Fedra passou mais de vinte anos nalguns dos piores lugares da Terra. Depois de ter estado no Ruanda, Kosovo, Iraque, Mali, a antropóloga forense regressa por fim a casa. O seu novo trabalho no Instituto de Medicina Legal obriga-a a mergulhar diariamente nas profundezas sórdidas da dark net, uma experiência irreparavelmente solitária. Stefan vive na cabana que construiu numa floresta. Após décadas de nomadismo, o antigo repórter de guerra alemão leva uma vida de eremita, procurando na sua relação com a natureza um contraponto à crueldade humana que testemunhou. Leonor, uma adolescente de 14 anos, isola-se no apartamento familiar, num bairro privilegiado de Lisboa, após ser vítima de um crime sexual. Helena, a mãe, revela-se incapaz de lidar com o trauma e refugia-se numa obsessão que ameaça destruí-la a ela e à filha. Nos bastidores destas vidas que se entrelaçam, Amélia, uma mulher no limite da memória e da sobrevivência, guarda a chave de um mistério que poderá nunca ser desvendado. O regresso de Tânia Ganho à ficção apresenta-nos pessoas que enfrentam os seus demónios num momento de viragem das suas vidas e do mundo.
Tânia Ganho was born in Coimbra, in 1973, and starting writing at an early age. When she was 12, she won a national literary competition, "Ler Melhor para Viver Melhor", but it was only in 2005 that she decided to publish her first novel, "A Vida Sem Ti" ("Life Without You", Oficina do Livro), followed by "Cuba Libre" (Oficina do Livro, 2007), "A Lucidez do Amor" ("The War Wife", Porto Editora, 2010) , "A Mulher-Casa" ("La Femme-Maison", Porto Editora, 2012), and "Apneia" (Casa das Letras, 2020), a disturbing story about domestic violence and child abuse.
"Apneia" was semifinalist of the Oceanos Prize and finalist of the Bertrand Prize for Best Portuguese Novel of the Year. In 2021, Tânia Ganho won a six-month literary grant from the Ministry of Culture in order to write her next novel, set in Lisbon and in a wolf conservation centre.
In 2012, she won the Cidade de Araçatuba Brazilian Prize for best international short-story.
Tânia Ganho taught translation as guest lecturer at the University of Coimbra and has been working as a literary translator for the past two decades. She has translated authors such as Angela Davis, Maya Angelou, Amor Towles, Alice Walker, Leïla Slimani, Rachel Cusk, Chimamanda Adichie, David Lodge, Hervé Le Tellier, among many others.
She is regularly invited to participate in literary festivals and to give talks on translation and writing.
Se pudesse, dava seis ou sete estrelas a este livro.
Uma escrita belíssima, uma crueza sempre latente, palavras e silêncios numa dança perfeita. O que fica por dizer, os gestos inacabados, guerras interiores, caseiras, europeias, ancestrais. Feridas abertas e mexer lá bem fundo, vai doer e vamos mesmo assim.
Vai ser difícil encontrar um livro melhor do que este durante 2025.
«Gostei muito de ler este Lobos, mas acho que é um daqueles livros cujo efeito de nos levar a refletir começa depois de terminarmos. Não foi uma leitura sôfrega como Apneia — e nem creio que tenha que ver com a densidade dos temas, mas sim com a maneira como Tânia Ganho entrelaçou as perspetivas de todas estas personagens —, mas foi, sem dúvida, uma leitura que me deu muito mais material para pensar.»
3.5 ⭐️ “Fedra funga e, inesperadamente, ri-se. - Lembras-te da tia Carolina, que se maquilhava antes de se deitar? Helena ri-se também, abanando a cabeça. - Para morrer bonita, se a morte chegasse de noite.”
Apesar desta leitura trazer temas interessantes como a velhice, a adolescência e os seus perigos, o empobrecimento das relações humanas, os conflitos mundiais e até a relação com a natureza, não me consegui conectar com as personagens. Apesar de não ter superado as minhas expectativas, para mim continua a ser uma escritora de eleição, que neste livro prima pela escrita e pelo encandeamento das várias histórias.
