esforço de descodificação. “…” ninguém diria ser uma actividade minimamente recompensadora. A pessoa debruçada sobre um livro, alheada, imóvel, não parece estrar a viver um turbilhão de emoções.”
Mais à frente:” Parafraseando Barthes, o preço para o nascimento do leitor é a morte do autor, deixando este de ter autoridade sobre a própria criação: o texto passa a existir como uma entidade independente, aberta a interpretações ilimitadas, deixando definitivamente a casa dos pais.”
E, para nos demonstrar como “a expressão foi criada para explicar aqueles momentos em que a matéria ou determinados eventos se tornam algo mais, ganham vida, cor, emoção. Ganham um sentido poético.” Afonso Cruz cita Raul Brandão no livro “A Pedra ainda espera dar flor”: “Por ventura a noite de luar, tácita, misteriosa e profunda, existiu sempre como hoje? Não; Criaram-na, repartiram alma com ela, os poetas, que são os grandes escultores da natureza; vós todos, músicos e pintores, criadores, que ao clarão da forja amassais barro, fundis, comunicais ao mármore ou a imaterialidades uma parte dessa força desconhecida que faz rolar os mundos e transforma o seco abecedário num gigânteo sonho de beleza”.
Para acabar, a referência a Brodsky no que diz respeito aos maus governantes e gestores públicos:” Não defendo a substituição de Estado por uma biblioteca, embora seja assaltado por este pensamento com frequência; Mas não tenho dúvidas de que, se tivéssemos escolhido os nossos líderes com base na sua experiência de leitura e não nos seus programas políticos, haveria muito menos sofrimento na Terra.”
E tantas outras referências a diversos escritores que Afonso Cruz partilha connosco, com uma análise cheia de sentido de humor e inteligência.
870 reviews
June 1, 2025
Livro para ler e reler (fi-lo pela primeira vez assim que acabei a sua leitura), abraçando toda a sua materialidade e a liberdade que dá o silêncio entre as palavras, sabendo sempre que a ele posso regressar quando quiser, a essa rede a que se junta quem lê, quem escreve e o que é escrito. Não estamos sós, nós os leitores, a leitura também é um acto político, e dele precisamos mais do que nunca.

«Os livros são animais ferozes. É preciso deixá-los pousar, voltar a pegar neles, pô-los ao colo. São feras vagarosas que exigem que os acariciemos na cabeça, nas costas na barriga. Os livros não se aprendem em segundos. Requerem tempo, obrigam a uma espécie própria de contemplação a que chamamos leitura, e por vezes são tão demorados que vivem milénios. Vão ficando.» P. 156
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