«Assim que aprender a ler, só há uma coisa em que podes ensiná-la a acreditar, e é em si mesma.»
Um insólito conto em que as mulheres decidem investigar se o tempo passado a ter e educar filhos foi bem empregue.
Da coleção Little Black Classics
LITTLE BLACK CLASSICS
O essencial dos clássicos
Ensaios, contos, poemas, dramas, cartas, manifestos – testemunhos de ideias que ora mudaram, ora sustentaram o mundo nas várias formas que assumiu desde a invenção da palavra. Apresentamos os Little Black Classics, uma coleção que celebra a literatura com textos breves de grandes escritores.
Uma Sociedade foi originalmente publicado na coletânea de contos Monday or Tuesday, dada ao prelo em 1921, pela The Hogarth Press.
(Adeline) Virginia Woolf was an English novelist and essayist regarded as one of the foremost modernist literary figures of the twentieth century.
During the interwar period, Woolf was a significant figure in London literary society and a member of the Bloomsbury Group. Her most famous works include the novels Mrs. Dalloway (1925), To the Lighthouse (1927), and Orlando (1928), and the book-length essay A Room of One's Own (1929) with its famous dictum, "a woman must have money and a room of her own if she is to write fiction."
Em linguagem corrente, o que Virginia Woolf faz neste extraordinário e cáustico conto é um roast ao patriarcado e às suas instituições. Já sabia que ela era uma excelente ensaísta, palestradora e contista, mas esta vertente de humorista surpreendeu-me.
Ó Cassandra, pelo amor de Deus, inventemos um método para que os homens possam dar à luz! É a nossa única esperança. Pois, se não lhes arranjarmos uma ocupação inofensiva, não teremos nem gente de bem nem bons livros.
No início do século XX, um grupo de jovens mulheres reúne-se para tomar o chá e tecer elogios aos homens e aos seus feitos, até que uma delas quebra o feitiço. Poll tem, a fim de receber uma herança, de ler todo o recheio da Biblioteca de Londres, aquela que decerto muitos leitores gostariam de ter como missão na vida, mas, na verdade, o pai ofereceu-lhe um presente envenenado, pois agora ela apoderou-se de uma informação chocante: os livros, maioritariamente escritos por homens, são execráveis. Esta constatação indigna o grupo que até ali aceitara o tradicional acordo tácito entre homens e mulheres.
Ao longo de todo este tempo, sempre acreditámos que os homens eram igualmente laboriosos e que as suas obras tinham igual mérito. Enquanto dávamos à luz os filhos, eles, julgávamos nós, davam à luz os livros e as pinturas. Nós povoámos o mundo. Eles civilizaram-no.
Como o conhecimento é poder, conscientes desta informação avassaladora, decidem, quais Lisístrata e suas companheiras dos tempos modernos, fazer greve até apurarem responsabilidades.
Jurámos solenemente que não traríamos ao mundo uma única criança enquanto não estivéssemos satisfeitas.
Com esse propósito, formam uma sociedade para indagar, realizar actividades culturais e, sobretudo, observar o espécime no seu habitat natural, apresentando os relatórios cinco anos depois. Entre resultados pouco conclusivos e muitas contradições, chega-lhes a notícia do início da Primeira Guerra Mundial, o que as leva a perguntar-se se a ignorância não trará realmente felicidade, dando, no entanto, também voz às preocupações pacifistas de Woolf, que considerava os conflitos bélicos indissociáveis das estruturas patriarcais.
Já sei o que vais dizer sobre a guerra – atalhou – e sobre o horror de dar à luz filhos para os ver morrer, mas foi o que fizeram as nossas mães, e as mães delas e as mães destas antes delas. E não se queixavam. Não sabiam ler.
Finda a guerra, duas das amigas encontram-se para rever as actas das antigas reuniões, o que leva uma delas a desabafar sobre a angústia que lhe causa a curiosidade crescente da filha que acabou de aprender a ler.
- Certamente poderias ensiná-la a acreditar que o intelecto masculino é, e sempre será, fundamentalmente superior ao feminino? – sugeri. (…) - Ó Cassandra, porque me atormentas? Não sabes que a nossa crença no intelecto masculino é o maior de todos os enganos?
