«Desde logo a depuração da escrita, quase só pessoas, coisas e verbos, um ou outro adjetivo, muito poucos advérbios. Depois, o ritmo. Alexandra Lucas Coelho trabalha obsessivamente as pausas, as acelerações, as travagens bruscas – cada vírgula, cada ponto final, cada parágrafo tem a sua função. Mas, verdadeiramente, o que torna o livro especial é a ousadia de mandar às urtigas o registo trágico, incomunicável e metafísico com que se tem fabricado a chamada “alta literatura” portuguesa. […] este é mesmo um livro sobre sexo – muito sexo, com as palavras todas – meia dúzia de coisas que estão à volta. E é excelente. E é único. E é um gozo.» Ricardo Dias Felner, Time Out, 2014
ALEXANDRA LUCAS COELHO nasceu em Dezembro de 1967. Estudou teatro no I.F.I.C.T. e licenciou-se em Ciências da Comunicação, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Trabalhou dez anos na rádio continuando ainda hoje a colaborar com a RDP. Desde 1998 é jornalista no Público. A partir de 2001 viajou várias vezes pelo Médio Oriente / Ásia Central e esteve seis meses em Jerusalém como correspondente. Foram-lhe atribuídos prémios de reportagem do Clube Português de Imprensa, Casa da Imprensa e o Grande Prémio Gazeta 2005. Mantém o blogue Atlântico-Sul, onde publica as suas crónicas que escreve para o Público.
Em 2007 publicou «Oriente Próximo» (Relógio D’Água), narrativas jornalísticas entre israelitas e palestinianos. Publicou mais quatro livros de reportagem-crónica-viagem: «Caderno Afegão» (2009), «Viva México» (2010), «Tahrir» (2011) e «Vai, Brasil» (2013). Em 2012 escreveu o seu primeiro romance, «E a Noite Roda», vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE 2012. Publicou, recentemente, «O Meu Amante de Domingo» (2014).
De uma mediocridade tal que a sua exaltação pela intelligentsia literária pode apenas resultar do lambe-botismo da área, já que a autora é daquelas personalidades cujo motivo de ascenção, muito sinceramente, ninguém entende. O que choca nem é tanto o uso de «fodas, caralhos e afins» (não me indigno, como certas flores de estufa, com o vernáculo) por todo o livro, mas o seu uso aleatório, a falta de ideias, o provincianismo literário (este livro terá interesse passada a fronteira?), a colagem a uma certa «nata da sociedade» que olha de cima para a populaça, e que dela fala sem nada saber. Mas não percebe um «caralho» do que está a dizer, pois não?
Ela tem 50 anos e pesa 50 Kgs. Ela é revisora de gralhas (leia-se revisora de livros). Ela nasceu numa freguesia de Vila Nova de Gaia, de onde se levou menina e moça para estudar Literatura Comparada na Universidade Nova de Lisboa.
Ela diz quatro palavrões por cada três palavras, segundo ela uma linguagem típica do Norte, pois os lisboetas têm «uma gravata na língua».
Ela quer matar um caubói, um homem mais novo com quem teve um curto romance que acabou de uma forma humilhante para ela; mesmo assim, acaba por ter de lhe agradecer o incentivo para reler Balzac.
Por vingança, raiva e fúria quer matar aquele caubói,que é o retrato do Portugal de 2014.
«A fúria é uma estranha forma de vida, mas não mais estranha do que o fado, talvez um fado virado do avesso.»
Ela quer vingança, mas simultaneamente escreve um livro desencadeado pelo encontro - pós-caubói - com um mecânico que conheceu num domingo: é o seu amante de domingo.
Os palavrões são tantos, mas tantos, que a princípio cansam, mas depois - pateticamente - dão vontade de rir; o que salva o livro são as referências a grandes vultos da literatura mundial.
«Gosto de homens. Os homens são a imaturidade das mulheres, difícil não ficar reféns deles.» «Ao longo dos séculos ele foi deixando de caçar e talvez agora se abandone à ambição satisfeita que lhe é natural porque a insatisfação é toda centrípeta, feminina.»
Depois de uma referência às últimas páginas de «Ulisses» de Joyce , termina assim:
«Então:1) Talvez, afinal, Nelson Rodrigues esteja certo e baste viver a fantasia de matar para esgotar o desejo.2) Toda a violência das últimas semanas terá sido necessária, incluindo decidir escrever um livro. 3) Se a melhor vingança é a que nunca acaba, letal será deixar o caubói vivo».
