Vencedor da 10ª edição do Prêmio Kindle de Literatura & Vencedor do Prêmio Carolina Maria de Jesus (2023)
Jurema vive na orla de Cruz-credo, um vilarejo baiano esquecido, onde até os sonhos parecem ser jogados fora. Seu maior divertimento é provocar padre Cícero, guardião da capela azul que vela o povoado, na qual os moradores fazem suas interseções. A menina nutre essa amizade por diversão, o padre, pela esperança de catequizá-la, já que não foi batizada, o que muitos dizem ser a explicação para sua alma danada e inquieta. Apesar de gostar da vida simples e das figuras que compõem o vilarejo, ela sonha com o alé quer velejar o mundo em um barquinho feito de palavras esquecidas.
Filha da terra e da falta, cresce entre palavras e restos do mundo, encontrando no lixo da comunidade pedaços de histórias, cartas inacabadas, folhas marcadas de memórias. Com esses retalhos de vida, começa a construir um barquinho, pequeno, de papel, mas forte o suficiente para carregar o que deseja deixar e o que insiste em ficar. Enquanto dobra as folhas e cola seu destino, Jurema escuta os relatos de quem a cerca e os transforma em vela, leme e casco. Cada história ouvida vira parte do barco e cada memória esquecida encontra agora um destino.
Uma travessia feita por uma menina que não sabe ao certo o rumo, mas sente que precisa partir, afinal há tempos em que é preciso ir, mesmo que seja só para lembrar quem se é.
“A gente até tenta ir embora, criatura... mas o peito não consente partir sem levar junto quem a gente ama, nem as histórias que fizeram da gente o que a gente é. Porque senão tu vai só de corpo - disse, tocando o ombro dela -, e a alma fica bem aqui. - Jurema enrugou a testa, sem conseguir compreender aquele enigma.”
leve, envolvente e daqueles que dão uma sede enorme de conhecer o mundo. uma mistura de viagem, magia e folclore, atravessada por saudade, raízes e partidas.
“partir não apaga o desejo de retorno: há caminhos que só se abrem para quem leva saudade na bagagem.”
Gostei muito da escrita de Jadna Alana e suas descrições de momentos e paisagens. Me deu vontade de conhecer a vila de Cruz-Credo e a vida de Jurema... Das manhãs com cheiro de caju e de andar descalça na praia vendo o nascer do sol esperando encontrar Uiara na espuma das ondas com seu cabelo trançado e pele morena. Lindo demais esse. Único problema é ser tão curtinho.
Que delicinha ler esse livro, uma brisa no rosto num dia de praia. "Ah, porque meu coração partiu antes de mim, padre. Estou no além-mar há muito tempo. Mesmo que ele seja desconhecido, num sabe?"