Ainda não conhecia a ficção da autora, tendo fugido do Apneia o mais que pude (por causa do tema). Mas depois de O meu pai voava, quis muito experimentar a escrita sóbria, límpida com lirismo ocasional noutro formato, e não podia ter escolhido melhor. Leria uma saga inteira sobre Fedra, o seu trabalho e a sua família. A autora tem uma argúcia e uma honestidade intelectual notáveis: a forma informada, verdadeira e congruente como fala de temas médicos, de saúde mental, de demências, mas também de violência, de abuso sexual, da guerra e da crueldade humana; a delicadeza mas firmeza e verdade com que trata os temas são verdadeiramente louváveis, e não perturbam, antes acrescentam, ao exercício literário. Ganho não escreve um panfleto sobre temas emotivos para arrancar a lágrima fácil ou sensibilizar para uma causa: traça o retrato humano das personagens e desfia o seu destino com mestria. Nota-se o trabalho dedicado de pesquisa e estudo que permeou a escrita (e também se nota que a autora é filha de médico, it takes one to know one). A escrita de Tânia Ganho tem sobretudo ecos de verdade, ressonância de realidade, característica da boa ficção.
Tânia Ganho é das minhas autoras nacionais preferidas. A escrita tem beleza e o que conta, autenticidade. Fedra cativa e seguimos esta antropóloga forense sem hesitar durante a pandemia. “Os mortos contam histórias e, com maior ou menor grau de resistência, entregam-se aos especialistas”. E com esta afirmação temos uma ideia de que mais uma vez não será um tema fácil. Um tema que não se esgota e que não é habitual em literatura mas os abusos com menores doem.
Sei que a Tânia se interessa pelos lobos. O lobo ibérico e o título não me surpreendeu. Stefan é uma personagem que se acarinha no seu santuário de lobos. Helena e Leonor são mãe e filha numa difícil relação e Amélia a mãe de Fedra e Helena com Alzheimer. Tanto que este romance nos dá. Personagens tão ricas que, permanecem connosco muito depois de pararmos de ler. Todas elas. Personagens que, estão para além do banal quotidiano no que vivenciaram e que tem que prosseguir. Também como leitora que não se fica indiferente e os lobos como Estrela comoveram-me. Um contrabalanço incrível. Amei.
Lobos é, antes de mais, um romance de personagens. Tânia Ganho constrói um enredo povoado de mulheres marcadas por silêncios, culpas e traumas, onde cada uma carrega uma ferida antiga que se vai revelando aos poucos. É um livro sobre sobrevivência — a dos lobos, mas também a dos humanos.
Amélia, mãe de Fedra e Helena, avó de Leonor, vive sob o peso do Alzheimer.
Fedra, antropóloga forense, trabalha no Instituto de Medicina Legal e investiga pedófilos na dark web. É uma mulher racional, científica, com uma frieza que, por vezes, parece a única forma possível de se proteger do horror que observa. Fiquei com pena de que a sua profissão — tão rica em possibilidades — não tivesse sido mais explorada.
Helena, a outra filha de Amélia, vive aprisionada numa insatisfação constante; é difícil simpatizar com ela, sobretudo na forma como lida com a filha, Leonor, uma adolescente de 14 anos vítima de sexting e de uma exposição cruel.
Stefan, um velho conhecido de Fedra, é um antigo fotógrafo de guerra que acaba em Portugal, onde cria um santuário de lobos.
Há muitos temas em Lobos: exposição sexual não consentida, o abuso sexual, a perda da memória, a dark web, a pandemia, os horrores da guerra e, claro, os próprios lobos. Por vezes, são tantos temas que alguns acabam por ficar por desenvolver.
A escrita é, como sempre, impecável. Tânia Ganho escreve muito bem e é, claramente, uma autora perfeccionista. Um romance sólido, em que os lobos se destacam e dão força à história.
Quem são os lobos? Quem são, afinal, os predadores? Num momento da narrativa, Fedra decide começar um novo mural, "O mural dos lobos, para compensar o mural dos predadores. A beleza animal a equilibrar a crueldade humana."