Muito bom na forma, uma desgraça no conteúdo. E a ideia de base até era bem gira, que pena. Mas eu não quero ler um corropio de fodas a menos que venha extraordinariamente a propósito. E ela escreve bem, o que ainda mete mais nervos, e tem frases divertidíssimas pelo meio. O que irrita.
Este livro faz-me lembrar um excerto de um poema do Bukowski: “this is not a god-damned poem. this is a horse asleep”. Até pode ter uma mulher de espingarda em punho na capa, mas uma pessoa pensa, é um livro, qual é mesmo o potencial de explosão de um objecto singelo como este? A resposta é mil. Todas as perguntas do género sobre este livro deveriam ter “mil” como resposta. Não é uma hipérbole. É um eufemismo.
Depois de ler o Caderno Afegão, tinha prometido a mim mesma que ia ler brevemente o E a Noite Roda que, aliás, já tenho na estante. Porém, depois de ler a primeira página desta entrevista (e a propósito, se alguém tiver as restantes páginas, agradecia…) tive um daqueles acessos fulminantes que às vezes me dão (só com livros) e corri para a Bertrand mais próxima. Valeu a pena.
O Meu Amante de Domingo fala sobre desejo: não sobre o seu lado luminoso, mas sobre a sua força visceral, sobre as suas frustrações e constrangimentos, sobre a sua concretização como força motriz de uma vingança. Constrói-se uma tríade de encontros sexuais perseguindo-se na vertical do dia do Senhor do mês de Junho de 2014. O primeiro com um mecânico, o segundo com um Nobel-wannabe e o terceiro com um engenheiro de Facebook sem um único pelo que conhece num ginásio (notemos a transição do realismo bruto para uma fantasia improvável – presumo). Tudo isto ocorre enquanto a narradora traça um mapa da história de como decidiu matar um moço de trinta e quatro anos que ela designa de caubói.
A voz narrativa é talvez o porta-estandarte deste livro. Uma das poucas vozes femininas que alguma vez li em português que reclama para si verdadeira identidade e complexidade, que reclama o desejo e denuncia os fracassos, os seus e os dos outros, com uma clareza brutal. Também digna de menção é a construção de intertextualidade que foi bem-sucedida em acrescentar uns quantos livros à minha wishlist mental.
E talvez seja redutor mencioná-lo, mas… há poucas gajas que não tenham caubóis na vida delas. Uma planificação de vingança contra essa espécie rara já era devida há muito. Afinal de contas, não se trata só de desamor. Trata-se de consumo ou, mais especificamente, de ser consumida. Há agora mais que nunca uma necessidade de reclamar um papel humano que não se deixe prender em transacções hedonistas.
«O meu amante de domingo fez uma tatuagem na cadeia. É a cara de uma santa, no peito oposto ao do coração. (...) Ele diz 'póssamos', 'vareia' (isso vareia...)», assim começa o segundo romance de Alexandra Lucas Coelho, uma das últimas surpresas que tive nos últimos tempos na área da literatura. A história é simples: uma mulher está decidida a matar um homem, entre a sua casa no Alentejo e as suas idas a Lisboa, ao domingo. Durante um mês, o leitor acompanha os planos da narradora, o livro que decide escrever e toda a partilha com amigos vivos e mortos: o escritor brasileiro Nelson Rodrigues - tantas vezes referido ao longo da obra - Balzac, Joyce, o futuro Nobel, entre outros.
A narradora é revisora e tem em mãos a revisão do clássico Ulisses, loura e sem qualquer problema na linguagem. Diz foda-se como quem diz adoro, nunca li e senti uma personagem que dissesse tantas asneiras. E o melhor, ao longo de toda a leitura, é a sinceridade com que utiliza as asneiras. («Então, como tu e o Nelson Rodrigues sabem, o que todas queremos é foder, nada mais certo. (...) Porque todas as abelhas querem foder. Abelhas, antas, catatuas, até os homens, claro (...)»). Aliada à naturalidade com que os palavrões são soltos, há uma ira e uma fúria na protagonista. Depois de ver o coração quebrado, de sentir cada vez mais o buraco que o 'caubói' lhe fez, não hesita em querer matá-la com toda a força e da melhor forma nunca antes imaginada. Ao contrário da história d'E a Noite Roda, em que o leitor já sabia o final destinado aos dois protagonistas, não se sabe qual o motivo que leva esta mulher a ter desejos de assassina. E também, ao invés de existir uma suavidade como na obra anterior, há o equivalente a um furacão nas palavras de Alexandra Lucas Coelho. Distancia-se, desta forma, das obras anteriores, merecendo uma salva de palmas por isso.
