Este livro expõe um fenómeno fascinante, mas igualmente o poder cada vez mais extraordinário de seis líderes bilionários, cuja riqueza e influência competem hoje com as dos Estados.
Elon Musk, Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, Bill Gates e Sergey Brin e Larry Page moldam os mercados, mentalidades e leis. Não respondem a ninguém e não foram eleitos nem mandatados por ninguém, uma situação perigosa e que não tem precedentes na história das nossas democracias. Christine Kerdellant analisa com perspicácia o sistema socioeconómico que tornou possíveis estes percursos, examinando os vazios políticos e regulatórios que eles preencheram de forma brilhante.
Foi o meu último livro de 2025 e o primeiro de 2026 e é um desafio a uma tomada de consciência que causa um desconforto difícil de digerir. A jornalista francesa Christine Kerdellan traça um perfil dos homens detentores de recursos sem fim e criadores de serviços que se tornaram omnipresentes nas nossas vidas e sem os quais já não conseguimos viver. Falo de Larry Page e Sergey Brin, pais da Google - Alphabet; Elon Musk, o sul-africano que fez fortuna no PayPal e é o mentor imprevisível do ecossistema Tesla, SpaceX, X, Grok e Boring Company; Mark Zuckerberg, o 'pai' do Facebook; Bill Gates, mentor do sistema operativo que dominou o mundo e hoje filantropo (o maior financiador privado da OMS); e Jeff Bezos, o rosto da Amazon, da Blue Origin e de uma miríade de soluções que estão a pulverizar velhos paradigmas de negócio. O livro disseca a 'estratégia eucaliptal' implacável de domínio destas empresas: secam qualquer hipótese de a concorrência persistir ou florescer. Homens que se sentem omnipotentes, mas que, conscientes da sua finitude, alimentam todas as demandas para conquistar a imortalidade. Claríssima fica a nossa impotência e ingenuidade sobre a dependência, por vezes tóxica, que assumimos perante estas empresas transnacionais. É um domínio absoluto, muitas vezes imune às leis e às fiscalidades nacionais, com algoritmos que estão não só a formatar, mas a impactar negativamente a saúde mental de jovens em todo o planeta. Mas também há espaço para alguma esperança e para uma reflexão crucial: que opções restam aos Estados democráticos para regular o poder destes homens que já rivaliza com o das nações? São dilemas que se colocam à União Europeia, que está a fazer um esforço concertado para combater monopólios, obrigar estas plataformas a pagarem os seus impostos em território europeu, conter a inteligência artificial irresponsável, proteger os jovens e criar um ambiente legislativo que seja garante da sobrevivência dos media. É uma leitura obrigatória para cidadãos conscientes num mundo que acelerou sem travões, onde as fronteiras se esbatem e a nossa zona de conforto democrática está sob ameaça.
O livro levanta questões muito sérias e apresenta informação para mim nova, nomeadamente no que respeita aos projetos mais futuristas dos multibilionários, que eu desconhecia. No entanto, as fontes apresentadas demonstram a veracidade da informação. Mesmo na vertente mais presente, a relação dos techno bros com o poder político (no sentido mais lato) já é suficientemente bem explicada e informativa da vantagem de uns sobre os outros. Sendo a autora francesa, levanta várias questões que deveriam estar no centro da preocupação da União Europeia, mas que não estão.
Um livro de leitura relativamente fácil, acessível, mas de grande importância