Em que categoria se insere este livro? Talvez só nós, humanos, nos permitimos rotular tudo, até pensamentos e sentimentos. Não é, para mim, um livro de ficção. Entendo-o como um livro de alerta, um despertar de consciências. Todos os personagens têm um papel fulcral, toda a narrativa é notável.
De uma forma profundamente inteligente, sem reservas nem pudores, numa linguagem tão acessível quanto iluminada, exímia, Tânia Ganho esventra a forma de viver da nossa sociedade. Apresenta um rol de exemplos recentes que pode assustar. Talvez devesse ser recomendado a todos os responsáveis por crianças e adolescentes, a todos os responsáveis por adultos.
A nossa espécie é gregária. Vivemos em alcateias. Biologicamente, etologicamente, o comportamento humano não nos diferencia das feras. Numa perspectiva evolutiva, as emoções, a empatia, a agressão, as decisões sociais, a criação de laços deixa-nos porventura em diferencial negativo. Agimos em grupo, atacamos em grupo, aceitamos em grupo, julgamos em grupo, defendemos em grupo (e o grupo), sobrevivemos em grupo, adoramos em grupo, odiamos em grupo, desapegamo-nos em grupo, alheamo-nos em grupo, cegamos (sim, ficamos cegos) em grupo. Quais são as nossas estratégias de sobrevivência? Sobrevivência da espécie, entenda-se. Quem são os predadores?
Página do Gabinete de Curiosidades de Leonor (Eurídice) Pinheiro Lobo @euricidepinheirolobo
num crescendo, pouco a pouco, a leitura deste livros foi me conquistando. este é um livro para um leitor que goste de narrativas de ambiente. contrário a alguns leitores gostei imenso da tensão final e das inúmeras pontas soltas que o livro nos deixa.
Quando comecei a ler este livro, os meus sentimentos dividiram-se, houve aspectos que gostei muito, houve outros que não gostei tanto, mas esta dicotomia acentuava-se porque aquilo que eu não estava a gostar tanto ( como a linguagem explícita dos temas abordados e a forma como eram abordados), ao mesmo tempo, eu sentia que estes sentimentos eram contraditórios, porque eu via muito mérito neste livro, sem grandes spoilers, a escrita, a história, o modo como a narrativa foi construída, mas também todo o estudo da autora e o trabalho de investigação : uma narrativa cientificamente muito documentada e detalhada, a própria metáfora do título- tudo muito interessante. Mas tudo passa também por um gosto pessoal e por aquilo que eu consigo tolerar, enquanto pessoa impressionável a certas realidades sejam de ficção ou não.
No entanto, as minhas dúvidas dissiparam-se com o fim deste livro, eu já vinha condicionada por uma leitura anterior da autora « O meu pai voava» quem perde um pai sabe que sentimento é o da sua perda, quem diz um pai, alguém com quem tenhamos proximidade e cumplicidade , alguém que nos é importante e com quem crescemos. Eu adorei a sua escrita, a forma como lembrou o pai e as histórias de vida que com ele viveu, a sua maneira especial de ser. Tudo isso me lembrou o meu pai. E a escrita tão clara , tão sensível e tão intimista.
Mas neste livro, a autora muda completamente o registo talvez tenha sido essa a mudança que me fez sentir dividida.
Mas se cada página era uma surpresa com a violência retratada, violência essa baseada em factos da realidade, o fim para mim ainda foi mais surpreendente, à boa maneira clássica , a autora termina com uma nota muito interessante o seu livro . SE havia dúvidas da minha parte, elas evaporaram-se Foi sim um fim brilhante. Bom trabalho também sobre a exposição das angústias interiores dos personagens tão genuína e tão próxima a todos nós.
