«Vamos ser fracas, está bem, Jug? Ser fraco é muito mais agradável do que ser forte.»
Que portas se fecham — e que janelas se abrem — nas vidas de duas irmãs em luto pela morte do velho pai, o coronel?
Da coleção Little Black Classics
LITTLE BLACK CLASSICS
O essencial dos clássicos
Ensaios, contos, poemas, dramas, cartas, manifestos – testemunhos de ideias que ora mudaram, ora sustentaram o mundo nas várias formas que assumiu desde a invenção da palavra. Apresentamos os Little Black Classics, uma coleção que celebra a literatura com textos breves de grandes escritores.
Este conto, escrito em 1920 por Katherine Mansfield e incluído na antologia Festa no Jardim e Outros Contos, foi originalmente publicado em maio de 1921 no jornal literário London Mercury.
Kathleen Mansfield Murry (née Beauchamp) was a prominent New Zealand modernist writer of short fiction who wrote under the pen name of Katherine Mansfield.
Katherine Mansfield is widely considered one of the best short story writers of her period. A number of her works, including "Miss Brill", "Prelude", "The Garden Party", "The Doll's House", and later works such as "The Fly", are frequently collected in short story anthologies. Mansfield also proved ahead of her time in her adoration of Russian playwright and short story writer Anton Chekhov, and incorporated some of his themes and techniques into her writing.
Katherine Mansfield was part of a "new dawn" in English literature with T.S. Eliot, James Joyce and Virginia Woolf. She was associated with the brilliant group of writers who made the London of the period the centre of the literary world.
Nevertheless, Mansfield was a New Zealand writer - she could not have written as she did had she not gone to live in England and France, but she could not have done her best work if she had not had firm roots in her native land. She used her memories in her writing from the beginning, people, the places, even the colloquial speech of the country form the fabric of much of her best work.
Mansfield's stories were the first of significance in English to be written without a conventional plot. Supplanting the strictly structured plots of her predecessors in the genre (Edgar Allan Poe, Rudyard Kipling, H. G. Wells), Mansfield concentrated on one moment, a crisis or a turning point, rather than on a sequence of events. The plot is secondary to mood and characters. The stories are innovative in many other ways. They feature simple things - a doll's house or a charwoman. Her imagery, frequently from nature, flowers, wind and colours, set the scene with which readers can identify easily.
Themes too are universal: human isolation, the questioning of traditional roles of men and women in society, the conflict between love and disillusionment, idealism and reality, beauty and ugliness, joy and suffering, and the inevitability of these paradoxes. Oblique narration (influenced by Chekhov but certainly developed by Mansfield) includes the use of symbolism - the doll's house lamp, the fly, the pear tree - hinting at the hidden layers of meaning. Suggestion and implication replace direct detail.
O conto As Filhas do Falecido Coronel não assenta num enredo tradicional. Acompanhamos duas irmãs, Constantia e Josephine, após a morte do pai, um homem autoritário que dominou as suas vidas.
Após a morte do pai, seria de esperar que as irmãs conquistassem alguma liberdade, mas, em vez disso, revelam um bloqueio emocional e mostram-se incapazes de tomar decisões. O peso da figura paterna mantém-se mesmo após a sua morte, como se a sua autoridade tivesse sido completamente interiorizada.
O conto termina de forma ambígua, mas profundamente simbólica, revelando a incapacidade das irmãs de romper com a vida que sempre conheceram. Essa incapacidade torna-se evidente no diálogo final:
— Não achas que talvez… — começou. Mas Josephine interrompeu. — Estava a pensar se agora… — murmurou. Pararam; esperaram uma pela outra. — Continua, Con — disse Josephine. — Não, não, Jug; tu primeiro — disse Constantia. — Não, diz o que ias dizer. Tu é que começaste — insistiu Josephine. — Eu… prefiro ouvir primeiro o que ias dizer — retorquiu Constantia. — Não sejas tola, Con. — A sério, Jug. — Connie! — Oh, Jug! Uma pausa. Depois Constantia disse debilmente: — Não posso dizer o que ia dizer, Jug, porque me esqueci do que era… do que ia dizer. Josephine ficou em silêncio durante um momento. Contemplou uma grande nuvem, onde antes tinha estado o Sol. Depois respondeu laconicamente: — Eu também me esqueci.
As Filhas do Falecido Coronel de Katherine Mansfield, publicado pela primeira vez em 1921, este conto está incluído na colectânea Festa no Jardim e Outros Contos.