Recorrendo à ironia para expor a verdade subjacente aos mitos que têm servido de alicerce à humanidade, “Uma Sociedade” ilustra o poder do sentido crítico, mesmo que este traga dissabores, optando por um tom mais sério e esperançoso na passagem do testemunho à geração seguinte.
Assim que aprender a ler, só há uma coisa em que podes ensiná-la a acreditar, e é em si mesma.
"Nós povoámos o mundo. Eles civilizaram-no. Mas, agora que sabemos ler, o que nos impede de julgar os resultados?"
Uma Sociedade é um conto que acompanha um grupo de mulheres que decide fundar uma sociedade secreta com um objectivo peculiar: descobrir se a cultura criada pelos homens é realmente valiosa e digna de ser perpetuada. Elas juram não ter filhos até que tenham lido os livros que os homens escreveram e analisado as suas acções no mundo.
"...acercámo-nos da lareira e comecámos , como era habitual a louvar os homens - a sua força, a sua nobreza, o seu brilhantismo, a sua coragem e beleza - e como invejávamos aquelas que, de alguma forma e feitio, conseguiam atracar -se a um deles para toda a vida (...)"
"- Por que razão - indagou - , se os homens escrevem semelhantes disparates, tiveram as nossas mães de desperdiçar a juventude a trazê-los ao mundo?
Ficámos todas em silêncio; e, nesse silêncio, ouvia-se a desgraçada da Poll a soluçar:
- Porquê, porque é que o meu pai me ensinou a ler?"
Ao longo do conto, cada mulher parte numa “missão” diferente: algumas vão ler todos os livros da biblioteca, outras observar o que os homens fazem em campos como a política, o exército, a economia ou a religião. Quando se reencontram para partilhar as descobertas, o retrato que fazem do mundo masculino é profundamente crítico, revelando violência, futilidade, arrogância e desperdício ao mesmo tempo que começam a mudar o seu pensamento relativamente ao direito à educação, o peso da maternidade, e acima de tudo, a liberdade de pensamento feminino.
"Concordarmos que o objetivo da vida era produzir boas pessoas e bons livros."
"- É bom que percebam - começou, falando com uma rapidez extrema - que a ficção é o espelho da vida. E não podem negar que a educação é da maior importância (...)"
Uma Sociedade é um conto actual sobre o lugar das mulheres na cultura e nas decisões que transformam o mundo. Woolf parte de uma premissa simples, mas ousada, para lançar uma crítica mordaz às estruturas patriarcais — e fá-lo com uma leveza provocadora. Usa o humor inteligente para questionar estruturas de poder, assim como ironia e sátira.
"...inventemos um método para que os homens possam dar à luz! É a nossa única esperança. Pois, se não lhes arranjarmos uma ocupação inofensiva, não teremos nem gente de bem nem bons livros; pereceremos sob os frutos da sua atividade desenfreada; e não restará um único ser humano para saber que um dia existiu Shakespeare!"
"é certo que se consolam com estrelas de todos os formatos, fitas de todas as cores e rendimentos de todas as dimensões... mas o que há de consolar-nos a nós?"
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Um livro feminista que aborda diferentes conceitos machistas implementados na sociedade (intelectual masculino superior, a mulher como fábrica de produção de filhos,desprezo do homem para com a mulher, etc) com uma escrita divertida e de empoderamento feminino.
