«Nuno Júdice era um ávido consumidor de cadernos, tantas vezes comprados em museus, outra das suas paixões. Estes cadernos ora eram preenchidos compulsivamente quando tinha uma ideia ou conceito a desenvolver, ora com um único poema, como se desejasse anotar aquilo que simplesmente pensara, como se desse pequeno texto pudessem magicamente nascer outros poemas e outras ideias. Logo após a morte de Nuno Júdice, numa das minhas primeiras visitas ao seu acervo de inéditos, apareceu-nos um caderno de capa de couro no meio de tantos outros, que pela primeira vez tivemos oportunidade de folhear com mais atenção. Tratava-se de um nobre caderno de 30 folhas cosidas, num papel branco cru de gramagem alta, em cuja primeira página constava, num jogo a três cores: Livro de Caligrafia.» (Ricardo Marques, responsável pela edição deste livro)
NUNO JÚDICE nasceu na Mexilhoeira Grande, Portimão, em 29 de Abril de 1949. Licenciou-se em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, vindo depois a ser professor do ensino secundário. Foi Professor Catedrático da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde se doutorou em Literaturas Românicas Comparadas, em 1988 com a tese O espaço do conto no texto medieval. Colaborou ainda nas publicações O Tempo e o Modo e Jornal de Letras. A partir de 1997, foi nomeado Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal e Director do Instituto Camões, em Paris. Foi comissário para a área da Literatura de «Portugal como país-tema da 49.ª Feira do Livro de Frankfurt». Publicou um livro de divulgação da literatura portuguesa do séc. XX em França: Voyage dans un siècle de littérature portugaise (1993) reeditado e revisto na edição portuguesa Viagem por um século de literatura (1997). Tem livros traduzidos em Espanha, Itália, Venezuela, Inglaterra e em França, onde está publicado na colecção Poésie/Gallimard com Un chant dans l'epaisseur du temps. Escreveu obras de ficção, como Plâncton (1981), A Manta Religiosa (1982), O Tesouro da Rainha de Sabá (1984), Vésperas de Sombras (1999) e Por Todos os Séculos (1999); Publicou o primeiro livro de poesia em 1972: A Noção do Poema. Seguiram-se Crítica Doméstica dos Paralelipípedos (1973), O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1975), O Voo de Igitur Num Copo de Dados (1981), A Partilha dos Mitos (1982), Lira de Líquen (1985, Prémio Pen Club Português), A Condescendência do Ser (1988), Enumeração de Sombras (1989), As Regras da Perspectiva (1990), Um Canto na Espessura do Tempo (1992), Meditação sobre Ruínas (1994, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, 1995), O Movimento do Mundo (1996), A Fonte da Vida (1997), Raptos/Enlévements/Kidnappings (1998, poemas escolhidos, com ilustrações de Jorge Martins), Teoria Geral do Sentimento (1999), Linhas de Água (2000) e A Árvore dos Milagres (2000). De entre as suas obras de ensaio destacam-se A Era do «Orpheu» (1986), O Espaço do Conto no Texto Medieval (1991), O Processo Poético (1992) e As Máscaras do Poema (1998), sendo esta última obra uma recolha de muitos dos seus textos de ensaio e crítica. Em 1996, foi lançada a revista Tabacaria dirigida pelo escritor. Recebeu os mais importantes prémios de poesia portugueses: Pen Clube (1985), D. Dinis da Fundação Casa de Mateus (1990) e da Associação Portuguesa de Escritores (1994), este último com o livro Meditação sobre Ruínas que foi finalista do Prémio Europeu de Literatura, Aristeion. Nuno Júdice recebeu ainda o Prémio de Poesia Pablo Neruda e o Prémio da Fundação da Casa de Mateus. Em 2001, publicou Pedro, Lembrando Inês e Cartografia de Emoções, um livro de poesia. No mesmo ano, Rimas e Contas, integrada na colectânea Poesia Reunida 1976/2000, foi reconhecida com o Prémio Crítica 2000, pelo Centro Português da Associação Internacional dos Críticos Literários (AICL). Faleceu a 17 de Março de 2024.
O "Livro de Caligrafia" faz jus ao seu nome. Apresenta-nos uma cópia dos poemas escritos à mão por Nuno Júdice, dando aos leitores a oportunidade (e o privilégio) de desfrutar da sua poesia e de admirar a sua caligrafia. Certos poetas não precisam de escrever coisas muito complexas para nos tocarem. Por vezes, o mais simples é o mais bonito. Sejam desabafos daquilo que vemos, dos lugares onde estamos ou das pessoas que amamos. Nuno Júdice é a prova disso: a simplicidade dá uma poesia inesquecível.
Apesar de ter gostado da originalidade do título e de alguns dos textos (sobretudo os epigramáticos), Meditação sobre Ruínas, geometria variável ou Pedro, lembrado Inês, serão sempre os meus favoritos.