«Poemas Completos» é o novo título para o livro que passa a reunir a poesia de Herberto Helder. Esta obra segue a fixação empregue na edição anterior, «Ofício Cantante», e inclui já os esgotados «Servidões» - considerado por grande parte da crítica especializada como o livro do ano em 2013 - e «A Morte sem Mestre».
Herberto Helder was born into a family of Jewish ancestry in the Portuguese Atlantic island of Madeira. In 1946 he traveled to Lisbon to complete his secondary studies and subsequently in 1948 moved to Coimbra to study Law at university. In 1949 he had changed to the Humanities University to study Romance Philology but dropped out after three years without completing the course. After returning to Lisbon he took up several temporal jobs, and got in contact with a circle of artists and writers such as Mário Cesariny, Luiz Pacheco, João Vieira and Hélder Macedo, known as the "café gelo" group . This group revolved around Surrealism which would inform his early writings. In 1958 his first book, O Amor em Visita, was published. In the following years he traveled and lived in France, Holland and Belgium taking menial and marginal jobs to survive. He returned to Portugal in 1960 and published some of his best books in the following years A Colher na Boca, Poemacto e Lugar, Os Passos em Volta and A máquina de emaranhar paisagens. In 1964 he participates in the organization of Experimental Poetry magazine. After the April Revolution he published Cobra, O Corpo, O Luxo, A Obra, Photomaton and Vox. The singularity of his poetry goes along with the personality of the poet: nowadays he abandoned public life, refusing prizes or interviews.
"Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros ao lado do espaço e o coração é uma semente inventada em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia, tu arrebatas os caminhos da minha solidão como se toda a casa ardesse pousada na noite. — E então não sei o que dizer junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio. Quando as crianças acordam nas luas espantadas que às vezes se despenham no meio do tempo — não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura."
Excerto de Tríptico (II) Herberto Helder
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Fecho hoje um livro que abri... bem, perdi a conta, mas diria que ainda estava na Primavera (antes de o registar aqui como leitura em curso, definitivamente) quando o comecei a ter por perto. Esteve numa estante, esteve na mesa da cabeceira, dormiu aos meus pés; seguiu-me em pequenas viagens, presenciou e testemunhou muito mais do que qualquer uma das pessoas que me conheça. Ler os poemas reunidos de um poeta não é fácil, para mim nunca foi fácil, e recuso-me sempre a fazê-lo "de enfiada", seria até absurdo se o fizesse (outros terão outras opiniões, e que entenderei porque sentimos e lemos de formas diferentes - seria impensável que a nossa relação com a leitura fosse a mesma. E acrescento que o meu ponto de vista é válido para poetas com uma obra extensa ou algo extensa). Este livro são vários livros, e o que faço, por regra, é precisamente obedecer a essa divisão interna. Foram precisos vários meses para completar a leitura, e talvez até pudesse ter sido mais célere, mas a espera soube-me bem, fez-me bem... Acho curioso que, embora consiga destacar os meus livros favoritos ("A Colher na Boca", "Húmus", "Dedicatória", "Última Ciência) e, mesmo fora deles, agrupe uma série de poemas aos quais irei regressar, nada bate "A Colher na Boca": n' "A Morte Sem Mestre" o poeta escreve
"e eu que me esqueci de cultivar: família, inocência, delicadeza, vou morrer como um cão deitado à fossa!"
E isso comove-me, sem me entristecer; pode ser verdade que o tenha sentido assim, que não tenha cultivado a delicadeza e/ou que a tenha perdido (concordemos nós ou não)... mas ela existiu na sua escrita e "A Colher na Boca" é um testemunho de tudo isso. A delicadeza pode não ter sido cultivada — mas talvez seja precisamente o ventre e a semente que criou o Herberto Helder.
Talvez o maior pecado que cometi na vida até agora seja ter demorado tanto tempo para conhecer Herberto Helder em sua plenitude. Ele não é apenas o melhor poeta português do século XX/XXI, mas compartilha com Hilda Hilst não só as iniciais ou o ano de nascimento, mas também a minha afeição como maiores poetas da língua portuguesa desde sempre.
Demorei o meu tempo a ler este. Tenho horror a calhamaços de poesia; a poesia, para mim, quer-se leve, quer-se breve. Como coisa que requer a sua pausa, uma leitura lenta e atenta, livro de poesia que não seja curto é coisa que, nas minhas mãos, tardará eternidades a ser lido. Como tal, demorei quase meio ano a terminar este livro, onde se reúnem todos os livros de poesia que Herberto Helder publicou.
Nem sempre é fácil compreender Herberto Helder - assim é a poesia surrealista ou, pelo menos, de inspiração surrealista, como parece ser o caso da maior parte da obra de Helder. É, no entanto, inegável que tem um toque inigualável para a palavra, que lhe dá à poesia um verbalismo muito sui generis e uma ambiência única.
Uma ambiência sombria e reflexiva, por vezes trágica, por vezes fulgurante, mas sempre, sempre, cheia de intensidade - como se todos os poemas deste livro tivessem sido escritos à noite, de vela apoiada na secretária.
Ainda assim, não se pode dizer que não haja variância dentro da obra de Helder. Há, e muita. Por cada livro desta compilação que me encantou - Húmus, A Colher Na Boca, A Faca Não Corta O Fogo - existe outro que me passou completamente ao lado - O Corpo O Luxo A Obra, A Cabeça Entre as Mãos. Agora, chegado ao final, só posso dizer que valeu muitíssimo a pena. E que, sem dúvida, regressarei.
um dia destes tenho o dia inteiro para morrer, espero que não me doa, um dia destes em todas as partes do corpo, onde por enquanto ninguém sabe de que maneira, um dia inteiro para morrer completamente, quando a fruta com seus muitos vagares amadura, o dom – que é um toque fundo na ferida da inteligência: oh será que um poema entre todos pode ser absoluto? :escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas linhas ***
Se por um lado dá-me um gozo enorme acabar de ler toda a poesia (editada) de Herberto Helder, por outro parece que fica agora um vazio no lugar que este livro ocupou nos últimos anos. Li-o livro a livro, espaçadamente, e sempre que voltava era um lugar absolutamente diferente dos demais universos literários que conheço (não são assim tantos, verdade): uma poesia única, íntima e verdadeiramente original. Era sempre fresco, sempre bruto, sempre bonito. Sem dúvida uma das mais importantes figuras da literatura portuguesa e, pessoalmente, o derradeiro poeta. Este livro é Herberto encerrado 'todo num poema, não em língua plana mas em língua plena'.
Fui obrigada a ler este livro em pouco tempo o que acabou por influenciar a minha classificação. Nunca fui de ler poesia como um romance. Para mim, os poemas devem-se ler devagar, um por dia, para desfrutar ao máximo as palavras que acabamos de ler, para termos um momento de introspeção. Ao ler "a correr" senti que nem absorvi bem o que o autor queria transmitir.
Não há uma forma simples de descrever a escrita de Herberto Helder. E ainda bem, porque o crú e visceral que ele transmite durante todo o livro, é o que faz da poesia a poesia.