O conto não trata o tema de luto sentimental, explora temas como a repressão emocional, a dependência e a luta pela autonomia, utilizando o humor e a ironia para abordar questões profundas da condição humana.
Em As Filhas do Falecido Coronel, Katherine Mansfield mostra como até um morto continua a mandar — e fá-lo com uma ironia tão fina que o leitor se vê a rir no meio da tragédia. O pai morre, abre apenas um olho, e as filhas, imaginam que até debaixo da terra ele poderá ainda ralhar com elas.
"Nessa altura, enquanto estavam ali de pé, sem saberem o que fazer, abriu um olho de repente. Oh, que diferença teria feito, que diferença para a memória que guardariam dele! Teria sido bem mais fácil contar às pessoas se ele tivesse aberto os dois! Mas não - só abriu um. Fixou-as furiosamente por um momento e depois...apagou-se."
"O que diria o pai, quando descobrisse? Isto porque iria descobrir, mais cedo ou mais tarde. Descobria sempre. «Enterrado. Vocês duas mandaram enterrar-me!» Josephine ouviu as pancadas da bengala. Oh, o que responderiam? Que desculpa poderiam dar? Parecia um ato tão assustadoramente insensível! Era uma malvadez aproveitarem-se de alguém pelo facto de, nesse momento, por acaso, não poder fazer nada."
Mansfield transforma momentos solenes em cenas absurdas e cómicas, revelando o quanto a vida delas está dominada pelo medo, pelo “bem parecer” para os outros e o peso da sociedade.
O conto expõe a total dependência das irmãs: presas à autoridade do pai mesmo após a sua morte, continuam a obedecer e a imaginar o que ele aprovaria ou reprovaria. Elas não tomam decisões por si próprias, consultam-se constantemente e vivem obcecadas com pequenas formalidades.
O conto também revela como a vida das irmãs foi moldada pela família e pelas convenções sociais: solteiras e isoladas, questionam-se sobre o que poderiam ter feito se a mãe não tivesse morrido e lamentam a dificuldade em conhecer homens, mostrando como a obediência e a repressão afectaram toda a trajectória das suas vidas.
As Filhas do Falecido Coronel é, assim, um relato curto com crítica social e psicológica, e uma reflexão sobre a dependência emocional e a falta de autonomia. Um conto que expõe a fragilidade humana e a força das convenções sociais.
O conto começa com a morte do coronel Pinner, cuja presença continua a dominar a casa e a vida das suas duas filhas, Josephine e Constantia. Apesar de o pai já ter falecido, as irmãs mantêm-se num estado de medo e submissão, incapazes de agir com autonomia, como se ele ainda estivesse vivo. O corpo permanece na casa durante algum tempo, e o simples facto de terem de entrar no quarto do pai ou lidar com os seus pertences causa-lhes ansiedade e hesitação.
Enquanto tratam dos preparativos do funeral, as duas revelam uma enorme dificuldade em tomar decisões, mesmo as mais simples, preocupando-se constantemente com o que o pai teria aprovado. Dependem da criada Kate para resolver questões práticas, o que evidencia a sua falta de independência. Ao longo deste processo, surgem memórias fragmentadas que mostram como o coronel era autoritário, rígido e emocionalmente distante, tendo condicionado completamente a personalidade das filhas, que cresceram reprimidas e sem identidade própria.
Durante a noite após a morte, o ambiente torna-se ainda mais pesado e inquietante, e as irmãs sentem medo, como se a presença do pai ainda estivesse ali. Pensamentos confusos e recordações misturam-se, reforçando a ideia de que o controlo do coronel continua vivo dentro delas. Após o funeral, parece surgir uma possibilidade de mudança: pela primeira vez, as irmãs começam a pensar no futuro e na hipótese de viverem de forma diferente, talvez mais livres e independentes.
No entanto, quando tentam conversar sobre isso e expressar o que sentem ou planeiam fazer, não conseguem organizar os seus pensamentos nem tomar qualquer decisão concreta. As ideias escapam-lhes, e o momento de possível transformação perde-se. O conto termina com as duas irmãs presas ao mesmo estado de indecisão e dependência, sugerindo que, apesar da morte do pai, continuam incapazes de se libertar da influência que ele exerceu sobre toda a sua vida.
Achei o conto com uma mensagem deveras importante porém a história em si não me prendeu muito
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