É traçado um plano e colocado em palavras o seu desejo, numa fúria nunca antes sentida. Ao contrário de muitas mulheres, propícias a ficarem num estado depressivo, esta mulher sente uma força inimaginável («Só que o meu autodiagnóstico não era depressão, pelo contrário, era aquele gás, aquela energia, aquela euforia avassaladora que se pode resumir como ira.»). O plano é traçado e partilhado com um dos seus amigos de longa data, chamado de futuro Nobel por esta narradora, e com escritores já mortos e referenciados anteriormente. Nelson Rodrigues é tantas vezes referido ao longo das páginas que me deu vontade de ler a biografia do artista e é um dos maiores defeitos para mim deste Meu Amante de Domingo. Apanhar-me desprevenido na ignorância não é um problema da escritora, é unicamente o meu gosto pessoal a falar mais forte. Toda a fúria nasce a partir de um sentimento tão simples e tão cruel: rejeição. Um motivo explorado ao longo das páginas e com ênfase nos capítulos finais, a meu ver.
É uma flecha para todos os cabrões e filhos da puta, como se pode ver tantas vezes. É um livro cheio de liberdade, a começar pela forma como foi escrito e a terminar no destino da narradora e do caubói. É também, e tantas vezes me lembrei, uma piscadela de olho a Maria Velho da Costa pela forma como foi escrito e uma das razões pelas quais não me identifiquei na totalidade.
«Toda a paixão é um ataque ao sistema imunitário. Se precisamos dela para viver, mais precisamos que ela acalme, ou seja, acabe para continuarmos vivos. A amizade é o contrário, um estoque ilimitado de gengibre.»
Como é que um livro cuja escrita é a banalidade no seu estado puro consegue atrair muito público? Eis a questão que se deve formular sobre este livro. Quer a conceptualização da história, quer a coerência narrativa, quer ainda a linguagem são, neste livro, um exemplo claro para os jovens escritores não seguirem. Se pretendeis ser escritores, não pegueis neste livro. Como não se pode dar menos de uma estrela, fica aqui a opinião que é abaixo de zero.
Certo dia, de passagem pela Bertrand de Vila Franca de Xira (cidade que visito 1 vez a cada 20 anos), entrei com vontade de comprar um livro, mas sem saber qual. Pedi ajuda: quero ler mais escritores portugueses, mas estou farta de ler homens. Também não estou com paciência para ler coisas que parecem escritas para me fazer sentir ignorante ou analfabeta — podemos parar de fingir que a “pretensão” não é doença comum no meio literário português… Abri os cordões à bolsa e comprei 3 (se calhar, 4) e este livro estava lá no meio.
Comecei o livro a rir-me, não fosse o Canidelo ali à beira de casa (quando casa ainda era em Portugal) e continuei a rir. As “caralhadas” não me chocam, sou do Norte.
Também acho que foi a primeira vez que li uma escritora portuguesa a falar de sexo tão abertamente — lufada de ar fresco! Também descobri que volta e meia as púdicas cansam-me. Por outro lado, não leio tantas mulheres assim para ter uma opinião.
Quanto a sentir-me ignorante, senti pois claro, há coisas que nunca mudam e os escritores portugueses não conseguem escrever sem tentar mostrar que têm direito a ter um livro publicado! Não, não fazia ideia que a “tal” biografia do Nelson Rodrigues era suposto ser (obviamente!) “O Anjo Pornográfico” de Ruy de Castro. E também não li Balzac. Nem Machado de Assis. Quem era mesmo Sarah Kane?
Contudo, foi uma rica leitura de viagem, ri-me, corei, pensei “sim, senhora, grandes tomates pra escrever isto!”, e até curto malta do Canidelo.
Eu adorei a escrita direta, mas muito viva, de “Viva México”, "Oriente Próximo" e “E a noite roda”. Mas, infelizmente, “O meu amante de domingo” não conseguiu atrair-me. O registo é completamente diferente – a objetividade é substituída pelo “fluxo de consciência” e, como tal, perdi-me no meio das considerações bizarras de uma editora “do Norte” que planeia, ao pormenor, o assassino do seu ex-amante, que aproveitou as suas confissões para fazer uma peça de teatro.