Pois é. Recordam aqueles professores de antigamente – porventura, ainda andam por aí mais frescos do que o lince da Malcata – que nunca davam a nota máxima, porque podia seguir-se alguma coisa "mais boa" e ficavam sem classificação? Tive bastantes. Quantos somíticos 'bom+' me pareceram merecer um 20? 😉 Porquê esta divagação? Classifiquei Apneia com 5* e agora faltam-me tentos... TG é um conhecimento recente, mas creio que já saberia identificar 2 páginas dela no meio de um canhamaço de 1000 – Apneia tem, apenas, 700 😊. Há o estilo, há a elegância na escrita, há a escolha filigrânica do encadeamento dos vocábulos e, claro, as palavras fetiche. Eu que detesto as obras 'modernas' construídas sobre 'causas' do momento, porque acho sempre que o timing é marqueteiro, e a coisa em si me soa a construto panfletário e oportunista, fico ali, conquistado. TG postula, no sentido matemático do termo. Apresenta-nos emoções, sentimentos, que não sendo evidentes, acabamos aceitando sem discussão. A escrever bem, a escrever muito bem – há, felizmente, um bom número de autores – mas aqui, encontramos uma elegância, na escrita, na argumentação, que são notáveis. Lobos é um patchwork inteligente de vidas assombradas por experiências de violência, com acompanhamento de uma linguagem singular, em que cada palavra – acredito mesmo nisto – é seleccionada com uma meticulosidade que um sommelier não coloca na harmonização mais importante. Mesmo quando a linguagem é crua, há sempre uma imensa delicadeza no tratamento das situações. De cada capítulo saímos – porque a imersão é real – mais ricos de conhecimento, de valores, de vocabulário – o que não é fácil... 😉 Estarei atento às próximas criações.
Este livro merecia uma nota mais alta, mas, infelizmente, tive alguma dificuldade em conectar-me com ele, principalmente na segunda metade, quando a história começou a andar em círculos e depois se precipitou para um final algo abrupto e incompleto, a meu ver. Além disso, senti-me um pouco cansado de algumas personagens, que me pareceram demasiado moralistas. Até percebo o porquê de serem assim, mas isso tornou-me a leitura mais aborrecida.
Temos aqui, porém, diversos elementos muito bons. Tânia Ganho consegue, com uma escrita, salvo uns anglicismos desnecessários, bastante bem trabalhada, abordar uma profusão de temas distintos e atuais, como a pedofilia, a demência, a divulgação não consensual de imagens íntimas, a traição conjugal, a pandemia de Covid-19, entre vários outros, sem que nenhum deles pareça superficial, deslocado ou tratado com displicência. Destaco, também, a habilidade bastante rara que a autora tem de retratar a vida sexual e os abusos sofridos pelas personagens de forma crua e direta, sem rodeios, mas sem se alongar demasiado em descrições exaustivas.
Em suma, fiquei bem impressionado, lerei, com certeza, mais de Tânia Ganho.
Que prazer absoluto ler Tânia Ganho! É notório o domínio total da língua pela Tânia, que usa de uma forma maravilhosa e despretensiosa, sem qualquer necessidade de se mostrar erudita, antes deixando que a sua proeza transpareça na escrita e na forma como aborda os temas escolhidos. Neste livro, seguimos várias pessoas que se encontram a ultrapassar problemas diferentes: temos uma adolescente a recuperar de uma partilha não consentida de imagens suas; a sua tia antropóloga forense cujo trabalho consiste em ver vídeos e fotos de crimes sexuais contra crianças e tentar identificar os agressores; e Stefan, um repórter de guerra que procura alguma solidão e sossego. Estas personagens vão lidar com os seus demónios pessoais e com os traumas da violência e do sofrimento que viveram ou assistiram ao mesmo tempo que vão redescobrir a beleza da vida num refúgio do lobo ibérico. É um livro excelente, que fica connosco e que nos deixa a refletir sobre pedofilia, abuso sexual, crimes de guerra, saúde mental e demência. Adorei!!
TW: partilha não consentida de conteúdo sexual de menores, guerra, abuso sexual, morte, violação de crianças, suicídio (fora de página).
Foi uma leitura bastante mais lenta que o habitual mas gostei bastante de acompanhar as personagens e, talvez por isso mesmo, tenha prolongado um pouco mais o acompanhamento desta história. As personagens eram todas muito diferentes entre si e o livro aborda várias problemáticas e facetas diferentes tais como a inevitabilidade do Alzheimer, as consequências dos traumas/stress pos-traumatico, traição/final de uma relação, entre outras. Recomendo a qualquer pessoa que o leia!