* “Todas nós sabemos ler. Mas nenhuma de nós se deu ao trabalho de o fazer. Eu, por exemplo, sempre tomei como certo que era dever de uma mulher passar a juventude a dar à luz. Ao longo de todo este tempo, sempre acreditámos que os homens eram igualmente laboriosos e que as suas obras tinham igual mérito. Enquanto dávamos à luz os filhos, eles, julgávamos nós, davam à luz os livros e as pinturas. Nós povoámos o mundo. Eles civilizaram-no. Mas, agora que sabemos ler, o que nos impede de julgar os resultados?” * “a vida tinha como objetivo trazer ao mundo boas pessoas e bons livros” * “Um académico é um tipo de homem inteiramente diferente. Um académico transborda de humor e criatividade…um companheiro encantador, generoso, subtil, imaginativo…como seria de esperar. Afinal, passa a vida na companhia dos mais extraordinários seres humanos que já existiram.” * “a castidade não passa de ignorância, de um estado de espírito absolutamente deplorável. Só devíamos admitir na nossa sociedade as que fossem impuras” * “Classificar uma mulher como casta não é menos injusto do que considerá-la impura” * “Um bom homem, concordáramos, devia ser, no mínimo, honesto, apaixonado e desprendido” * “Muitas vezes, parecia que aprendíamos mais com perguntas triviais como estas do que com outras mais diretas” * “Mais significativas ainda do que as respostas eram as recusas em responder.” * “Desprezam-nos demasiado para se importarem com o que dizemos” * “É bom que percebam que a ficção é o espelho da vida. E não podem negar que a educação é da maior importância” * “Se nunca tivéssemos aprendido a ler, talvez ainda estivéssemos a ter filhos na ignorância, e creio que essa era, afinal, a vida mais feliz” * “Não sabes que a nossa crença no intelecto masculino é o maior de todos os enganos” * “Porventura não os criámos, não os alimentamos, não lhes proporcionamos conforto desde o início dos tempos precisamente para serem inteligentes, mesmo que não fossem mais nada? É tudo obra nossa!” * “A seguir, ensinam-no a cultivar o intelecto. Torna-se advogado, funcionário público, general, escritor, professor. Vai todos os dias para um escritório. Pública um livro por ano. Sustenta uma família inteira com o produto do seu cérebro…pobre coitado! Em breve, não pode entrar numa sala sem nos deixar constrangidas: condescende com cada mulher que encontra” * “pelo amor de Deus, inventemos um método para que os homens possam dar à luz! É a nossa única esperança. Pois, se não lhes arranjarmos uma ocupação inofensiva, não teremos nem gente de bem nem bons livros” * “Assim que aprender a ler, só há uma coisa em que podes ensina-la a acreditar, e é em si mesma”
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Um conto em que um grupo de mulheres se questionam porquê os homens nasceram para cultivar o intelecto e ser grandes autores de livros e as mulheres nem têm direito ou tempo para ler, e menos para escrever livros, porque a maternidade não o permite. No entanto, são as mulheres que educam os seus filhos (rapazes e raparigas). Um conto para refletir o papel de cada um na sociedade e no tempo.
Um pequenino conto que nos faz pensar em grande. Basicamente, o que Virgínia Woolf pretendeu com este livro, na sua época, foi questionar se aquilo que fora produzido pelos homens, merecia todo aquele enaltecimento e, se as mulheres tivessem tido acesso às mesmas oportunidades que o sexo oposto, o que é que teriam conseguido alcançar.
No fundo, este livrinho pretende agitar um pouco as águas e questionar como é que se poderia romper a cultura que já se encontrava predefinida, através de uma visão única do mundo. Este livro, na minha opinião, estava à frente do seu tempo.
Por último, tenho a dizer que a frase mais marcante do livro, para mim, foi:
“Assim que aprender a ler, só há uma coisa em podes ensiná-la a acreditar, e é em si mesma.”
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Irónico. Mostra como tudo é risível“(…) inventemos um método para que os homens possam dar à luz! É a nossa única esperança. Pois, se não lhes arranjarmos uma ocupação inofensiva, não teremos nem gente de bem nem bons livros; pereceremos sob os frutos da sua atividade desenfreada; e não restará um único ser humano para saber que um dia existiu Shakespeare! ”
Sensacional! Muito à frente de seu tempo. Um relato da emancipação da Mulher ;a preocupação com as gerações futuras e o papel da mesma ,na sociedade da época.
Poderia mencionar várias frases deste livro que me puseram a pensar, rir, questionar etc. Devo só dizer que vale a pena tirar uma horinha para ler este livro. How i love woman.
Uma crítica à sociedade e aos homens da época. Bastante interessante e de um ponto de vista bastante engraçado - o de um grupo de mulheres se recusar a procriar até perceber o que fazem os homens de bem no mundo. Chegam à conclusão que: nada, deviam arranjar ocupações mais inofensivas como aquelas que são reservadas as mulheres (dar à luz), porque para a cultura e sociedade não estão a contribuir.