Thomas L Friedman - Quente, Plano e Cheio
Recensão em dois pensamentos:
“Cada vez que enche o depósito de combustíveis está a subsidiar e a financiar países com regimes autocráticos e a exportação do terrorismo”.
“A ética, enquanto conjunto de conhecimentos, sentimentos e impulsos interiores que modelam o nosso comportamento, a nossa postura perante o planeta e a preservação de toda a vida, seja qual a forma com que esta se manifeste, deverá impelir-nos para uma conduta mais responsável para com estes valores e levar-nos a abraçar as necessárias modificações do nosso estilo de vida para que possamos legar às gerações futuras um mundo pelo menos semelhante ao que fomos incumbidos de preservar. Um mundo que respeite os oceanos, que não esteja contaminado por químicos e outros poluentes, um mundo onde a biodiversidade não seja afetada pela actividade humana, um mundo pintado com as cores de rios, mares, montanhas, vales, glaciares, calotes polares, recifes de corais e toda a maravilhosa euritmia de vida, desde o mais simples procariota ao mamífero mais complexo, que um dia, há muitos milhares de anos, levou, a que um sapiens olhasse, para cima, para a vastidão vizinha e para dentro de si, e maravilhado com tanta beleza, proporção e equilíbrio, achasse que só um ser magnífico seria capaz de conceber tamanha ordem e harmonia”.
1ª Parte
Para os com um pouco mais disponíveis:
No seu livro “Quente, Plano e Cheio – porque precisamos de uma revolução verde”, Thomas L Friedman aponta-nos as causas do desastre ecológico em curso. Uma catástrofe ocorrida num período conhecido por “Antropoceno” e durante o qual ocorrerá a destruição de grande parte da vida no planeta, pelo menos da vida na forma como a conhecemos. Este processo é habitualmente centrado (e muitas vezes utilizado como sinónimo) a alterações climáticas (aqui o autor refere que devemos abandonar o termo “aquecimento global” por ser demasiado doce e não traduzir os efeitos catastróficos que se vislumbram). Mas o que aí vêm não se resume às alterações climáticas. A equação da catástrofe tem também de incluir a perda de biodiversidade (acelerada em cerca de 1000x em relação ao que é o equilíbrio entre perda e aparecimento de novas espécies), na redução qualitativa e quantitativa de solos aráveis e consequentemente de alimentos, na disponibilidade de água potável, na diversidade e abundância de vida nos oceanos, nas assimetrias sociais para uma e entre sociedades, no aumento da poluição, na escassez de recursos (incluindo os dos combustíveis fósseis) e nas crises por isso desencadeadas, energéticas e no aumento e maior disseminação de pragas e epidemias. Neste cenário escrito em 2007 e publicado em 2008, o autor descreve bem, e com muita antevisão, os adjectivos que actualmente determinam e caracterizam os nossos tempos, i.e., um mundo, Quente, Plano e Cheio. Apesar da descrição estar bem resumida no título, a ordem dos factores está pervertida pois tudo começa num mundo que está “cheio” e cujas consequências foram agravadas pela globalização (plano). Quente, é o resultado destes dois factores.
Cheio, porque estamos num mundo superpovoado. Superpovoado em termos globais com cerca de 8 biliões se seres humanos (7 biliões em inícios de 2000, a atingir os 8 biliões este ano) e com o dia de sobrecarga do planeta em 2021 atingido em 29 de julho. Além do excesso de população o autor identifica e salienta que a distribuição assimetria das populações na ocupação do planeta, seja motivos ambientais, geográficos ou de geopolítica, levou ao advento dos mega agregados com mais de 15 milhões de habitantes. Estas megapolis nunca conseguirão ser localmente sustentáveis, necessitando para sua subsistência, sugar e predar os meios de outras regiões, secando-lhes os recursos e tornando-as estéreis. Esta assimetria da distribuição das populações, para além deste fenómeno de sucção dos recursos por capilaridade, é ainda agravado pelo facto destas “megapolis” serem ainda um polo atrativo para os menos favorecidos de regiões pobres económica e ecologicamente.
Esta pobreza económica e ecológicas resulta em parte da pressão de exploração, mas é também agravada por fenómenos climáticos de eventos extremos, sejam secas, sejam inundações, os quais pressionam e legitimam todo um conjunto de espectativas que num mundo “Plano”, levam a que as pessoas tentem sair do Loop de pobreza em que se encontram.