Aguardava com entusiasmo e expectativa o novo livro de Tânia Ganho. Quem já a leu saberá, certamente, porquê!
E não desiludiu! (como podia?). Este “Lobos” tem tanto para oferecer ao leitor, tanto conteúdo, tantas emoções!
Qualquer escritor com menor qualidade teria, provavelmente, criado um livro com demasiada informação. Mas Tânia Ganho tem o poder de brincar com as palavras, de ser concisa e, ao mesmo tempo, detalhada e profunda. O que resulta num livro que mexe com quem o lê, incomoda e expõe situações que habitualmente são abafadas na sociedade. Por isso mesmo, e pela forma crua como está escrito, temo que não será para todos, mas os que tiverem estômago forte, sairão, sem dúvida, mais ricos desta leitura.
O leque de personagens é vasto: Fedra, cientista, lidou toda a vida com cadáveres, tentando identificá-los após situações extremas, quer sejam guerra, violações ou assassinatos. Cansada de ver a miséria humana na sua vertente mais cruel, decide fazer uma pausa. A sua irmã, Helena, sofre uma crise existencial durante o seu segundo casamento. Ela procura algo que não sabe o que é, mas precisa de descobrir a sua essência sexual…
A sua filha, a adolescente Leonor, sofreu um duro golpe, depois de ter confiado num homem mais velho e precisa de ajuda. Será ao lado da tia Fedra que vai encontrar alguma paz.
Amélia é a mãe de Fedra e Helena e a sua doença, o Alzheimer, encontra-se em fase galopante de desenvolvimento, levando com ela as suas faculdades.
Na mesma região onde moram agora Fedra e Leonor, instalou-se também Stefan, antigo fotografo de guerra, também cansado do que já viveu, cria uma reserva de preservação do lobo (que pormenor maravilhoso este!).
E será no meio desta panóplia tão vasta de personagens que vamos viver esta história. Será sofrida aviso já. Nem sequer consegui ler muito tempo de seguida, de tal forma incomoda e, até magoa.
Esta foi a minha estreia com a autora. "Apneia" mora na minha estante desde quando ainda era uma novidade mas, por algum motivo, ainda não o li. Sou uma admiradora do trabalho da Tânia como tradutora e perdi a conta aos inúmeros livros magníficos que li, traduzidos por ela. Por isso, já há muito que tinha vontade de ler um dos seus livros. Foi este o primeiro.
A narrativa não me prendeu inicialmente mas foi crescendo e estas personagens foram-se imiscuindo nos meus dias, à medida que avançava na leitura. Há uma tensão latente em toda a narrativa que me pareceu muito bem construída, um equilíbrio entre o que é dito e os silêncios, entre os atos e os pensamentos das personagens.
Os temas, muito atuais, são abordados de uma forma natural e informada. Percebe-se que a autora é rigorosa e meticulosa, que fez um excelente trabalho de investigação. Temas difíceis como o abuso sexual de menores, a demência e a velhice, a saúde mental, as relações familiares e amorosas, num tempo de pandemia que tudo exacerbou. Como pano de fundo, a reserva e os lobos, e como a natureza e os animais podem ajudar os processos de cura e a lidar com os traumas.
Esta é uma história que continua, tal como a vida da Fedra, da Helena, da Leonor, do Stefan. As pontas soltas do final fazem todo o sentido para mim. Gostei muito.