Alexandra Lucas Coelho tem um ótimo domínio da língua portuguesa e uma cultura geral fantástica, bem espelhada nas muitas referências literárias que existem ao longo dos capítulos. Mas não gostei da maneira como a história foi escrita, com o excesso de palavrões (a palavra f**a-se e as suas variantes devem aparecer mais de 100 vezes ao longo do texto!), as considerações “filosóficas” e as personagens repelentes. Comigo não resultou! É um livro para esquecer…
Uma boa descoberta com uma boa escrita. Referências bem ligadas, escrita solta e rápida. Embora o uso de calão não me faça confusão, achei o uso por vezes demasiado exagerado, mesmo para uma mulher do Canidelo. O ritmo inicial, bem composto, vai diluindo-se ao longo do livro, o que é pena. Parece que a ideia inicial se foi perdendo e que o texto sofre uma reviravolta, o que de certa forma é apresentado nesse mesmo sentido, embora não tenha resultado ao nível que eu esperava. Gosto de ver uma mulher a escrever assim, desbocada e descomplexada, peito aberto às balas.
Super espirituoso, arrancadinho às entranhas em escrita furiosa, isso é claro. A dada altura cansou-me, porém, de tantos maus figados, mas é um livro que se lê de um fôlego, sempre com um sorriso, pois o humor inteligente, corrosivo e cortante é uma nota transversal. Fica a vontade de umas quantas leituras paralelas.
Tinha muitas expectativas e fiquei desiludido – a ideia é excelente, algumas passagens boas, mas...perde-se em erudição desinteressante e avança demasiado rápido. Pena que a autora não tenha encontrado um editor à altura, pois assim perdeu-se um hipotético excelente livro. E não vale o dinheiro.
Leitura de rajada, a contar os mundos de mulheres contra e com, e a favor, e qualquer outra coisa com homens, sejam caubóis, índios ou bonzinhos. Fascinante.
"O meu amante de Domingo" é uma mixórdia de sentimentos. Por um lado, é interessante ler uma mulher que tem o arrojo de escrever sobre relações intimas e sexo da forma que os escritores homens dos anos 20 escreveram. É interessante vê-la transpôr a barreira daquilo que deve ou não ser dito, acabando por falar tão facilmente de casos de cama como de literatura, e sem o pretenciosismo que muitas vezes se encontra nos autores contemporâneos. É ainda de realçar o interessante jogo que se cria entre realidade e ficção, e a realidade e ficção dentro da própria ficção (realidade?!). No entanto -- e como acontece com muitos desses autores dos anos 20 que Alexandra Lucas Coelho me faz lembrar -- o livro reduz-se tanto a isto que lhe fica a faltar qualquer coisa, transformando-se numa espécie de caderno de lamentos que me faz sentir como se tivesse ouvido uma amiga a desabafar sobre as suas frustrações amorosas, mais do que um livro com qualidade literária. Não fiquei super fã, mas estou curiosa por ler um outro livro, num outro registo, e tirar as teimas.
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Eu gosto muito da Alexandra Lucas Coelho . Gosto muito do que ela escreve e viajo muito através dos seus escritos. Gosto da sua perspectiva do mundo, gosto da diversidade de temáticas e locais de onde escreve e sobre o que escreve. Gosto das suas crónicas e gosto dos seus romances. Gosto da limpidez da sua escrita. Eu também gosto muito da Alexandra Lucas Coelho. Da sua enorme cabeleira negra, da tonalidade da sua voz, do seu rosto bonito escondido atrás de uns óculos graduados. Os óculos é que podiam ser mais modernos, pretos e rectangulares como daquelas modelos a fazerem-se passar por intelectuais (ou por inteligentes, como diria o Miguel). Infelizmente a Alexandra vive, como o seu blog do jornal Público indicia, no Atlântico Sul. E eu não sou o Sacadura Cabral! ‘’O MEU AMANTE DE DOMINGO’’ já estava cá em casa desde o Natal, logo após ser lançado, mas esteve a aboborar na fila de livros para ler e também enquanto eu me decidia se era um romance de casa ou de ar livre. Chegando o quase Verão, eu pude andar com ele atrás no in and out que é como quem diz, entre a casa e o areal (o que em determinadas situações é difícil de saber onde começa um e acaba outro). De que trata o livro? De tesão. É isso que trata o livro. Eu poderia ser eloquente e dizer que fala do desejo (sobretudo de uma mulher) mas não. Aquilo é tesão mesmo. O primeiro romance de Alexandra valeu-lhe um prémio literário (prémio de romance e novela APE 2013) entregue por um secretário de estado que deu bronca na cerimónia, este quanto muito vai valer-lhe uma série de leitores muito mais interessantes que o secretário de estado… e muito mais interessados! O livro, escrito na primeira pessoa é divertido e bem construído. Fala de uma mulher despeitada e das suas fantasias que envolvem o assassinato do seu amante. Do seu amante principal, quero dizer. É que pelo caminho, a protagonista, mulher madura, independente e com mais dezasseis anos que a futura vítima, vai tendo outros amantes como quem bebe álcool para esquecer o primeiro ou, sobretudo, porque se lembra dele muito bem! E vai assim de capítulo em capítulo. Pelo caminho são chamados à liça Nelson Rodrigues, Balzac, Euclides da Cunha, o Zeca Afonso, a Sarah Kane, o Brás Cubas, o Machado de Assis e mais uma multitude de personagens que são citados sem que a protagonista perca por algum segundo o seu propósito, matar o amante e matar o seu desejo. Ah! Alexandra do caraças que nunca perdeste o fio à meada!