Como diz o autor, há alguns anos a vida fora dos centros de maior desenvolvimento, onde as comodidades disponibilizadas por uma sociedade de consumo era aceite pelos habitantes das regiões mais desfavorecidas como uma inevitabilidade, mas também como algo de bucólico que remontava à antiga ligação do homem às vastidões onde viveu durante mais de 100.000 anos antes de inventar o sedentarismo e expandir a sua rede de dependências. Se tudo isto tendia a manter as populações na sua geografia de origem, com o aplanamento do globo e das barreiras geográficas este mundo desapareceu. E num mundo plano a miséria energética, de recursos, ambiental ou outra, impeliu as populações a tudo fazerem para cumprir o que entendem ser as suas espectativas de felicidade, podendo estas ser apenas ter energia para cozinhar, água potável para as necessidades básicas, segurança física e moral para si e para os seus, e, no fim, se possível, poderem participar no “grande festim do consumismo”. Tudo isto resulta na migração das populações para os grandes centros urbanos, e a uma crescente fuga das populações de largas parcelas do planeta que cada vez mais vão ficando despovoadas e que só por terem sido objeto de um desgaste para além do ponto de retorno, não são de novo invadidas pela vida na sua forma anterior à acção do homem.
Há assim uma série de tendências que impelem a humanidade para um crescimento assimétrico da população, o qual interage com outras variáveis identificadas elas também como causa do Antropoceno, criando mecanismos de retroalimentação positiva numa sinergia de destruição da qual vai ser difícil libertarmo-nos.
Citando Eduard O.Wilson, a nossa civilização é um misto de emoções pré-históricas, visão medieval com uma tecnologia quase divina. Se o nosso comportamento resulta na exaustão de recursos, foi a nossa tecnologia que transformou o nosso mundo, num lugar “Plano” em que tudo é muito semelhante, em que tudo é global. Esta globalização se facilita a inovação é também responsável por um consumismo crescente e uma necessidade de crescimento económico para sobreviver. Funciona como um comboio em alta velocidade, que protege todos quantos se encontram no compartimento, e participam da cinética do movimento. Todos quantos não participam, e os que ainda que por breves instantes percam a influencia da cinética estão irremediavelmente condenados. É por isso que o modelo nunca é verdadeiramente contestado, é para que a cinética do crescimento e a espiral do consumismo não seja beliscada. E se a vida é difícil para os que por alguns instantes param para refletir, muito mais complicada é para aqueles que pretendem apanhar este comboio em aceleração contínua.
No adjectivo, o “plano” e de “globalização”, T Friedman aponta-nos para as inovações tecnológicas, como o computador pessoal e a World Wide Web, como o principal motor do aplanamento global. Mas outros há como a quebra das diferenças ideológicas e a abertura de fronteiras após a queda do muro de Berlin em 1989 que contribuíram sem dúvida para a globalização e para criar espectativas de melhoria das suas condições de vida em 1,5 biliões de pessoas que viviam com menos de dois dólares/dia (dados de 2008) e todas as outras que não do primeiro mundo, a pretendiam para si o mesmo modo de vida do mundo ocidental, e por isso, um padrão de consumo semelhante. Mas não há recursos disponíveis e o equilíbrio ecológico estabelecido após a última grande extinção há 66 milhões de anos dá-nos desde há algumas décadas sinais inequívocos de disrupção.
Se para um mundo com actuais assimetrias os recursos disponíveis rondam cerca de 50% para o que é consumido, no mundo para que caminhamos e que os países em desenvolvimento exigem (vejam-se as conclusões do COP26), com a humanidade a ter como padrão o consumo americano, cinco planetas não são suficientes.
E é porque o mundo “Cheio” e “Plano”, tem consequências, que estas se refletem no terceiro adjectivo proposto pelo autor, i.e., “Quente”.
Num mundo cada vez mais povoado de seres humanos cada vez mais dependente do crescimento económico para a sua própria sobrevivência (pelo menos é nisso que acreditam), que o resultado está à vista – um aumento global da temperatura média do planeta, alterações climáticas que se manifestam num conjunto de acontecimentos descritos como eventos extremos, e os outros que provavelmente ainda estão para vir.