Gosto muito da escrita da Tânia Ganho. Devorei o Apneia nuns dias de descanso, durante o verão da pandemia, e é uma história que ficou comigo até hoje. Claro que comecei este Lobos com as expectativas bem altas. É um livro diferente do primeiro, mas igualmente bem escrito. No contexto recente da pandemia, a autora aborda temas como a violência e o abuso sexual de menores, a guerra, as relações familiares, a saúde mental, a demência e a velhice. Fá-lo sem tabus, de forma autêntica, verdadeira e informada. É notável o trabalho de pesquisa da autora, o que confere grande autenticidade às personagens e à narrativa. Os temas como o abuso sexual de menores e o contexto de guerra são abordados de forma crua, real e com grande objetividade, sem floreados como já é habitual na escrita desta autora. A realidade é o que é. E é esta verdade que imprime nos seus livros que me faz gostar tanto de a ler! Numa escrita envolvente e muito cuidada, são várias as histórias que encontramos neste livro. Histórias de personagens profundamente humanas, que vamos conhecendo aos poucos, num crescendo de tensão… personagens tão bem construídas que nos levam a questionar julgamentos, a refletir sobre o mundo em que vivemos. Todas elas , de uma maneira ou de outra, procuram um refúgio onde possam encontrar cura e proteção, tal como os lobos. Inicialmente, estranhei o final… mas depois percebi que as pontas soltas, afinal, me faziam todo o sentido!
4,5 ⭐️. Talvez um bocadinho grande demais, mas li-o com rapidez e muito interesse, demorei foi a vir aqui dar a minha opinião. Trata de muitos assuntos sérios, todos relevantes e bastante duros, durante o período da pandemia: envelhecimento dos pais e a impossibilidade dos filhos cuidarem deles quando sofrem de alzheimer, a ponta do iceberg da pedofilia e pornografia infantil na dark web, exposição pública de imagens e exploração sexual de adolescentes, adultério, eu sei lá… mas tratando destes assuntos tão dramáticos, ainda assim mantem alguns valores familiares ainda de pé, e na casa da aldeia e no santuário dos lobos há um balão de oxigénio onde se pode parar para recuperar.
5*, porque não dá para dar mais. Um livro maravilhoso, duro, uma escrita poética que suaviza a dureza dos temas. Um livro que só posso recomendar a leitura
Tânia Ganho escreve com uma sensibilidade rara, criando uma atmosfera densa, poética e inquietante, onde nada é totalmente dito e tudo se sente. É um livro que se constrói mais nos silêncios do que nas palavras, e é precisamente aí que reside a sua força.
A história centra-se no regresso de Fedra a casa, antropóloga forense, que passou e viu horrores inimagináveis, este retorno obriga-a a confrontar-se com o passado, com a relação distante com o pai e com memórias que nunca chegaram a cicatrizar. Nesse espaço carregado de ausências, a narrativa explora a herança emocional, os laços familiares frágeis e a dificuldade de comunicar aquilo que dói. Tudo é contado de forma subtil, fragmentada, deixando ao leitor a tarefa de juntar as peças.
A narrativa é intensa e intimista, mergulhando nas fragilidades humanas, nos medos, na solidão e nos instintos que nos habitam — esses “lobos” interiores que tanto nos protegem como nos ameaçam. A escrita é belíssima, quase hipnótica, e convida a uma leitura lenta, atenta, quase contemplativa.
Traz temas bastante atuais da nossa sociedade: trauma, violência sexual, guerra, memória, família e natureza. Os lobos e o santuário servem tanto de cenário como de metáfora para esses conflitos e as personagens estão tão bem construídas, que se tornam reais ao virar de cada página.
Não é um livro fácil nem apressado, mas é profundamente marcante. Fica connosco muito depois da última página.
Nos agradecimentos, percebemos o grande trabalho de investigação feito para a criação deste livro e Tânia Ganho refere-se também ao Grupo Lobo - Centro de Recuperação do Lobo Ibérico, em Mafra, onde Tânia é voluntária. Saber estas ligações que transpôs para a história, torna este livro ainda mais real.
Acrescento, e para terminar, de que há uma página no instagram @euridicepinheirolobo criada pela autora, que para quem leu o livro, vai fazer muito sentido.