Eu gosto muito da Alexandra Lucas Coelho . Gosto muito do que ela escreve e viajo muito através dos seus escritos. Gosto da sua perspectiva do mundo, gosto da diversidade de temáticas e locais de onde escreve e sobre o que escreve. Gosto das suas crónicas e gosto dos seus romances. Gosto da limpidez da sua escrita. Eu também gosto muito da Alexandra Lucas Coelho. Da sua enorme cabeleira negra, da tonalidade da sua voz, do seu rosto bonito escondido atrás de uns óculos graduados. Os óculos é que podiam ser mais modernos, pretos e rectangulares como daquelas modelos a fazerem-se passar por intelectuais (ou por inteligentes, como diria o Miguel). Infelizmente a Alexandra vive, como o seu blog do jornal Público indicia, no Atlântico Sul. E eu não sou o Sacadura Cabral! ‘’O MEU AMANTE DE DOMINGO’’ já estava cá em casa desde o Natal, logo após ser lançado, mas esteve a aboborar na fila de livros para ler e também enquanto eu me decidia se era um romance de casa ou de ar livre. Chegando o quase Verão, eu pude andar com ele atrás no in and out que é como quem diz, entre a casa e o areal (o que em determinadas situações é difícil de saber onde começa um e acaba outro). De que trata o livro? De tesão. É isso que trata o livro. Eu poderia ser eloquente e dizer que fala do desejo (sobretudo de uma mulher) mas não. Aquilo é tesão mesmo. O primeiro romance de Alexandra valeu-lhe um prémio literário (prémio de romance e novela APE 2013) entregue por um secretário de estado que deu bronca na cerimónia, este quanto muito vai valer-lhe uma série de leitores muito mais interessantes que o secretário de estado… e muito mais interessados! O livro, escrito na primeira pessoa é divertido e bem construído. Fala de uma mulher despeitada e das suas fantasias que envolvem o assassinato do seu amante. Do seu amante principal, quero dizer. É que pelo caminho, a protagonista, mulher madura, independente e com mais dezasseis anos que a futura vítima, vai tendo outros amantes como quem bebe álcool para esquecer o primeiro ou, sobretudo, porque se lembra dele muito bem! E vai assim de capítulo em capítulo. Pelo caminho são chamados à liça Nelson Rodrigues, Balzac, Euclides da Cunha, o Zeca Afonso, a Sarah Kane, o Brás Cubas, o Machado de Assis e mais uma multitude de personagens que são citados sem que a protagonista perca por algum segundo o seu propósito, matar o amante e matar o seu desejo. Ah! Alexandra do caraças que nunca perdeste o fio à meada!
Uma mulher de 50 anos, nascida no Canidelo, Vila Nova de Gaia, revisora de profissão, e sem papas na língua, planeia vingar-se de um caubói dezasseis anos mais novo durante as suas viagens entre Lisboa e a sua casa no Alentejo.
“Todos os domingos vou a Lisboa, folga das revisões, e agora para não dar um tiro nos cornos ou atirar com o jipe. No primeiro domingo depois de o caubói estrear o texto pensei nisso a cada curva, Ao segundo domingo já pensei melhor: dar um tiro nos cornos dele, atirar o jipe para cima dele. Um Lada Niva de 1994 nas trombas, não sobrava muito, massa de pimentão de filho da puta tenrinho.”
Este caubói conheceu-o ela no 1º de Maio de 2014 no Alentejo , enquanto caminhava para o Castelo e mantiveram uma relação tórrida até ele se revelar um perfeito cabrão.