Numa lógica de interdependência, em que nenhum efeito têm uma única e exclusiva causa, e em que a multi-factoriedade é acompanhada de fenómenos de retroalimentação positiva, as consequências finais para o planeta são: a subida dos níveis das águas, o degelo de glaciares e calotes polares, o aquecimento dos oceanos, e ainda, inundações, secas, pragas, diminuição da produção agrícola, incêndios, deflorestação (a qual é nos nossos dias responsável por 20% do aumento dos níveis de CO2). E como se esta desgraça não bastasse todos estes fenómenos interagem ainda uns com os outros num conjunto de ciclos de retroalimentação positiva em que se torna difícil prever as consequências e a sua magnitude a longo prazo.
Um mundo plano e cheio, não pode ser senão quente porque para se manter sem convulsões sociais depende de factores indissociáveis como um crescimento económico e populacional contínuo, do aumento igualmente contínuo no consumo de combustíveis fósseis, e para que estes se articulem potenciando o crescimento económico, tudo se deve desenvolver num mundo cada vez mais global. Somos viciados em gasolina e deste nosso vício resultam não só o aumento médio da temperatura global do planeta, mas também consequências geopolíticas, que, como diz o autor, se traduzem numa estreita relação entre o preço dos combustíveis (potenciado por uma procura crescente numa economia que energeticamente nunca foi eficiente) e o financiamento de regimes ditatoriais ou terroristas de cujos petrodólares depende a sua sobrevivência enquanto regimes opacos, mas também a exportação e instigação de organizações terroristas. Quanto mais caro o preço do barril de petróleo, maior a sua capacidade de opressão interna e maior a exportação do terrorismo - “cada vez que enche o depósito de combustíveis está a subsidiar e a financiar a exportação do terrorismo”.
Num mundo quente, plano e cheio é difícil intervir e mudar o rumo dos acontecimentos. Como muito bem frisa o autor, não há soluções milagrosas nem fáceis. Todas elas são difíceis e implicam sacrifícios. Quando alguém lhe vier impingir a ideia de haver alternativas fáceis, desconfie sempre, pois uma revolução sem sacrifícios não é uma revolução, é uma festa. Citando Mao Tzé Tung “A revolução não é um jantar de festa, nem um ensaio, nem uma pintura, nem um bordado, não pode avançar devagar, gradualmente, com cuidado, com consideração, com respeito, polidamente, de forma simples e modesta”.
E de uma revolução se trata porque não há soluções mágicas. Não há medidas que isoladamente sejam capazes reverter um sistema todo ele carregado de retroalimentações positivas. É necessário mudar-se o paradigma, para o que é necessária uma abordagem sistemática, uma mudança de sistema, uma revolução.
Segundo T Friedman esta abordagem sistémica tem de se apoiar nas energias “verdes”, i.e., que não promovam emissão de gazes com efeito de estufa; numa melhor eficiência energética das fontes emissoras disponíveis; e num conceito ético da nossa relação com o ambiente e a natureza. Se as duas primeiras dependem dos governos, a última é única e exclusivamente da responsabilidade do cidadão comum.
A ética, enquanto conjunto de conhecimentos, sentimentos e impulsos interiores que modelam o nosso comportamento e a nossa postura perante o planeta e a preservação de toda a vida existente, seja qual a forma em que esta se manifesta, deverá impelir-nos para uma conduta mais responsável para com estes valores, e levar-nos a abraçar as necessárias modificações ao nosso estilo de vida para que possamos legar às gerações futuras um mundo semelhante ao que fomos incumbidos de preservar. Um mundo que respeite os oceanos, que não esteja contaminado por químicos e outros poluentes, um mundo onde a biodiversidade não seja afetada pela actividade humana, um mundo pintado com as cores de rios, mares, montanhas, vales, glaciares, calotes polares, recifes de corais e toda a maravilhosa euritmia de vida, desde o mais simples procariota ao mamífero mais complexo, que um dia, há muitos milhares de anos, levou a que um sapiens olhasse para cima, para a vastidão vizinha e para dentro de si, e maravilhado com tanta beleza, proporção e ordem, achasse que só um ser magnífico seria capaz de conceber tamanha ordem e harmonia.