Não posso dizer que não gostei de Lobos, porque estaria a mentir. Mas, verdade seja dita, pareceu-me um amontoado de temas empilhados sem grande coesão. A Tânia Ganho escreve com mestria...isso é evidente mas senti falta de um eixo central, de um fio condutor claro que desse peso e foco à narrativa. No fim, não me liguei verdadeiramente a nenhuma das personagens. Talvez tenha sentido alguma pena pelo António e pelo Carlos, mas ficou-se por aí. A Helena? Não conquistou a minha solidariedade idade da loba, dizem? Talvez. Mas, pelos vistos, os quarenta não lhe caíram nada bem. A Leonor tinha potencial, sobretudo com o trauma que carrega, mas a personagem ficou subdesenvolvida, como se o que era essencial nunca tivesse sido dito. A Fedra... é a Fedra. Tanto faz. E o Stefan e a sua próstata? Passei páginas sem qualquer interesse por esse enredo. Ao contrário de Apneia, este livro agarrou-me nas primeiras páginas, mas foi perdendo o fôlego com o avanço da história. Apneia fez o caminho oposto: começou com cautela, mas ganhou densidade e impacto à medida que avançava.
Denso, sombrio e muitíssimo bem escrito. Um romance com várias camadas e personagens inquietantes. A escrita é crua, direta e intensamente emocional, confrontando temas como o abuso sexual, a manipulação digital e a fragilidade da memória. Leitura forte, intensa e marcante.
Às vezes achamos que estamos numa fase menos boa para ler, porque andamos cansados, ou stressados, ou cheios de trabalho. Mas depois surge um livro que nos faz largar tudo e lê-lo avidamente e percebemos que não era o nosso cansaço, stress ou a vida que nos estavam a afastar das leituras e sim as escolhas que andávamos a fazer.
Esta foi a minha estreia com a Tânia Ganho e que estreia maravilhosa. Só tinha lido muito boas opiniões sobre a sua escrita, tinha as expectativas lá em cima, mas nada me preparou para este nível.
Durante 1 dia e meio fiquei agarrada a este livro, a estas histórias, a estas personagens, e que viagem foi!
Já precisava de encontrar uma nova autora portuguesa que me encantasse. É ela.
Este foi o terceiro livro que li da Tânia e à semelhança dos anteriores, em nada desiludiu. A escrita continua a ser envolvente mas crua, com aquela capacidade tão própria da autora de nos transportar para dentro da narrativa e nos fazer sentir diversos sentimentos consoante a personagem com que estamos a lidar. Apesar de ter gostado muito da história, não achei que fosse de leitura fluída, senti que precisava de estar concentrada para acompanhar bem o enredo. Talvez porque os temas abordados não são leves, algo a que a autora já nos habituou (pelo menos nos últimos dois livros que publicou). Todas as situações retratadas são tristes, mas também muito reais e atuais, o que torna a leitura ainda mais impactante. As personagens estão muito bem construídas, com uma autenticidade que nos toca e nos faz refletir. A Tânia é, sem dúvida, uma autora que continuarei a seguir de perto.
Fedra é antropóloga forense e vive atormentada com o lado negro da vida, com que se depara todos os dias. Leonor é uma jovem que, inebriada pelo amor juvenil, faz opções que têm consequências na sua saúde mental. Helena é mãe de Leonor e procura o amor e a paixão. Amélia é matriarca desta família e poderá guardar um segredo que acalmará a curiosidade de Fedra. Stefan é um eremita cujo passado o levou a fugir para o meio dos lobos.
Todas estas personagens incrivelmente criadas por Tânia Ganho se irão relacionar e lidar com os obstáculos que a vida lhes vai colocando. O enredo está muito bem construído e há frases/reflexões belíssimas. Achei o final resolvido de forma brusca. Depois de acompanhar todas estas vidas (e mais algumas) eu gostaria de ter mais pormenores sobre os desenlaces de cada uma. Adorei que Tânia Ganho tivesse incluído neste livro vários episódios da História Mundial tais como a Pandemia e a Invasão da Ucrânia pela Rússia. Encontramos ao longo da história várias referências a autores e a livros que enriquecem as personagens e o enredo. Fiquei com muita vontade de conhecer o santuário de Stefan. Que pena que é ficção! Durante a leitura experimentei várias sensações: calma, medo, angústia, ternura, tristeza... A escrita de Tânia Ganho é sempre uma boa aposta de leitura.