“Crac de gravilha na ladeira e quando voltei a cabeça o gajo estava ali, sol na cara. Há uma insolência nos gajos que fazem de conta que não sabem que são giros. Aquele tipo de gajos que olham para baixo enquanto falam porque só fumam tabaco de enrolar e depois de acenderem o cigarro ficam a cutucar as pedras com a ponta do pé, com a ponta do cigarro entre o indicador e o polegar, e quando levantam a cabeça olham para o fim do horizonte como se não estivessem bem aqui, ou além houvesse algo que só eles veem, o que só realça o ângulo agudo do maxilar, a protuberância da maça de adão (…) “
Ela decide então elaborar a dita vingança e escrever um livro acerca da mesma, intercalando a sua história com a de alguns escritores, Balzac, Joyce, Nelson Rodrigues, que clarificam a sua dor e em simultâneo funcionam como pano de fundo ao seu objectivo, quer pelas suas narrativas, quer pelas suas histórias de vida.
«Isto tudo para chegar a duas frases d’A Mulher de Trinta Anos que foram uma revelação quando as li ontem à noite. A primeira diz : “ A paixão faz um progresso enorme numa mulher no momento em que ela crê ter agido ter agido pouco generosamente, ou ter ferido uma alma nobre.” E a segunda conclui:” Nunca se deve desconfiar dos maus sentimentos no amor, eles são muito salutares; as mulheres não sucumbem senão ao golpe de uma virtude.”»
Só posso dizer que Alexandra Lucas Coelho escreve belissimamente bem, de uma forma crua e clara que transmite o âmago das personagens, tendo a capacidade de nos enredar na história e querer devorá-la num só trago.
Adorei o livro. A seguir, vou de certeza comprar o E a Noite Roda e as diversas crónicas. Ou seja, fiquei um fã!
Este livro é um divertimento, ligeiro, picaresco, libertino, erudito, culto (sobretudo referências literárias, obviamente), delicioso, feminista, feminino.
"Gosto de homens. Os homens são a imaturidade das mulheres, difícil não ficar refém deles." (Heinlein dixit: "Once a month, some women act like men act all the time.") "Eis como certo dia, lá no Levante, um homem resolveu escrever que a mulher foi tirada da costela de Adão. Já pensaram que, de facto, alguém escreveu isto pela primeira vez?"
Para além de estar sumptuosamente bem escrito entre uma profusão de insultos e profanidades nunca gratuitos, e contar uma história cativante com personagens fascinantes, a começar pela mignonne protagonista, o livro é giríssimo e uma refutação categórica da noção do Christopher Hitchens na Vanity Fair (e recolhida no Arguably, se não estou em erro) de que as mulheres não têm piada...
Como é mister da Tinta-da-China, o livro em si, quer dizer, o objecto físico propriamente dito, está excelentemente produzido e é um prazer possuir, usufruir e oferecer.
Uma escrita incisiva e clara para uma história envolvente e ritmada. À primeira vista é a história de uma mulher que planeia matar um homem, num gesto de despeito e vingança. Na verdade essa é apenas uma capa para muitas mais histórias dentro da história: sobre a relação de homens e mulheres, sobre amor, sexo e desejo, sobre raiva, ira e vingança, no fundo, sobre a matéria de que somos constituídos. É o primeiro livro que leio da autora: gostei da escrita ritmada, sincera e sem pudor.
Este é, com certeza, um livro recebido pelos leitores e pela crítica de forma nada consensual. Ainda assim, este é um retrato acima de tudo ousado, que concede voz à feminilidade particular e de forma pouco típica. Escreve-se sobre uma mulher que não se encaixa nos cânones do que implica ser mulher (será que alguma se encaixa?). Só por isso, pela rebeldia, pela ousadia, pela ode à mulher díspar, ferida, frágil e fortalecida pela vingança, é um livro que já merece a leitura.
Dei a nota máxima pelo arrojo da autora. Escrita acutilante, crua, corajosa, utilizando uma linguagem "sem papas na língua". Impressionante a descrição das cenas de sexo (pode chocar as "almas mais sensíveis") e de toda a trama, que nos leva a passear pela literatura. Escrita inteligente e criativa. Parabéns à autora (grande começo de carreira).
Literatura, viagem por referencias da autora, Balzac e Nelson Rodrigues, sexo explicito, fantasias à volta de lugares comuns do soft-porn, o mecânico, o atleta, o Picasso, muito bem escritas, do melhor que tenho lido, uso muito interessante dos palavrões. Original, muito legível, um prazer.